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domingo, 29 de dezembro de 2013

Serviços secretos dos EUA trabalham para derrubar o presidente do Equador





Nil Nikandrov, Strategic Culture – http://goo.gl/21On61

Tradução: Vila Vudu

Rafael Correa é um dos presidentes latino-americanos que os círculos governamentais norte-americanos consideram incontroláveis e, portanto, especialmente perigosos. Para livrar-se desse tipo de político [eleito], Washington usa um vasto arsenal de meios, desde interferir no processo eleitoral até a eliminação física. Depois da estranha morte de Hugo Chavez, que liderava a resistência latino-americana contra o Império, é Correa que, cada dia mais, vem sendo visto como seu sucessor, o líder de “forças populistas” no continente.

No centro das atividades de política externa de Correa está o fortalecimento de organizações regionais latino-americanas nas quais não há representante dos EUA: a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (CELAC), a União das Nações Sul-americanas (UNASUR), a Aliança Bolivariana para os Povos da América (ALBA) e outras. Correa sempre apoiou as iniciativas de Hugo Chavez que viabilizaram uma menor dependência da região em relação ao Império, o esvaziamento da Doutrina Monroe no Hemisfério Ocidental e a interação entre países latino-americanos com outros centros de poder. Nessa direção, o Equador está fixando um novo padrão e um exemplo, ao estabelecer relações amplas com China e Rússia nos campos político, econômico e militar. A presença dos EUA no país está diminuindo, e o governo Obama tenta romper essa tendência. O presidente Correa foi declarado principal responsável pela deterioração das relações EUA-Equador.

Foi Correa quem iniciou a campanha internacional contra a empresa Chevron. A Corte de Arbitragem em Haia dispensou a empresa de ter de pagar multas de vários bilhões de dólares por poluir a bacia do Rio Amazonas em território do Equador. Correa não aceitou a decisão, que o Equador considerou humilhante e injustificada. Visitou pessoalmente a zona do desastre e mostrou a jornalistas e câmeras de televisão as mãos cobertas de óleo cru deixado a vazar num antigo ponto de extração, e disse: “Esse é o resultado de a empresa usar aqui tecnologias ultrapassadas”.



Correa conclamou os consumidores a não comprar produtos da Chevron. Um tribunal equatoriano acolheu processo iniciado por índios que habitam a área do desastre ecológico, que exigiu que a empresa pagasse multa de 19 bilhões de dólares em danos ao meio ambiente e contra a saúde da população. Fazendo bom uso da grande experiência que acumulou nesses processos, Chevron conseguiu obter uma sentença favorável da Corte Internacional de Arbitragem em Haia.

Mas Correa não desistiu. Obteve o apoio da UNASUR e da ALBA e conclamou a comunidade internacional a manifestar solidariedade ao Equador. Já não há propriedades da empresa Chevron no Equador, mas a multa exigida pelos equatorianos poderá ser paga com propriedades da empresa na Argentina, Brasil ou Canadá – o que implica graves consequências financeiras para a empresa.

O governo Obama decidiu defender os interesses da Chevron a qualquer custo. Esse é um dos fatores pelos quais está direcionando os serviços secretos dos EUA para que deem solução radical ao “problema Correa”.

O presidente do Equador também trabalha contra o avanço da Aliança do Pacífico, um dos projetos geopolíticos dos neoliberais de Washington e que inclui México, Colômbia, Peru e Chile. A Aliança foi criada para neutralizar o bloco da ALBA, e a presença do Equador na ALBA não contribui para os objetivos estratégicos dos EUA naquela região do Pacífico.

A espionagem dos serviços secretos dos EUA contra o presidente do Equador é cada dia mais visível. Conversas telefônicas e comunicações em geral interceptadas no círculo mais próximo do presidente, de seus agentes de segurança e de sua escolta pessoal ajudam os norte-americanos a saber de todos os movimentos do presidente, eventos aos quais comparece, listas de participantes e sistemas de segurança. O monitoramento ininterrupto oferece farto material para identificar pontos de vulnerabilidade na organização da segurança. Recentemente, na sua já tradicional fala dos sábados, por televisão, o presidente Correa falou aos equatorianos sobre a suspeita concentração de pessoal militar na embaixada dos EUA em Quito.

“Todas as embaixadas têm adidos militares” – disse Correa. – “A maioria, tem um. Mas aqui no Equador eles têm mais de 50!”

Disse também que instruiu o ministro de Relações Exteriores Ricardo Patino, que “Verifique essa informação! Esse número gigante de militares norte-americanos aqui não é possível! Terão de reduzi-lo ao nível normal”.

O presidente também exigiu que seja investigado um incidente na fronteira Equador-Colômbia, de queda de um helicóptero equatoriano, com vários militares dos EUA a bordo. A preocupação de Correa é compreensível; a base dos EUA em Manta foi fechada em 2009, mas assessores militares do Pentágono e agentes dos serviços secretos dos EUA continuam a manter operações em território equatoriano sem qualquer limitação.

A intensificação da espionagem e de atividades de subversão por agentes norte-americanos no Equador é óbvia. Segundo informação obtida de especialistas cubanos, divulgadas pelo site Contrainjerencia.com, só o número de agentes da CIA já dobrou, entre 2012-2013, na ‘base’ equatoriana. Dúzias de novos agentes chegaram ao país. Operam não só a partir da embaixada dos EUA em Quito, onde há, no mínimo, uma centena de diplomatas (!), mas também usam o consulado em Guayaquil. Para criar acomodações para o número crescente de agentes norte-americanos de espionagem (“pessoal de inteligência”) nessa importante cidade portuária, estrategicamente crucial, o Departamento de Estado teve de construir um novo prédio para o consulado, o qual, segundo agência de inteligência que colabora com o Equador, abriga o equipamento eletrônico da Agência de Segurança Nacional dos EUA.
General David Lindwall
O cônsul dos EUA em Guayaquil é David Lindwall, chegado ao país depois de ter sérvio no Iraque como Conselheiro de Assuntos Político-Militares. Lindwall também serviu como Adido Político nas embaixadas em Bogotá, Manágua, Tegucigalpa, Assunção e outras capitais latino-americanas.

O nome de Lindwall aparece com alta ocorrência nos telegramas diplomáticos distribuídos por WikiLeaks. Qualquer rápida pesquisa nos telegramas assinados por ele obriga a concluir que Lindwall é experiente funcionário de carreira da CIA, muito informado sobre a América Latina, enviado ao Equador para resolver problemas muito sensíveis.

O presidente Correa várias vezes falou dos EUA como “potência arrogante” que tenta impor ao mundo o que entende que sejam “valores democráticos universais” e vive a dar aos outros “lições de moral e boas maneiras”. O presidente frequentemente repete que os EUA têm um dos sistemas eleitorais mais imperfeitos do mundo, que permite a eleição de candidatos derrotados nas urnas. Correa considera “insultantes” as tentativas da Agência de Desenvolvimento Internacional (USAID), para impor padrões da democracia norte-americana ao Equador e outros países, como se fossem colônias dos EUA.
Recentemente, ao comentar o fim do financiamento que a USAID dava a projetos no Equador, no valor de 32 milhões de dólares, Correa sugeriu, não sem sarcasmo, que Washington aplicasse a mesma quantia para aprimorar a democracia norte-americana.

O escritório da USAID está deixando o Equador, mas as operações de espionagem dos EUA para desestabilizar o país continuam. Ao que tudo indica, novos ataques nessa área podem estar em conexão com planos de Correa para reduzir o tamanho das forças armadas e transferir parte do pessoal militar para as agências policiais. “Exércitos de dissidentes” anônimos já divulgaram declaração hostil a Correa e suas “tentativas para tomar o lugar de Chávez no continente”. Até o palavreado indica quais são as forças por trás da campanha que está sendo lançada contra Correa.

Durante levante policial em setembro de 2010, o presidente do Equador foi apanhado no fogo cruzado de atiradores postados em prédios; daquela vez, escapou ileso. É perfeitamente possível que a inteligência dos EUA esteja planejando coisa semelhante para futuro próximo. Afinal, depois dos ataques contra New York em 2001, as agências norte-americanas de espionagem receberam carta branca para eliminar todos os declarados inimigos dos EUA. Ninguém cancelou essa ordem.



Fonte: IrãNews
Imagens: Google


No quinto aniversário da operação "chumbo fundido"





O massacre continua. Corpo da menina Hala Bhairi, com três anos de idade na morgue do Hospital de Gaza. Foi morta no dia 24 de dezembro após um ataques de caças israelenses.


por MPPM [*]

Criança assassinada pela aviação israelense. Cidade de Gaza, 27 de Dezembro de 2008. É um sábado e pouco falta para o meio-dia. As crianças regressam da escola e as ruas estão repletas de pessoas. Poucos minutos mais tarde, mais de 200 estarão mortas e cerca de sete centenas estarão feridas. Israel acaba de desencadear o seu covarde ataque que batiza de "Operação Chumbo Fundido". Dezenas de caças F-16, helicópteros Apache e veículos aéreos não tripulados bombardeiam, em simultâneo, mais de uma centena de locais em toda a Faixa de Gaza. Nos dias seguintes, continuam os bombardeamentos, culminando numa invasão terrestre em 3 de Janeiro de 2009. Quando termina a operação, em 18 de Janeiro, debaixo de forte pressão internacional e dois dias antes da tomada de posse de Barack Obama, deixa mais de 1400 mortos palestinos – entre os quais 138 crianças – e um enorme rasto de destruição que paralisa a vida de Gaza.

A operação foi cuidadosamente planejada ao longo de meses e as vítimas civis não são "danos colaterais". São uma consequência da política de terror (doutrina Dahiya) que Israel tinha testado no Líbano em 2006 e que visa provocar o grau máximo de destruição e de sofrimento nas populações para as levar a revoltar-se contra os seus governantes. A população de Gaza estava ser punida por, em eleições internacionalmente reconhecidas como livres e democráticas, ter dado ao seu voto aos candidatos errados, na óptica de Israel e seus aliados.

Inquéritos conduzidos por investigadores internacionais isentos reunirem evidência de que Israel tinha cometido inúmeros crimes de guerra durante a "Operação Chumbo Fundido". Estão documentados, nomeadamente, os massacres das famílias Samouni e Al-Daya, o assassinato de portadores de bandeiras brancas, a utilização de bombas incendiárias de fósforo branco em áreas populacionais, a interdição de prestação de socorro a vítimas.

A "Operação Chumbo Fundido" chocou o mundo civilizado pela sua dimensão e brutalidade. Mas não podemos esquecer que, no prosseguimento da sua política de limpeza étnica da população palestina, que vem pondo em prática desde a sua fundação em 1948, o Estado de Israel, todos os dias, em maior ou menor escala, leva a cabo agressões contra palestinos, cerceando-lhes direitos humanos fundamentais, inviabilizando a constituição do Estado Palestino com total desrespeito pelo direito internacional e humanitário.

Ainda na semana passada, as forças armadas israelenses mataram um habitante de Gaza que procurava sucata dentro da "zona tampão de segurança" (esta "zona" estende-se entre 500 e 1500 metros dentro da Faixa de Gaza, ocupando cerca de 17% do território e 35% da terra arável, afetando a vida de mais de 100.000 habitantes de Gaza). Já esta semana, em Gaza, na terça-feira, uma criança de três anos foi morta e a sua mãe e irmão foram feridos num ataque retaliatório conduzido pela força aérea de Israel, e, na quinta-feira, novos ataques punitivos com mísseis feriram mais dois palestinos. Enquanto isto, Israel anuncia planos para construção de mais 1.400 casas de colonos, em Ramat Shlomo (Jerusalém Leste) e na Margem Ocidental, em claro desafio aos apelos dos Estados Unidos e da União Europeia para viabilizar o frágil processo de paz que John Kerry tenta pôr de pé.

Neste quinto aniversário da bárbara agressão contra a população indefesa de Gaza, evoquemos a memória das vítimas mas, conscientes de que só a solidariedade internacional pode reverter este estado de coisas, unamo-nos para exigir que, ao povo palestino, seja reconhecido o seu direito a viver em paz e liberdade no seu Estado soberano e independente, nos territórios que Israel ocupa desde 1967, com Jerusalém Leste como capital, e com uma solução justa para os direitos dos refugiados.


A Direcção Nacional do MPPM

[*] Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Oriente Médio

Este comunicado encontra-se em http://resistir.info/

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Hollywood: Instrumento para a desumanização de um povo








Outra desinformação da Rede Globo





Por Patrícia Al-moor *

Não costumo assistir televisão e confesso que não é raro eu me surpreender com algum tipo de discussão envolvendo algum episódio, personagem ou desinformação sendo difundida de forma no mínimo leviana pela televisão brasileira. Se considerarmos que as telenovelas também são possuidoras de uma importância cultural e política, tendo em vista sua grande audiência e o fato de que elas deixaram de ser apenas voltadas para o lazer para se tornarem um espaço cultural de intervenção para a discussão e introdução de hábitos e valores, talvez seja possível percorrer mais um caminho para se compreender a forma como os árabes – e mais recentemente, os muçulmanos, são vistos no Brasil.

Em 2010, realizei um levantamento exploratório com o intuito de verificar a quantidade de novelas em que havia presente um ou mais personagens árabes. O objetivo foi averiguar possíveis mudanças na forma como eles estão presentes no imaginário social da população brasileira. Tal levantamento permitiu constatar que entre 1967 e 2009 personagens árabes apareceram com algum destaque em cerca de 10 telenovelas nacionais. Desse total, os árabes adquiriram status de protagonistas principais em apenas duas delas, a saber: “O Sheik de Agadir” (1967) e “O Clone” (2001).

Um dos aspectos que mais chamou a atenção foi que após 2001, ou seja, período correspondente àquele do atentado de 11 de setembro ao World Trade Center nos EUA, a teledramaturgia brasileira levou quase uma década até contar novamente com algum personagem de origem árabe.

Curiosamente – ou não -, em 2009, a emissora de televisão Record lançou “Poder Paralelo”, uma novela que contou com 2 personagens de origem árabe, os quais inauguraram uma nova forma de representá-los na teledramaturgia brasileira aos caracterizá-los como terroristas.

De lá para cá, eu não pude acompanhar com a devida atenção o eventual aparecimento de personagens árabes (e/ou muçulmanos) em novelas brasileiras, mas hoje me surpreendi ao ver uma discussão no grupo Somos Árabes sobre um episódio ocorrido em um folhetim exibido atualmente: “Amor à vida”.

Como eu desconhecia a trama, tentei ler os comentários deixados no grupo enquanto que me situava um pouco melhor em relação ao assunto que teria gerado a polêmica. Por fim, após pesquisar um pouco – provavelmente não com a atenção necessária, pois meu dia foi super corrido, eu percebi que novamente a televisão brasileira tem prestado um desserviço à população disseminando uma série de desinformações e estereótipos, caricaturas e contribuindo para reforçar aquilo que o intelectual palestino Edward Said já chamava atenção no final da década de 1970: o fato de que cada vez mais o árabe aparece por toda a parte como algo ameaçador.

Se no Brasil esse imaginário demorou algumas décadas até ganhar força, atualmente, parece que a nossa televisão brasileira não tem se esforçado muito para esclarecer à população o quão prejudiciais esses imaginários criados a respeito de culturas estrangeiras, religiões etc. podem ser.

Lamento muito que o autor da novela exibida atualmente, o senhor Walcyr Carrasco, não tenha sido capaz de romper com esse ciclo de preconceito e desinformação a respeito do povo palestino. Inacreditável pensar que cenas como essa que pode ser vista clicando no link  sejam exibidas de forma irresponsável, e que não gerem no mínimo um repúdio por parte de uma sociedade como a nossa, que convive com distintas presenças árabes em tantas esferas do cotidiano e, ao meu ver, deveria possuir esclarecimento suficiente para compreender que o sofrimento de um povo e as dramáticas consequências devem ser tratadas com o devido cuidado e respeito.

Do contrário, enquanto continuarem difundindo desinformação, mais ódio nascerá nos corações das pessoas e mais distante da paz esse povo ficará.

Venho por meio desta nota publicar meu repúdio ao autor da novela, sugerindo ainda, que este senhor pesquise melhor sobre aquilo a que se propõe escrever, tratando com respeito e responsabilidade assuntos sérios que envolvem tanto sofrimento e dor. Demonizar uma religião ou um povo é um ato grave, irresponsável e possui consequências desastrosas.


*Patricia El-moor é doutoranda em sociologia pela Universidade de Brasília, criadora da página no facebook Presença Árabe no Brasil e idealizadora do projeto Presença Árabe no Brasil em Imagens.


Fonte: Oriente Mídia

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

QUEM SÃO OS HERÓIS DE VERDADE? “Cuidado com os burros motivados”





A revista Isto é publicou esta entrevista por Camilo Vanucci, gostei e resolvi compartilhar.

O entrevistado é Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra, com Pós-Graduação em administração de empresas pela USP, consultor organizacional e conferencista de renome nacional e internacional.

Em “Heróis de Verdade”, o escritor combate a supervalorização das Aparências, diz que falta ao Brasil competência, e não auto-estima.

ISTOÉ – QUEM SÃO OS HERÓIS DE VERDADE?

Roberto Shinyashiki — Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe. O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura.
Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes. E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados. Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu a pena porque não conseguiu ter o carro nem a casa maravilhosa.
Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes. Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros. São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.

ISTOÉ — O SR. CITARIA EXEMPLOS?

Shinyashiki — Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos,empregado em uma farmácia . Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis. Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem. Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito “100% Jardim Irene”. É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes. O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana. Em países como Japão, Suécia e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata? Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher que, embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

ISTOÉ — Qual o resultado disso?

Shinyashiki — Paranóia e depressão cada vez mais precoces. O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece. A única coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança. Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas. Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.

ISTOÉ – Por quê?

Shinyashiki — O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais marketing pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência. Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras. Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei-a na hora. Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTOÉ — Há um script estabelecido?

Shinyashiki — Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um Presidente de multinacional no programa O aprendiz ? “Qual é seu defeito?” Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal: “Eu mergulho de cabeça na empresa.
Preciso aprender a relaxar”. É exatamente o que o Chefe quer escutar. Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido?
É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder.
O vice-presidente de uma as maiores empresas do planeta me disse: Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir”. Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor?

ISTOÉ — Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?

Shinyashiki — Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência. CUIDADO COM OS BURROS MOTIVADOS. Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

ISTOÉ — Está sobrando auto-estima?

Shinyashiki — Falta às pessoas a verdadeira auto-estima. Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa. Antes, o ter conseguia substituir o ser. O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom. Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer. As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam. E poucos são humildes para confessar que não sabem. Há muitas mulheres solitárias no Brasil que preferem dizer que é melhor assim. Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

ISTOÉ — Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?

Shinyashiki — Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis. Quem vai salvar o Brasil? O Lula. Quem vai salvar o time? O técnico. Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta. O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia: 
“Quando você quiser entender a essência do ser
humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham”. Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia. Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo. A gente tem de parar de procurar super-heróis. Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

ISTOÉ — O conceito muda quando a expectativa não se comprova?

Shinyashiki — Exatamente. A gente não é super-herói nem superfracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso. Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram. A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

ISTOÉ — É comum colocar a culpa nos outros?

Shinyashiki — Sim. Há uma tendência a reclamar, dar desculpas e acusar alguém. Eu vejo as pessoas escondendo suas humanidades. Todas as empresas definem uma meta de crescimento no começo do ano. O presidente estabelece que a meta
é crescer 15%, mas, se perguntar a ele em que está baseada essa expectativa, ele não vai saber responder. Ele estabelece um valor aleatoriamente, os diretores fingem que é factível e os vendedores já partem do princípio de que a meta não será cumprida e passam a buscar explicações para, no final do ano, justificar. A maioria das metas estabelecidas no Brasil não leva em conta a evolução do setor. É uma chutação total.

ISTOÉ — Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?

Shinyashiki — Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente. Há várias coisas que eu queria e não consegui. Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos. Com uma criança especial, eu aprendi que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse. Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo.
O resto foram apostas e erros. Dia desses apostei na edição de um livro que não deu certo. Um amigão me perguntou: ”Quem decidiu publicar esse livro?”
Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu.
Não preciso mentir.

ISTOÉ – Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?

Shinyashiki — O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las. São três fraquezas. A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança. Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram.
Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno. Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards. Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates. O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

ISTOÉ — Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?

Shinyashiki — A sociedade quer definir o que é certo.

São quatro loucuras da sociedade.

A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se ele não tivesse significados individuais.

A segunda loucura é: Você tem de estar feliz todos os dias.

A terceira é: Você tem que comprar tudo o que puder.

O resultado é esse consumismo absurdo.

Por fim, a quarta loucura:
Você tem de fazer as coisas do jeito certo.

Jeito certo não existe!

Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito. Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento.
Você precisa ser feliz tomando sorvete, levando os filhos para brincar.

ISTOÉ — O sr. visita mestres na Índia com freqüência. Há alguma parábola que o sr. aprendeu com eles que o ajude a agir?

Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes.
Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte. A maior parte pega o médico pela camisa e diz: “Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero ser feliz.” Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis. Uma história que aprendi na Índia me ensinou muito. O sujeito fugia de um urso e caiu em um barranco. Conseguiu se pendurar em algumas raízes. O urso tentava pegá-lo. Embaixo, onças pulavam para agarrar seu pé. No maior sufoco, o sujeito olha para o lado e vê um arbusto com um morango. Ele pega o morango, admira sua beleza e o saboreia. Cada vez mais nós temos ursos e onças à nossa volta. Mas é preciso comer os morangos.


Fonte: avidasimplesassim
Imagem: Google (colocada por este blog)

Netanyahu tenta sabotar o acordo nuclear do Irã com o G5+1




A agência de notícias britânica Reuters, disse neste domingo (22) que o regime israelense adotou uma nova tática para inviabilizar o acordo nuclear entre o Irã e o G5 +1 (EUA, Reino Unido, Rússia, China e França, mais Alemanha).

Em um artigo, a fonte acredita que o regime israelense do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu trabalha para interromper o pacto nuclear, mediante o aumento gradual de suas criticas para evitar a crescente onda de críticas contra ele, até mesmo por países ocidentais.

"Mesmo as pessoas próximas a Netanyahu confessam que ele tem chegado às raias da loucura sobre o caso nuclear iraniano e trabalha junto às potencias ocidentais para que o programa não seja reconhecido", diz ele.

Segundo a Reuters, como Netanyahu tem em conta que não pode convencer a administração do presidente dos EUA, Barack Obama, de tomar táticas destrutivas contra o Irã, se pôs a pressionar senadores americanos para impedir um acordo final que é contra os interesses do regime em Tel Aviv.

Netanyahu só defende segundo a Reuters, um acordo que inclua o desmantelamento total de energia nuclear do programa do Irã e cessar o desenvolvimento de mísseis balísticos do Irã, requisitos que não foram considerados no acordo alcançado no mês passado na Suíça entre Teerã e o G5+1.

Na quinta-feira passada, 26 senadores americanos apresentaram um projeto de lei que exige da Casa Branca a obrigação de apoiar o regime israelense em um possível ataque militar contra o Irã, além de rejeitar definitivamente o direito de Teerã de enriquecer urânio.

Várias fontes diplomáticas afirmam que essa iniciativa, que foi descrita por Obama como “desnecessário”, veio sob a pressão do lobby sionista.


Netanyahu mantém sua posição firme contra as atividades nucleares pacíficas do Irã, enquanto seu regime tem armazenado entre 200 e 400 ogivas nucleares e é a única área que nunca permitiu que inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) fiscalizem suas instalações nucleares.



Fonte: IrãNews
Imagem: Veterans Today (colocada por este blog)


E então é Natal




E o que nós fizemos?

E o que você tem feito?






Um alegre Natal
E um Feliz Ano Novo

Sem sofrimento

Para o fraco e para o forte 
Para o rico e para o pobre
Para o negro e para o branco
Para o amarelo e para o vermelho




sábado, 21 de dezembro de 2013

O que mudou de fato no mundo em 2013?





Como sempre, se acumulam uma quantidade de fatos – entre mortes, eleições, sublevações, etc. – que se destacam jornalisticamente no mundo, mas dificultam a compreensão das alterações nas relações de poder, as que efetivamente contam na evolução da situação internacional.

Por Emir Sader*, em seu blog

No emaranhado de acontecimentos, o mais importante foi a mudança de clima no cenário internacional. Desde que triunfou na guerra fria, os EUA tem tido como postura diante dos conflitos internacionais, sua militarização. Transferir para o campo em que sua superioridade é manifesta, tem sido a característica principal da ação imperial dos EUA. Foi assim no Afeganistão, no Iraque, por forças intermediárias na Líbia. E se encaminhava para ser assim nos casos da Síria e do Irã.

De repente, pegando ao Secretario de Estado norte-americano, John Kerry, pela palavra, o governo russo propôs ao da Síria um acordo, que desconcertou o governo norte-americano, até que não pôde deixar de aceitar. Isto foi possível porque Obama não conseguiu criar as condições políticas para mais uma ofensiva militar dos EUA. Primeiro o Parlamento britânico negou o apoio a Washington.

Depois, foi ficando claro que nem a opinião publica, nem o Congresso norte-americano, nem os militares dos EUA, estavam a favor da ofensiva anunciada ou do tipo de ofensiva proposta.

O certo é que os EUA foram levados a aceitar a proposta russa, o que abriu as portas para outros desdobramentos, entre eles, combinado com as eleições no Irã, para a abertura de negociações políticas também com esse país por parte dos EUA. No seu conjunto, se desativava o foco mais perigoso de novos conflitos armados.

Como consequência, Israel, a Arábia Saudita, o Kuwait, ficaram isolados nas suas posições favoráveis a ações militares contra a Síria e até contra o Irã. Foi se instalando um clima de negociações, convocando-se de novo uma Conferência na segunda quinzena de janeiro, em Genebra, para discutir um acordo de paz. Uma conferência que não coloca como condição a questão da saída do governo de Assad, como se fazia anteriormente.

A oposição teve que aceitar participar, mesmo nessas condições. E ainda teve a surpresa que os EUA e a Grã Bretanha suspenderam o fornecimento de apoio militar aos setores opositores considerados moderados, que foram totalmente superados pelos fundamentalistas, apoiados pela Arábia Saudita e pelo Kuwait.

Como dois pontos determinam um plano, as negociações sobre a Síria abriram campo para as negociações dos EUA com o Irã, aproveitando-se da eleição do novo presidente iraniano. Desenhou-se, em poucas semanas, um quadro totalmente diverso daquele que tinha imperado ao longo de quase todo o ano. Os EUA passaram da ofensiva à defensiva, a Rússia, de ator marginal, a agente central nas negociações de paz, a ponto que a Forbes, pela primeira vez, elegeu Vladimir Putin como o homem mair forte do mundo, na frente de Obama. Isso se deve não ao poderio militar ou econômico da Rússia, mas ao poder de iniciativa política e de negociação que o país passou a ter.






*Emir Sader é sociólogo e cientista político

Fonte: Vermelho
Imagens: Google (colocadas por este blog)


quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Os aviões não pilotados: a violação mais covarde dos direitos humanos






por Leonardo Boff *


Vivemos num mundo no qual os direitos humanos são violados, praticamente em todos os níveis, familiar, local, nacional e planetário.

O Relatório Anual da Anistia Internacional de 2013 com referência a 2012 cobrindo 159 países faz exatamente esta dolorosa constatação. Ao invés de avançarmos no respeito à dignidade humana e aos direitos das pessoas, dos povos e dos ecossistemas estamos regredindo a níveis de barbárie. As violações não conhecem fronteiras e as formas desta agressão se sofisticam cada vez mais.

A forma mais covarde é a ação dos “drones”, aviões não pilotados que a partir de alguma base do Texas, dirigidos por um jovem militar diante de uma telinha de televisão, como se estivesse jogando, consegue identificar um grupo de afegãos celebrando um casamento e dentro do qual, presumivelmente deverá haver algum guerrilheiro da Al Qaeda. Basta esta suposição para com um pequeno clique lançar uma bomba que aniquila todo o grupo, com muitas mães e crianças inocentes.

É a forma perversa da guerra preventiva, inaugurada por Bush e criminosamente levada avante pelo Presidente Obama que não cumpriu as promessas de campanha com referência aos direitos humanos, seja ao fechamento de Guantánamo, seja à supressão do “Ato Patriótico”(antipatriótico) pelo qual qualquer pessoa dentro dos USA pode ser detida por suspeita de terrorismo, sem necessidade de avisar a família. Isso significa sequestro ilegal que nós na América Latina conhecemos de sobejo. Verifica-se em termos econômicos e também de direitos humanos uma verdadeira latino-americanização dos USA no estilo dos nossos piores momentos da época de chumbo das ditaduras militares. Hoje, consoante o Relatório da Anistia Internacional, o país que mais viola direitos de pessoas e de povos são os Estados Unidos.

Com a maior indiferença, qual imperador romano absoluto, Obama nega-se a dar qualquer justificativa suficiente sobre a espionagem mundial que seu Governo faz a pretexto da segurança nacional, cobrindo áreas que vão de trocas de e-mails amorosos entre dois apaixonados até dos negócios sigilosos e bilionários da Petrobrás, violando o direito à privacidade das pessoas e à soberania de todo um país. A segurança anula a validade dos direitos irrenunciáveis.

O Continente que mais violações sofre é a África. É o Continente esquecido e vandalizado. Terras são compradas (land grabbing) por grandes corporações e pela China para nelas produzirem alimentos para suas populações. É uma neocolonização mais perversa que a anterior.

Os milhares e milhares de refugiados e imigrantes por razões de fome e de erosão de suas terras são os mais vulneráveis. Constituem uma subclasse de pessoas, rejeitadas por quase todos os países, “numa globalização da insensibilidade”, como a chamou o Papa Francisco. Dramática, diz o Relatório da Anistia Internacional, é a situação das mulheres. Constituem mais da metade da humanidade, muitíssimas delas sujeitas a violências de todo tipo e em várias partes da África e da Ásia ainda obrigadas à mutilação genital.

A situação de nosso país é preocupante dado o nível de violência que campeia em todas as partes. Diria, não há violência: estamos montados sobre estruturas de violência sistêmica que pesa sobre mais da metade da população afrodescendente, sobre os indígenas que lutam por preservar suas terras contra a voracidade impune do agronegócio, sobre os pobres em geral e sobre os LGBT, discriminados e até mortos. Porque nunca fizemos uma reforma agrária, nem política, nem tributária assistimos nossas cidades se cercarem de centenas e centenas de “comunidades pobres”(favelas) onde os direitos à saúde, educação, à infraestrutura e à segurança são deficitariamente garantidos. A desigualdade, outro nome para a injustiça social, provoca as principais violações.

O fundamento último do cultivo dos direitos humanos reside na dignidade de cada pessoa humana e no respeito que lhe é devido. Dignidade significa que ela é portadora de espírito e de liberdade que lhe permite moldar sua própria vida. O respeito é o reconhecimento de que cada ser humano possui um valor intrínseco, é um fim em si mesmo e jamais meio para qualquer outra coisa. Diante de cada ser humano, por anônimo que seja, todo poder encontra o seu limite, também o Estado.

O fato é que vivemos num tipo de sociedade mundial que colocou a economia como seu eixo estruturador. A razão é só utilitarista e tudo, até a pessoa humana, como o denuncia o Papa Francisco é feita “um bem de consumo que uma vez usado pode ser jogado fora”. Numa sociedade assim não há lugar para direitos, apenas para interesses. Até o direito sagrado à comida e à bebida só é garantido para quem puder pagar. Caso contrário, estará ao pé da mesa, junto aos cães esperando alguma migalha que caia da mesa farta dos ‘epulões’.

Neste sistema econômico, político e comercial se assentam as causas principais, não exclusivas, que levam permanentemente à violação da dignidade humana. O sistema vigente não ama as pessoas, apenas sua capacidade de produzir e de consumir. De resto, são apenas resto, óleo gasto na produção.

A tarefa além de humanitária e ética é principalmente política: como transformar este tipo de sociedade malvada numa sociedade onde os humanos possam se tratar humanamente e gozar de direitos básicos. Caso contrário a violência é a norma e a civilização se degrada em barbárie.


*Leonardo Boff é um teólogo brasileiro, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação no Brasil.



Fonte: Sul21

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

E os Clintons? Porão a pique a reaproximação EUA-Irã?






Franklin Lamb (de Beirute), Counterpunch

http://www.counterpunch.org/2013/12/13/will-les-clintons-scuttle-usiran-rapproachement/


Sim, se puderem, e mancomunados com o lobby sionista nos EUA, talvez consigam. Os sionistas estão atualmente ardendo de desejo de financiar e promover o mais novo projeto dos Clintons, segundo fontes de New Orleans próximas do marketeiro político James Carville, veterano de três campanhas presidenciais de Clinton e duas de Obama. Carville jurou recentemente, bebendo com amigos em seu bar favorito do French Quarter, que cansou do trabalho de “gigolô dos Clintons”. E que hoje “realmente admira o atual presidente”.

Mas Bill não cansou nem chegou, de/a coisa alguma.

Apesar do patrimônio dos Clinton, agora estimado em dezenas de milhões de dólares, e que continua em rápida expansão desde os dias de Casa Branca, o ex-presidente, dizem as notícias, anda mal-humorado e rabugento.



Posto em versão muito simples, o problema de Bill tem a ver com seu planejado “terceiro ato” na vida. O Clinton precisa de que A Clinton volte ao Salão Oval, que, na opinião do O, pertence a ele.  Mas A anda cansada e lamenta que não quer, mesmo, passar por outra temporada cruel e humilhante (palavra dela) de campanha presidencial. Somando-se à pressão em casa, há também o fato de que a campanha eleitoral de 2016 está começando, com os aspirantes à Casa Branca já esvoaçando em torno de Iowa e New Hampshire e com miríades de novas caras lançando seus ‘balões de ensaio’.


A Sra. Clinton, dizem as notícias, está ouvindo súplicas e suspiros do marido, no sentido de que ela tem de focar-se em conseguir ser eleita em novembro de 2016, que ele a ajudará muito. Se tudo sair como o esperado, o nome dA Clinton estará na papelada da Casa Branca, mas O comandará o show até 2024 “detrás das cortinas, e será o faz-tudo nos quintais dos EUA” – segundo ex-membro do Comitê Nacional Republicano, do qual esse observador que vos escreve foi colega quando nós dois éramos membros do Comitê Nacional Democrata do Oregon, há muitos anos.


Há vários problemas que começam a vir à tona, alguns, parece, não antecipados, com o plano cuidadosamente e sabidamente arquitetado pelo ex-presidente. Um dos maiores problemas, pelo que se vê, é o presidente Obama. “Barack parece ameaçar quebrar o modelão do negro cabisbaixo e subserviente, e aparece todo arrogância e radicalismo, a fazer coisas nas quais diz que acreditava desde criancinha, mas escondeu até o último mandato” – segundo a mesma fonte. A história dos EUA revela muitas metamorfoses semelhantes, de presidente ‘pato-manco’ derrubado um passo antes de alcançar os objetivos de segundo mandato. Obama parece a postos para lutar pelos dele.

Como tem dito cada vez mais frequentemente em conversas privadas com amigos no Congresso, Barack Obama quer extrair os EUA, pelo menos em parte, do pesadelo do Oriente Médio; pôr fim a mais de uma década de guerras criminosas; falar a verdade sobre a falsa ‘guerra ao terror’; reduzir o financiamento; e até rasgar pelo menos parte dos véus que, nos EUA e na ONU, dão cobertura política ao regime sionista que ainda ocupa ilegalmente a Palestina. E deseja apaixonadamente “reconstruir a escola, o sistema de saúde e a infraestrutura pseudo norte-americanista” – como meu informante destacou numa de suas aparições ao lado do indicado dos Republicanos à presidência, Mitt Romney, pouco antes do sucesso maior que o esperado de Obama, na noite das eleições.

O principal problema é que os Republicanos não parecem estar muito conectados com os eleitores e ainda têm muito a fazer para capitalizar os fracassos de Obama. O campo dos Clintons vê o legado pelo qual Obama se empenha tanto como fatal às suas chances, no mínimo porque Obama não esconde de ninguém que detestou o obstrucionismo de Telavive durante as “negociações de paz”, o qual, dizem muitos, acabou de convencer Obama de que é complô para roubar mais terra palestina e minar qualquer possibilidade real de que chegue a haver um estado palestino viável.


O que se diz é que os Clintons estão convencidos de que se Obama se desgarrar do establishment de Washington e voltar às ideias de sua nada convencional mãe – estudante ativista, pelo multiculturalismo, que não só defendeu plena igualdade de gênero e de raça, mas casou-se com um africano, nesse caso a direita norte-americana e o lobby sionista se organizarão para pôr um Republicano na Casa Branca.

Um operador político que habita a colina do Capitólio e que segue de perto a política da presidência diz que, nas últimas semanas, uma questão passou a simbolizar as metas do governo Obama e todo o potencial legado de seus dois governos: a restauração de alguma espécie de normalização das relações entre EUA e Irã.

John Kerry, potencial candidato, ele mesmo, à Casa Branca em 2016, é nome que pode vir a ganhar muito, nas urnas, pelo papel que tenha nesse processo, uma vez que suas ideias estão cada dia mais bem sincronizadas com a opinião pública dos EUA – 80% da qual, segundo pesquisas recentes, é a favor de normalizarem-se as relações com o Irã.


Para O Clinton e sua equipe, não são boas notícias. Muito menos, para o lobby sionista no Congresso que sempre, inalteravelmente, vota pelos interesses de Israel, sempre acima das necessidades e desejos de seus próprios eleitores. Por essa razão, Telavive saiu com força total para forçar o Congresso a impor mais sanções contra o povo do Irã e para elevar as barreiras de contenção contra a iniciativa Obama-Kerry. Essa semana, fracassaram novamente na tentativa de afogar as esperanças de melhores relações com o Irã, por mais que tenham tentado, e não conseguiram fazer valer ameaças de que obrigariam o governo de Rouhani em Teerã a sair do jogo. Mas fizeram avançar algumas sanções políticas, que continuam a massacrar a população civil da República Islâmica, na esperança de assim inflar movimento de rua por ‘mudança de regime’, dados os altos preços dos alimentos e a falta de remédios para doenças crônicas.

Alguns do cast de atores que surgem em cena com a regularidade de figurantes da Broadway, quando convocados pelo AIPAC – senadores Eric Cantor, Mark Kirk, Ed Royce, Elliot Engel, Robert Menendez, Michael McCaul, o deputado Brad Sherman dentre outros, não conseguiram desmontar os argumentos de John Kerry no final dessa semana, no Congresso, que pediu mais tempo para ver o que acontece nos próximos seis meses. O senador desse observador que lhes escreve no 5º Distrito de Maryland, cuja equipe jura que todos ali leem CounterPunch e meus dois dedos de coluna, falou grosso e deixou o lobby pendurado na brocha, em seus esforços para abortar a iniciativa da Casa Branca. É possível que os tempos estejam mudando – embora tardiamente, nesse jogo do relógio.

Kerry uniu-se a Obama na decisão da Casa Branca de atacar empresas de petróleo e de transporte acusadas de ajudar o Irã a infringir sanções econômicas – movimento que surgiu quando a Casa Branca parecia estar ganhando terreno na luta para impedir que o Congresso aprovasse sanções ainda mais duras que poriam em risco as conversações nucleares com a República Islâmica. “Continuaremos a agir contra empresas que violem ou tentem violar nossas várias sanções contra o Irã” – disse David S. Cohen, subsecretário do Departamento do Tesouro para terrorismo e inteligência financeira, ao Congresso, essa semana. “Que ninguém se engane: o Irã continua fora, para a maioria das transações bancárias e de petróleo”, disse Cohen.

As sanções contra empresas asiáticas, europeias e iranianas foram anunciadas momentos antes de dois altos especialistas em Irã falarem num painel do Senado, alertando para o risco de a imposição de sanções mais duras pôr a perder qualquer chance de acordo final com o Irã sobre limitações permanentes ao programa nuclear daquele país. Sabe-se que a Casa Branca gostou muito do timing, que ajudou a fazer gorar o projeto sionista.


No final da semana, segundo ex-assessora que diz que deixou a política, o que se ouvia no campo dos Clinton é que Bill parece ter concluído que A Clinton não chegará ao Salão Oval, sem a luz verde (como dólares) de Telavive.

Apesar de eu ter apoiado Jerry Brown na Convenção dos Democratas de 1992 em New York e de ter permanecido com ele, contra pesadíssimo lobbying que me aplicou O Clinton, eu até que gosto dele. O trabalho humanitário que faz ajuda muita gente e ele deve dedicar cada vez mais tempo a esse trabalho. Quanto à Clinton, ela disse a Katie Couric recentemente que o que realmente mais deseja é um neto ou neta para mimar. Que fique nisso.


Fonte: IrãNews
Imagens: Google

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Efeito Dominó Sírio no poder dos EUA





The Saker, Asia Times Online. Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu.

Depois da ratificação pelas partes do recente Plano Conjunto de Ação entre Irã e o P5+1, vale a pena olhar novamente par a narrativa oficial que explica essa “solução repentina”. É alguma coisa como:

O Irã era governado pelo presidente Ahmadinejad, notório antissemita e negador do Holocausto, que fez tudo que pode para negar à comunidade internacional os direitos de monitorar que ela exigia e para manter desimpedido e no curso o programa nuclear iraniano. Então, o povo do Irã elegeu Hassan Rouhani, um moderado, que aceitou os termos dos países do P5+1 e afinal se assinou um acordo.

Essa é, no geral, a versão oficial. Evidentemente, cada frase no parágrafo acima é puro, absoluto nonsense.


O novo presidente do Irã

O Irã não é governado pelo presidente, mas pelo Supremo Líder, Aiatolá Ali Khamenei, que seleciona os seis dos 12 membros do Conselho de Guardiões os quais, por sua vez, apreciam, com poder de vetar, o nome de todos os aspirantes a candidatos presidenciais antes de que se possam apresentar às eleições, e que também podem vetar qualquer decisão do Parlamento Iraniano. O Supremo Líder também indica todos os membros do Conselho do Discernimento da Conveniência [ing. Expediency Discernment Council] que pode decidir desacordos entre o Parlamento e o Conselho de Guardiões.

Hassan Rouhani foi nomeado membro do Conselho do Discernimento da Conveniência pelo Aiatolá Ali Khamenei e sua candidatura para concorrer à presidência também foi aprovada pelo Conselho de Guardiões. Em outras palavras, não só Mahmoud Ahmadinejad jamais teve a autoridade política para tomar decisões políticas cruciais; seu sucessor tem 100% da aprovação do Supremo Líder. Assim, embora haja muito clara diferença de estilo entre Ahmadinejad e Rouhani, é ridículo sugerir que a troca do primeiro pelo segundo seria a causa real da solução “repentina” nas negociações entre o P5+1 e o Irã. Fato é que Rouhani tem total apoio do Supremo Líder e que sua eleição, embora não seja trivial, não pode ser considerada como alguma real mudança nas políticas iranianas, inclusive nucleares.

P5+1?

A imprensa-empresa fala do P5+1 como se fosse um corpo constituído de parceiros mais ou menos iguais, tomando decisões conjuntas. Mais nonsense. Quem são o P5+1?  Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU “mais” a Alemanha: China, França, Rússia, Reino Unido, EUA e Alemanha (+1), oficialmente acrescentado por razões econômicas. “P5+1” é nome errado. O certo seria “1+1(+4)”:

Os que contam (EUA e Rússia) e os que não contam (China, que está muito feliz por acompanhar a liderança russa nessa questão, França, Reino Unido e Alemanha (que fingirão ter opinião própria, mas deixam os EUA falar sozinhos em todos os assuntos sérios). E dado que a Rússia de Putin é forte aliada do Irã, sobra o “Grandão”, i.e, os EUA, como contraparte do Irã nas negociações.

A tal solução “repentina” nas negociações entre EUA e Irã explicar-se-ia mais facilmente se se considerasse que possa ter havido uma grande mudança, que afinal a tornou possível não no Irã., mas nos EUA?

Tenho interpretação diferente a oferecer.

Acredito firmemente que tudo começou em setembro, quando, depois de dias dramáticos, que por um triz não terminaram com um ataque dos EUA à Síria, Barack Obama teve de aceitar “o gambito de Putin”: os EUA não atacariam a Síria, em troca de total destruição do arsenal químico da Síria. Para mim, esse virada absolutamente tectônica da política externa dos EUA disparou o que chamarei de um “efeito dominó” que prossegue e que pode levar a novas mudanças inesperadas na política externa dos EUA.

Examinemos os eventos dessa sequência de dominós, um a um:

Dominó 1: Barak Obama aceita o gambito de Putin

Se foi o próprio Barack ou algum dos seus fantoches é irrelevante aqui. O presidente, como comandante-em-chefe é quem teve de anunciar que um acordo havia sido alcançado e que o ataque dos EUA à Síria seria adiado/descartado. Examinemos a(s) exata(s) razão(ões) por que os EUA tomaram essa decisão (e adiante voltaremos a essa questão crucial) e digamos apenas que foi mudança importantíssima pelas razões seguintes:

a) Significou que os EUA teriam de adiar e, com toda a probabilidade, desistir de um seu antigo objetivo – a “mudança de regime” na Síria.

b) Significou também que os EUA agora teriam de negociar com o governo sírio.

c) Dado que as armas químicas eram completamente irrelevantes para a dinâmica militar em campo e, dado que os EUA haviam-se comprometido a não atacar forças do governo, significou que os EUA desistiam essencialmente de seu plano, para ajudar os “rebeldes” a vencer a guerra.

d) Assim desapareceu o último pretexto(s) possível para que os EUA continuassem a impedir e evitar uma conferência Genebra-2. Dali em diante, os EUA tiveram de tratar Genebra-2 com seriedade, ou perder tudo.

Antes desse desenvolvimento, os EUA tinham dois modos possíveis para lidar com uma conferência Genebra-2: tentar sabotá-la ou tentar usar a oportunidade para conseguir alguma coisa. A partir do momento em que Obama aceitou o gambito de Putin, só restou a segunda opção. De fato, desde que a “mudança de regime” já claramente não é mais uma opção e, dado que a política externa dos EUA no Oriente Médio dependia de “mudança de regime” na Síria, os EUA agora têm de reconsiderar aquela política toda. Isso significou que a melhor opção possível para os EUA era tentar usar Genebra-2 para afinal poder fazer alguma coisa.

Mas há um truísmo que os diplomatas dos EUA tiveram de levar em conta: nenhuma solução será jamais alcançada na Síria, se não for aprovada pelo Irã. Em outras palavras, ao aceitar o gambito de Putin, os EUA não apenas se comprometeram com negociações com os sírios: também se comprometeram com negociações com os iranianos. Essa é a causa real da solução “repentina” no “P5+1 e Irã”: a derrota dos EUA na Síria literalmente forçou a Casa Branca a negociar com o Irã. Nesse ponto, continuar a bloquear as negociações sobre o programa nuclear iraniano tornou-se contraproducente e, dito sem meias palavras, absurdo.

Dominó 2: EUA e Irã finalmente chegam a um acordo na questão nuclear.

Como já escrevi várias vezes no passado, ninguém, nem nos EUA ,nem em lugar algum, realmente acredita que os iranianos estejam construindo uma bomba atômica secreta, ali, sob as barbas dos inspetores da AIEA (que continuam a trabalhar no Irã), ao mesmo tempo em que permanecem como membros normais do Tratado de Não Proliferação (nenhum estado membro do Tratado de Não Proliferação jamais desenvolveu armas atômicas).

O real objetivo dos EUA sempre foi impedir que o Irã se tornasse potência econômica regional e, se possível, achar um pretexto para isolar e desestabilizar o regime iraniano.

Quando aceita negociar com o Irã, os EUA não estão “tornando o mundo seguro, sem mulás armados com bombas atômicas”, mas, isso sim, aceitando a realidade de que o Irã é, e continuará a ser, uma superpotência regional. Isso é o que está realmente em jogo aqui. E toda aquela conversa sobre o Irã bombardear Israel num “2º Holocausto” não passa de folha de parreira usada para ocultar os reais objetivos políticos dos EUA.

Agora que os EUA desistiram da ideia de atacar a Síria, já não faz sentido algum continuar a agir como se um ataque ao Irã ainda fosse possível. E só restaram, então, duas soluções possíveis: deixar os iranianos fazerem o que querem e parecer ter falhado na tentativa de persuadir o Irã a levar em conta as objeções dos EUA; ou realmente encontrar um compromisso mutuamente aceitável que teria de ser vantajoso para os dois lados. Os EUA, espertamente, escolheram a segunda opção.

Até aqui, já caíram os dominós 1 e 2. Mas passemos os olhos pelo que pode acontecer em breve, se nada parar o momentum gerado por esses dois dominós.

Dominó 3: os dois grandes perdedores (Arábia Saudita e Israel)

É perfeitamente óbvio que sauditas e israelenses fizeram literalmente tudo que estava ao alcance deles para impedir a queda dos dominós 1 e 2, e que são agora os grandes perdedores. Os dois países odeiam e temem o Irã; os dois estão profundamente envolvidos na guerra síria; e os dois parecem ultrajados pelas ações da Casa Branca. Dado que tudo indica que haverá um acordo, sauditas e israelenses mandaram seus principais decisores (Bandar e Netanyahu) não a Washington, mas a Moscou, numa tentativa (inútil) para impedir que aconteça o que veem como catástrofe absoluta.

Agora que o acordo aconteceu, Israel e o Reino da Arábia Saudita já mostram todos os sinais de que “perderam” e recorrem a modalidades nuas e cruas de terrorismo para atacar seus inimigos. Segundo o Hezbollah, os sauditas estão por trás da bomba que explodiu na Embaixada Iraniana em Beirute; e os israelenses estão por trás do assassinato de um comandante do Hezbollah, também em Beirute. Pode-se desconsiderar essas acusações do Hezbollah, que têm motivação política.

Mas eu, pessoalmente, considero-as perfeitamente críveis, simplesmente porque “cabem” perfeitamente no quadro atual (e o Hezbollah, é preciso reconhecer, tem excelente currículo de só divulgar acusações verdadeiras). Mas, acreditem os outros no Hezbollah ou não, ninguém nega que há agora profundas tensões entre EUA e Arábia Saudita de um lado e, de outro, os EUA. Isso também explica a estranhíssima “reaproximação” em curso entre Israel e o Reino Saudita, os quais têm hoje um problema comum (os EUA) e muitos e muitos inimigos comuns (o primeiro e principal dos quais é o Irã, é claro).

Considerando o imenso poder do lobby israelense e o mais discreto, mas também muito poderoso, lobby saudita nos EUA, não é, não, de modo algum certo que essa nova aliança sauditas-israelenses não venha, eventualmente, a prevalecer sobre o que eu chamaria de “EUA antes de tudo” (em contraste com os “Israel antes de tudo”). Também voltarei a isso, adiante. Mas assumamos que as atuais políticas dos EUA não serão honradas e que os EUA, em seis meses ou mais, assinarão um tratado de longo prazo com o Irã. O que poderia acontecer na sequência?

Dominó 4: Dar adeus ao “escudo de defesa” antimísseis, dos EUA, na Europa?

Pense nisso: se os EUA aceitam a noção de que o Irã não desenvolverá armas nucleares, por que insistir em implantar um escudo de defesa antimísseis sobre a Europa? O ministro de Relações Exteriores da Rússia, Serguey Lavrov, já o disse claramente e essa provavelmente permanecerá como posição de política russa no futuro imediato: agora que a suposta “ameaça” iraniana foi contornada mediante negociações – por que os EUA implantariam sistemas de defesa antimísseis na Europa?

Claro, os EUA podem prosseguir com esse projeto, como se nada tivesse mudado, mas não seria lógico conversar, pelo menos com os russos, para ver se não se pode fazer algumas modificações no sistema antimísseis dos EUA, que satisfaçam o lado russo? Já tendo concordado com negociar com a Síria e com o Irã, não faria também algum sentido sentar seriamente com os russos e encontrar um compromisso aceitável para os dois lados?

Afinal, a Rússia (apoiada pela China, claro) pode facilmente impedir qualquer acordo entre EUA e Irã (por exemplo, com um veto no Conselho de Segurança da ONU), e isso deixaria os EUA em posição muito vulnerável na negociação. E, claro, uma quebra nas negociações entre EUA e Irã sobre a questão nuclear seria péssima notícia para os EUA na Síria. Fato é que os EUA precisarão desesperadamente da colaboração dos russos, para chegar a um acordo de longo termo com o Irã. E esse acordo, por sua vez, terá importantes consequências em inúmeras outras questões, entre as quais a política externa europeia.

Dominó 5: Fim do Drang nach Osten [al. “afã rumo ao leste”] europeu?

Nunca mais, desde os dias de Hitler, viu-se a Europa tão histericamente antirrussos, como na última década. Claro, parte dessa russofobia foi alimentada por necessidades da propaganda dos EUA, mas basta rápida olhada na imprensa europeia, para ver-se que o pior desse espancamento da Rússia vem realmente da Europa, especialmente da Grã-Bretanha. Quanto à União Europeia e a OTAN, a ofensiva de ambas rumo ao leste faz, sim, lembrar a de Hitler; a única diferença é que é feita por meios diferentes.

Claro, o revanchismo europeu ocidental é só parte do quadro. Há, definitivamente, um desejo, de muitos europeus orientais, de virarem “verdadeiros europeus”, combinado com uma esperança de que uma combinação de União Europeia e OTAN proteja-os contra a Rússia. Não importa que a Rússia não tenha qualquer mínimo interesse em invadi-los – e muitos leste-europeus temem, em termos genéricos, o que veem como uma superpotência ressurgente no Leste. E, se obter a “proteção” da OTAN e da União Europeia significa aceitar um status semi-colonial no império dos EUA… que seja. Melhor ser servo do império dos EUA, que servo no império russo. É uma posição ideológica que resiste aos fatos e à lógica. Muitos leste-europeus provavelmente entendem que a Rússia não tem interesse algum em invadi-los, e muitos devem saber que se unir à União Europeia foi desastroso em termos econômicos para países como a Bulgária ou os Estados Bálticos. Francamente, a maioria nem liga. Veem as autoestradas alemãs, as lojas francesas ou aeroportos holandeses e querem uma fatia daquela riqueza, mesmo que seja sonho induzido por fumaças.

Quanto aos europeus ocidentais, eles vergonhosamente alimentaram essa ilusão, prometendo muito e nada cumprindo. Quanto à OTAN, continua a seguir o exemplo de Hitler e tenta levar sua influência Cáucaso adentro. Resultado, a ofensiva União Europeia-OTAN espalha-se num “front” da Estônia, no Báltico, à Georgia, no Cáucaso – cópia exata da estratégia de Hitler para sua guerra contra a Rússia.

Hitler e o “Reich de mil anos” que ele prometera, sim, foi derrotado em apenas 12 anos; e a União Europeia não se sairá melhor. De fato, está mergulhada hoje numa crise sistêmica que não tem ideia de como superar.

Os modernos Kulturträgers

Não estou sequer falando só dos chamados países “PIGS” (Portugal, Itália, Grécia e [Spain] Espanha), mas também das nações que supostamente “se saíram melhor” do norte da Europa.

Vocês sabiam que apenas três, das 17 nações da Eurozona tem avaliação AAA de crédito? Ou que, embora nada menos que sete das nações de crédito mais bem avaliado do mundo estejam na Europa, a maioria delas ou não está integrada ao euro (Dinamarca e Suécia) ou não está integrada nem à União Europeia (Noruega e Suíça)?

Quem ainda tenha dúvidas sobre a absoluta magnitude da crise social e econômica que atingiu a Eurozona, deve ler o relatório recentemente publicado pela Federação Internacional da Cruz Vermelha e Crescente Vermelho, intituladoThink differently: humanitarian impacts of the economic crisis in Europe [Pensar diferente: os impactos humanitários da crise econômica na Europa] (e fico pensando: será que alguém na Ucrânia conhece esse relatório?).

A Europa está em crise profunda, o que obriga a perguntar: a Europa pode realmente custear uma nova Guerra Fria com a Rússia? E quanto aos EUA – precisa mesmo de uma nova Guerra Fria na Europa? Não estará mais do que na hora de pôr de lado esse ensandecido Drang nach Osten e aceitar que uma Europa não imperial terá muito mais a ganhar de uma parceria com a Rússia, que de outra Guerra Fria?

O tempo dirá quando cairá também esse último dominó. O que interessa aos nossos objetivos aqui não é prever acuradamente o futuro, mas examinar as oportunidades que outro futuro, assim diferente, ofereceria. Uma pergunta: se todos os dominós acima caíssem, os EUA estariam melhor ou pior? Pessoalmente, minha resposta é que os EUA sair-se-iam muitíssimo melhor, e também a Europa.

E se é assim, pode-se conjecturar, os EUA tropeçaram mesmo numa situação que desencadeou um efeito dominó, ou esse foi sempre o plano, desde o início?

É possível que algumas forças dos EUA tenham decidido usar o fracasso da política dos EUA na Síria, para disparar mudança muito maior?

Um projeto dos “EUA-em-primeiro-lugar-istas” [orig. USA-firsters]?

Como escrevi em postado recente, acredito que a presidência de Barack Obama resultou numa mudança de poder no “estado profundo” dos EUA, que afastou do Executivo os antes todo-poderosos neoconservadores e substituiu-os pelos que chamo “velhos anglo imperialistas”. Também podem ser chamados de “EUA-em-primeiro-lugar-istas” (em oposição aos “Israel-em-primeiro-lugar-istas” [orig. Israel-firsters). Regra geral, eles são atores muitíssimo mais sofisticados que os neoconservadores.

Tipicamente, os EUA-em-primeiro-lugar-istas são mais bem educados, mais cautelosos nos discursos e métodos e, diferentes dos neoconservadores, podem contar com o apoio patrioticamente inclinado dos norte-americanos das Forças Armadas, do Departamento de Estado, da CIA e outros. Por fim, têm a grande vantagem, sobre os neoconservadores, de que não precisam ocultar sua verdadeira agenda: na política exterior, cuidam antes e mais do que qualquer outra coisa, dos interesses nacionais dos EUA (internamente, é claro, os neoconservadores e os EUA-em-primeiro-lugar-istas são “1%” prototípicos, cujo real objetivo é defender seus interesses de classe, enquanto mantêm os remanescentes 99% em condições de quase servidão).

Assim sendo, é possível que essa “sequência de dominós” tenha sido deliberadamente iniciada pelos anglo-EUA-em-primeiro-lugar-istas, que teriam colhido a oportunidade para promover sua agenda, ao mesmo tempo em que mandam para fora do ringue os neoconservadores-Israel-em-primeiro-lugar-istas?

Analisemos outra vez o “dominó 1”.

Penso que preponderam as evidências de que Obama aceitou o gambito de Putin, contra um cenário de caos absoluto na Síria e nos EUA. Forças iranianas estavam entrando clandestinamente na Síria para lutar; uma poderosa força naval russa estava posicionada bem diante da costa síria; o Parlamento britânico recusou-se a apoiar um ataque à Síria; manifestações tomavam as ruas, nos EUA, por todo o país – e noutros locais – contra o ataque; e tudo indicava que o Congresso não aprovaria um ataque militar dos EUA à Síria. É difícil provar uma negativa, é claro. Mas penso que o primeiro dominó foi empurrado por todos esses fatores, muito mais do que resultou de mudança deliberada nas políticas dos EUA.

Nesse caso... E o “dominó 2”?

Diferente do dominó 1, há fortes provas de que o dominó 2 “caiu” claramente como resultado direto de uma decisão política tomada em Washington. Se aceitamos que a única mudança na presidência do Irã não passou de mudança cosmética, nesse caso temos de aceitar que os EUA decidiram deliberadamente abrir negociações com o Irã. Será que alguém na Casa Branca ou no estado profundo dos EUA deu-se conta de que a queda do “dominó 1” trazia reais oportunidades para os EUA e os interesses dos EUA-em-primeiro-lugar-istas, e decidiu acrescentar impulso ao “dominó 1”, suficiente para derrubar também o “dominó 2”?

Creio que a sequência de eventos na Síria e no Irã oferece, sim, fantástica oportunidade para os EUA, afinal, livrarem-se do legado desastroso de muitos anos de governo dos neoconservadores (na minha opinião, de 1993-2009).

Devo dizer imediatamente que não estou dizendo que os neoconservadores estão “fora”, dado que eles ainda controlam com mão de ferro a imprensa-empresa e o Congresso dos EUA.

Só estou dizendo que estou detectando sinais de uma grande mudança na política externa dos EUA, a qual parece estar-se libertando da aliança “wahabista-sionista” dos lobbies combinados de Arábia Saudita e Israel. Mais uma vez, o fato de que ambos, Netanyahu e Bandar sentiram a necessidade de viajar a Moscou para parar Washington é absolutamente sem precedentes, e engraçada; e tenho de interpretar o movimento como real sinal de pânico.

Até onde os EUA podem realmente ir?

Uma mudança na equação do poder dentro dos EUA absolutamente não significa mudança de regime, longe disso. Em muitas circunstâncias, os políticos norte-americanos continuarão a repetir, feito mantra, que “nada separa EUA e Israel”, continuará a genuflexão verbal ante tudo que tenha a ver com judeus, israelenses e o Holocausto. E é possível que a próxima fala do futuro primeiro-ministro israelense receba ovação ainda maior, quando falar ao Congresso dos EUA, que o presidente dos EUA. Mesmo assim, é também possível que, a portas fechadas, os israelenses e os sauditas ouçam reprimenda: “baixem o tom, senão...” e que o apoio dos EUA a esses dois regimes fique condicionado a nenhum deles cometer qualquer loucura (tipo atacar o Irã).

Examinemos outra vez os dominós 4 e 5 

(basicamente, um breque nas políticas antirrussos), de um ponto de vista não sionista e não wahhabista: os EUA ganhariam ou perderiam, com esse tipo de desenvolvimento? Posso até perder algum dinheiro, porque talvez o “escudo” de mísseis de defesa europeu lá permaneça, mas os russos estão oferecendo duas soluções alternativas: ou os militares russos são admitidos como parceiros plenos nesse sistema (o que remove a ameaça à Rússia) ou levam todo o sistema para a Europa ocidental, bem longe das fronteiras russas (o que também remove a ameaça à Rússia).

Uma vez que a resposta assimétrica da Rússia (forças especiais, relocalização de lançadores de mísseis, mísseis especiais) derrotará, afinal, o tal sistema proposto... por que não aceitar ou uma ou outra das duas propostas russas?

Politicamente, acordo desse tipo abriria as portas para oportunidades muito mais importantes de colaboração (na Ásia Central e no Oriente Médio) e tiraria os EUA da “rota de colisão com o resto do planeta” em que estão presos desde 11/9.

Bem claramente: um acordo com a Rússia seria muito benéfico para os EUA.

E sobre a Palestina?

Nesse ponto, desgraçadamente, permaneço tão pessimista como antes. Como outras vezes em sua história, os palestinos mais uma vez cometeram o que se pode chamar de “suicídio estratégico”, ao decidir apoiar as forças anti-Assad na Síria. Outra vez, como no caso de Saddam, os palestinos aliam-se ao lado perdedor e, o que é ainda pior, seu único movimento de resistência mais ou menos decente (o Hamás) já foi agora tomado por interesses sauditas, o que basicamente também põe o Hamás sob controle de Israel, não menos que o Fatah.Hoje, o último movimento de resistência “real” que ainda sobrevive na Palestina é “Jihad Islâmica Palestina” [orig. Palestinian Islamic Jihad], mas é comparativamente pequeno e fraco e não pode ser parceiro em qualquer negociação real com EUA e Israel.

Nesse contexto, o mais provável é que os israelenses simplesmente imponham em campo qualquer “solução” que desejem, sem precisar negociar com nenhum grupo palestino. É muito triste e nada precisava ser assim, mas os palestinos, sim, fizeram o que fizeram, eles mesmos a eles mesmos; agora, só se podem culpar também eles mesmos.

Resumo, até aqui: na Palestina não se vê nenhum efeito dominó.

Conclusão: uma verdadeira janela de oportunidade

O futuro absolutamente não é certo, e os Israel-em-primeiro-lugar-istas e seus aliados sauditas têm muitas opções para reverter esse processo (imaginem Hillary, na presidência!!). E ainda é possível que os EUA consigam sair da rota de desastre na qual caminha há duas décadas e retornar a uma política externa mais tradicional, mais pragmática: permanecerá como potência imperial com objetivos imperialistas globais, mas, pelo menos, estará sendo movida por considerações pragmáticas (embora cínicas), não por interesses ideológicos estranhos e alheios aos EUA.

Em contraste com o que os EUA vêm fazendo ao longo das últimas duas décadas, é possível que os desenvolvimento no Oriente Médio convençam os EUA de que negociações e concessões são ferramentas mais efetivas de política externa, que ameaças e ações militares.

Historicamente, os Republicanos têm, comparativamente, melhor currículo de política externa que os Democratas, e psicopatas senis como McCain nunca foram líderes Republicanos típicos. Diferente disso, os Democratas norte-americanos sempre garantiram líderes ideológicos e arrogantes. A possibilidade muito real de Hillary vir a concorrer à presidência é indicador apavorante de que a atual fase de pragmatismo produtivo tenha vida bem curta. A boa notícia é que os dois partidos têm agora a chance de aproveitar o momento e indicar candidatos que sejam pelo menos meio sãos, não totalmente doidos, para a eleição presidencial. Claro: se a coisa se resumir a uma disputa Sarah Palin/Hillary Clinton, tudo sugere que o mundo tenha pela frente tempos muito, muito difíceis.

Mas se os “EUA-em-primeiro-lugar-istas” puderem chutar para longe os “Israel-em-primeiro-lugar-istas” que atualmente controlam as posições chaves dentro dos dois partidos (gente do tipo de Rahm Israel Emanuel), então, sim, há uma real possibilidade de que os EUA consigam livrar-se da atual subserviência aos interesses de sionistas e wahabistas, e retomar outra política externa, mais pragmática e mais razoável.

Mas… será que esses EUA-em-primeiro-lugar-istas realmente existem? Honestamente, não sei. Espero que existam e quero crer que a queda do dominó sírio ter sido seguida tão imediatamente pela queda do dominó iraniano pode ser sinal de que alguém dentro do estado profundo dos EUA decidiu usar essa oportunidade para, afinal, livrar os EUA da servidão a interesses alheios que, literalmente, sequestraram o país.

Se dentro de seis meses for firmado um acordo permanente entre o P5+1 e o Irã, e se mais ou menos ao mesmo tempo os EUA iniciarem negociações sérias com a Rússia, então, sim, um melhor cenário se tornará mais crível. Hoje, ainda é cedo para saber.


Fonte: Oriente Mídia
Imagem: Google
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