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sábado, 22 de outubro de 2011

O DIREITO AO DELÍRIO

Que tal começarmos a exercer

O direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?

No próximo milênio, o ar estará limpo
de todo veneno
O televisor deixará de ser
o membro mais importante da família
As pessoas trabalharão para viver,
em vez de viver para trabalhar.

Os economistas não chamarão
nível de vida o nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida
a quantidade de coisas.

Ninguém será considerado herói
ou tolo só porque faz aquilo que
acredita ser justo, em vez de fazer
aquilo que mais lhe convém.

A comida não será uma mercadoria,
nem a comunicação um negócio,
porque comida e comunicação
são direitos humanos.

A educação não será um privilégio
apenas de quem possa pagá-la.
A polícia não será a maldição daqueles
que não podem comprá-la.

A justiça e a liberdade,
irmãs siamesas
condenadas a viverem separadas,
voltarão a juntar-se, bem unidas
ombro com ombro.E os desertos do mundo e os desertos
da alma serão reflorestados.

Eduardo Hughes Galeano



Sonhem humanos!!!
Porque isso os EUA nunca conseguirão nos tirar.

Em homenagem a todas as pessoas que foram vítimas de massacres pelos
EUA, OTAN e ONU em nome da sangrenta "DEMOcracia".

(Burgos Cãogrino)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

QUEM SERÁ O PRÓXIMO???






Ontem foi o IRAQUE

























Hoje foi a LÍBIA








ME AGUARDEM...



PORQUE AMANHÃ PODERÁ SER O SEU PAÍS!!!


Muamar Al Kadhafi morreu???


21/10/2011
Por
Kurt Nimmo
tradução google

A mídia corporativa está entrando em paroxismos sobre a suposta morte de Muammar Gaddafi, sem evidências muito além de um vídeo caseiro captura borrada tomadas a partir de um telefone celular.

Até agora, tem sido zero verificação independente da reivindicação. A CNT - também conhecido como al-Qaeda - disse hoje que levaram o suposto corpo de Gaddafi para um local secreto por "razões de segurança."

Apesar da falta de provas, a mídia corporativa agora está aceitando a morte
de Gaddafi como um fato. Esta é a mesma mídia que aceitou a morte não confirmada de Osama bin Laden e disse-nos que Saddam tinha armas de destruição em massa.

Enquanto isso, a mídia corporativa desfila a imagem mórbida e celebra o assassinato, o Movimento Carta Verde em Jamahiriya afirma que Gaddafi está vivo.

Agência de Notícias Mathaba:

Comitês Verde confirmaram que o líder está vivo, e que o inimigo está procurando tirar partido, pois Gaddafi está atualmente fora das comunicações. O objetivo é agradar a Hillary Clinton que latiu para seus escravos árabe que ela quer Muammar Kadafi "vivo ou morto."

"NATO e Clinton estão desesperados para mostrar uma "vitória" na Líbia, por meio de uma mídia condescendente, e a CNT está ansioso para prever a "vitória" para os seus mestres, a fim de garantir mais apoio.

Os líderes do CNT e suas facções estão todos lutando entre si, e estão insatisfeitos com o espólio, devido à população armada que resiste ferozmente,
e insatisfeitos com os banqueiros globalistas que até agora foram incapaz de manter suas promessas para o traidores da Líbia."

Sem alguma evidência e de qualquer forma, isso faz tanto sentido quanto possuem al-Qaeda de que Kadhafi foi capturado e morreu como resultado de ferimentos sofridos e como resultado de um ataque da OTAN em seu comboio tentando fugir da cidade de Sirte que foi fortemente danificada.

O suposto corpo de Gaddafi provavelmente nunca será oferecido pela CNT (al-Qaeda) para a verificação independente. Nos próximos dias, o governo e a mídia estabelecida vão declarar vitória, Hillary
Clinton e Obama farão discursos, e na Líbia vai ser o caos, porque, como disse Rumsfeld sobre o Iraque, "a democracia é confusa."



Artigos de Pesquisa mundial por Kurt Nimmo

Kurt Nimmo é um colaborador freqüente do Global Research.


Fonte: Global Research



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O "DEUS" dos americanos continua sedento por sangue


EUA: escalada contra o Irã

19 outubro, 2011

por Husc

O bombástico anúncio feito por autoridades do governo dos EUA, sobre uma suposta trama iraniana para assassinar o embaixador saudita em Washington, sugere que o Irã voltou ao topo das prioridades dos estrategistas estadunidenses, após meses em um plano secundário ensejado pela Primavera Árabe e o ataque militar à Líbia. A intenção de promover uma escalada na confrontação com Teerã ficou evidenciada nas agressivas declarações de autoridades como o vice-presidente Joe Biden e a secretária de Estado Hillary Clinton, tendo esta última anunciado a deflagração de uma ofensiva diplomática internacional para isolar o Irã, “convocando” o resto do mundo a se juntar aos EUA “na condenação à ameaça à paz e a segurança internacionais”.

A suposta trama foi revelada pelo procurador-geral Eric Holder, na terça-feira 11 de outubro. Segundo ele, o FBI e a agência antidrogas DEA haviam desbaratado um plano de dois iranianos para matar o embaixador saudita em Washington, com o auxílio de um suposto integrante do cartel de drogas mexicano Los Zetas, que, na verdade, era um informante da DEA. Um dos iranianos, Mansur Arbabsiar, é cidadão estadunidense naturalizado e o outro, Gholam Shakuri, estaria foragido no Irã, onde seria um integrante da Força Quds, unidade de elite da Guarda Revolucionária iraniana. Holder, que admitiu que o plano se assemelhava “a um roteiro de Hollywood”, afirmou que Arbabsiar pagou 100 mil dólares ao suposto sicário do cartel mexicano, os quais teriam sido enviados do exterior por meio de uma conta bancária ligada à Força Quds.


O resultado imediato foi uma barragem de retórica inflamada contra o regime de Teerã. Em entrevista ao programa Good Morning America da rede de televisão ABC, na quarta-feira 12, o vice-presidente Joe Biden afirmou que, em termos de retaliação, “nada está descartado”. Segundo ele, “é criticamente importante que unamos o mundo no isolamento e no trato com os iranianos”.





Hillary Clinton foi na mesma linha, dizendo que a trama “cria um potencial para uma reação internacional que isole ainda mais o Irã, que levantará questões sobre o que eles estão fazendo, não apenas nos EUA e no México (Reuters, 12/10/2011)”





Por sua vez, o senador Carl Levin, presidente da Comissão das Forças Armadas do Senado, não mediu palavras para qualificar a suposta trama como um “ato de guerra”.


Em uma clara demonstração das intenções dos círculos mais belicosos do Establishmentestadunidense de explorar ao máximo as denúncias, Elliot Abrams, ex-membro do Conselho de Segurança Nacional e um dos mais virulentos “falcões” do país, escreveu em seu blog no sítio do Conselho de Relações Exteriores (CFR): “O atrevimento – é a única palavra adequada – deste planejado ato de terrorismo na capital da nossa nação deveria ensinar-nos que não se pode permitir que o regime de Teerã adquira armas nucleares… Se eles agem desta maneira agora, como agirão se conseguirem armas nucleares?”

Ao mesmo tempo, a representante estadunidense nas Nações Unidas, Susan Rice, acompanhada de seu colega saudita e altos funcionários do FBI, da CIA e do Departamento de Justiça, se reuniram separadamente com os representantes do Conselho de Segurança para informá-los melhor sobre a denúncia e buscar apoio para uma nova rodada de sanções punitivas contra Teerã. As reações foram as esperadas, tendo o Reino Unido e a França manifestado apoio ostensivo aos EUA e a China e a Rússia, recebido os “briefings” com as devidas reservas. Em Londres, o chanceler William Hague disse que o complô assinala uma escalada do patrocínio do terrorismo internacional pelo Irã. A Alemanha e a Itália reagiram mais cautelosamente, limitando-se a exigir explicações de Teerã (AP, 12/10/2011).

A denúncia ocorre em um momento em que Teerã fazia vários gestos de boa vontade em relação ao Ocidente, como a libertação de dois estudantes estadunidenses que estavam detidos no país há dois anos, acusados de espionagem, depois de cruzar a fronteira Iraque-Irã, segundo eles, acidentalmente. Igualmente, o presidente Mahmoud Ahmadinejad propunha uma renegociação sobre o controvertido programa nuclear do país, oferecendo a renúncia à produção de urânio enriquecido a 20% para reatores de usos médicos, em troca de um fornecimento regular e garantido do combustível. O problema é que um acordo do gênero, simplesmente, poderia neutralizar um dos principais pretextos dos EUA e de seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para manter as pressões contra o Irã e, portanto, não se pode descartar que a revelação sobre o suposto complô esteja relacionada a tais movimentos.

Ademais, uma escalada de pressões contra o Irã proporciona um cenário perfeito para contra-arrestar os impactos negativos para a agenda hegemônica de Washington, causados pela “Primavera Árabe” (aí incluído o papel crucial da Arábia Saudita em impedir a sua expansão a países como o Bahrein e o Iêmen) e o pleito palestino pelo reconhecimento do seu Estado nacional. Sem falar na possibilidade de que o acirramento das sanções contra Teerã implique em um aumento das probabilidades de ocorrência de atritos e incidentes, espontâneos ou provocados, que possam ser utilizados para justificar uma eventual investida militar contra o país.

Apesar de as Forças Armadas estadunidenses se encontrarem exauridas pelas campanhas intermináveis no Afeganistão-Paquistão e Iraque, uma confrontação militar com o Irã, há muito pedida pelos “neoconservadores” que dominaram a política externa do Governo Bush filho e ainda gozam de grande influência em Washington, ensejaria a tais círculos oligárquicos uma oportuna válvula de escape para os desdobramentos da crise multidimensional em curso. Entre eles, a crise econômico-financeira, os crescentes protestos contra os excessos da alta finança e, não menos, as repercussões do ainda não superado escândalo da chamada “Operação Velozes e Furiosos”, um bizarro esquema de distribuição que entregou milhares de armas marcadas a narcotraficantes mexicanos, alegadamente, para segui-las e identificar os chefes dos cartéis (MSIa Informa, 15/07/2011) – com a qual, aparentemente, a suposta trama iraniana apresenta uma interface.

A conexão foi feita pelo sempre arguto correspondente do Asia Times Online, Pepe Escobar, em sua coluna de 14 de outubro:

O complô é bastante oportuno para desviar a atenção da Arábia Saudita como beneficiária de uma multibilionária venda de armas estadunidenses. E, também, bastante oportuno para desviar a atenção do próprio [procurador Eric] Holder – apanhado em outro escândalo monstruoso, sobre se ele mentiu a respeito da Operação Velozes e Furiosos (não, não dá para consertar este negócio), uma operação federal por meio da qual nada menos que 1.400 armas estadunidenses de alta potência acabaram, sem ser acompanhadas, nas mãos de – adivinharam – cartéis de drogas mexicanos. Parece que a franquia da “Velozes e Furiosos” é a arma de entretenimento de escolha de todos os níveis do governo dos EUA.

Quanto à credibilidade da denúncia, ela tem sido questionada por numerosos analistas e observadores, até mesmo nos próprios EUA, a começar pelo fato de que o “terrorista” Mansur Arbabsiar, que tem um histórico de pequenos negócios fracassados nos EUA, ter sido apanhado em uma operação de aliciamento (sting operation, no jargão de inteligência) semelhante às muitas que o FBI tem montado contra potenciais suspeitos de inclinações terroristas (MSIa Informa, 1/09/2011).

Em conversa com a correspondente da rede australiana ABC, Eleanor Hall (12/10/2011), o ex-agente da CIA Robert Baer, que atuou no Oriente Médio por mais de 25 anos, foi categórico:

(…) Isso não se encaixa, de modo algum, no modus operandi deles. É completamente fora do padrão, eles são muito melhores do que isso. Eles não enviariam dinheiro por meio de um banco estadunidense, não iriam atrás dos cartéis no México para fazer isso. Não é a maneira como operam. Eu os tenho seguido por 30 anos e eles são muito mais cuidadosos. E sempre usam um intermediário entre eles e a operação, o que não fizeram nesse caso. Quero dizer, ou eles estão dando um tiro no pé ou há outras peças da história, e eu não sei quais são.

Na mesma linha, Kenneth Katzman, especialista em assuntos iranianos do Serviço de Pesquisas do Congresso, disse ao jornal Christian Science Monitor (12/10/2011): “Querem que acreditemos que um vendedor de carros do Texas era um agente adormecido da [Força] Quds por muitos anos, residindo nos EUA? Ridículo? Eles nunca usam esses fracassados ou pessoas sem relações importantes para tramas sensíveis como essa.”

Em entrevista à Fox News (12/10/2011), outro veterano especialista em assuntos do Oriente Médio, o tenente-coronel da reserva do Exército Anthony Shaffer, revelou que um amigo seu dentro do FBI lhe informara que a agência não tinha qualquer informação real sobre o “terrorista” Arbabsiar e que o vendedor de carros havia sido vítima de outra operação de aliciamento.


Talvez, a melhor síntese da situação tenha sido feita pela chefe do Departamento de Estudos do Oriente Médio da City University de Londres, Rosemary Hollis. Para ela, o fato de Arbabsiar ter sido apanhado em uma operação do gênero dificulta a avaliação da seriedade da trama, mas o relevante é que todo o caso transmite “um sinal importante de um período muito volátil e potencialmente perigoso à frente”. A denúncia, disse, “se assemelha a uma advertência de que os EUA estão prestes a atuar de uma forma mais assertiva com o Irã e farão isto em estreita coordenação com os sauditas (Reuters, 12/10/2011)”.



Movimento de Solidariedade Íbero-americana



Fonte: Blog do ambientalismo

Imagem: google

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Barack Obama enviando soldados americanos para "ajudar" Uganda???



O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, informou que está enviando soldados para Uganda, onde as tropas ajudarão o governo local a combater um exército guerrilheiro acusado de atrocidades. As tropas norte-americanas, que teoricamente ficarão sob supervisão das
autoridades de Uganda, poderão ser enviadas para operações nos vizinhos Sudão do Sul, República Centro-Africana e República Democrática do Congo, disse Obama em mensagem ao Congresso americano.

Ajuda americana é aos Ugandenses ou a Inglaterra?



O que está por trás dessa "ajuda" americana?



Ugandenses expulsos de terras por esquemas de créditos de carbono

O caráter neocolonial do ambientalismo radical tem sido ressaltado por um número crescente de comentaristas, mas acaba de ser demonstrado de forma cabal em Uganda, onde camponeses foram expulsos de suas terras para dar espaço a um projeto privado de reflorestamento baseado em um esquema de créditos de carbono. A expulsão dos camponeses se deu de forma violenta, com o recurso a forças militares, que incendiaram casas e provocaram mortes. A finalidade do projeto é converter as terras usadas para a agricultura em florestas plantadas, com o objetivo de gerar créditos de carbono para serem comercializados no mercado europeu – que, como se sabe, são instrumentos financeiros criados a pretexto de ajudar a reduzir as emissões de carbono supostamente causadoras do chamado aquecimento global. Como observou com propriedade o editor do sítio Prison Planet.com, Paul Joseph Watson (23/09/2011), trata-se de “uma chocante demonstração de como a tramoia das mudanças climáticas é uma forma bárbara de neocolonialismo”.

Um dos escassos relatos do caso na grande mídia foi uma reportagem do New York Times de 21 de setembro, na qual o jornalista Josh Kron descreve a patranha com detalhes.

A ação das tropas armadas se deu por encomenda da empresa inglesa New Forests Company, que se dedica à aquisição de terras e à plantação de florestas artificiais em Uganda, Tanzânia e Moçambique, inseridos em um esquema de créditos de carbono, em parceria com a agência de investimentos do Banco Mundial e do Hongkong and Shanghai Banking Corporation (HSBC). No conselho de administração da empresa, têm assento o diretor de investimentos do HSBC, Sajjad Sabur, além de ex-integrantes do banco de investimentos estadunidense Goldman Sachs.

Segundo o seu sítio, a empresa tem mais de 20 mil hectares de terras em Uganda e se define como:

(…) uma companhia florestal baseada no Reino Unido, sustentável e socialmente responsável, com plantações estabelecidas e rapidamente crescentes e a perspectiva de uma base de produção diversficada, para mercados de exportação locais e regionais, que proporcionarão tanto retornos atrativos aos investidores e significativos benefícios sociais e ambientais.

Em 2005, o governo ugandense cedeu à New Forests o direito de exploração das terras em três distritos do país, nas quais a empresa está plantando pinho e eucalipto. O problema é que as terras já eram ocupadas e, segundo um relatório recentemente divulgado pela ONG britânica Oxfam, cerca de 20 mil pessoas foram expulsas de suas terras pela ação da empresa, com o emprego de métodos de terror e violência. Os aldeões expulsos afirmaram que “forças de segurança” fortemente armadas atacaram os vilarejos, incendiando casas e causando a morte de uma criança, no incêndio da casa em que vivia. Jean-Marie Tushabe, pai de duas crianças, disse: “Nós estávamos na igreja… Eu ouvi tiros disparados para o alto… Carros vieram junto com a polícia… Eles invadiram as nossas casas. Levaram os nossos pratos, copos, colchões, cama, travesseiros. Então, nós os vimos retirando caixas de fósforos dos seus bolsos.”

Tanto o governo ugandense como a New Forests consideram a presença dos aldeões nas terras como ilegal e, segundo o jornalista, a sua expulsão se deveu “a uma boa causa: proteger o meio ambiente e ajudar a combater o aquecimento global”.

Em uma observação lúcida e pouco comum entre jornalistas da grande mídia, Josh Kron escreve: “O caso gira em torno de um mercado multibilionário do comércio de créditos de carbono nos termos do Protocolo de Kyoto, que contém mecanismos de transferência da proteção ambiental às nações em desenvolvimento.”

Uma fonte do governo ugandense afirmou ao jornalista que a ação violenta de expulsão dos aldeões das terras cedidas à empresa britânica foi conduzida por policiais e políticos corruptos, agindo à margem da lei. Já a New Forests respondeu às denúncias da Oxfam com uma declaração digna de Pôncio Pilatos: “O nosso entendimento é o de que esses reassentamentos foram legais, voluntários e pacíficos (sic) e as nossas primeiras sondagens confirmaram essa impressão.”

Os arreglos da New Forests na África são emblemáticos dos grandes negócios que têm sido articulados em muitos países em desenvolvimento, sob o nobre pretexto de enfrentar as mudanças climáticas alegadamente influenciadas pela ação humana. Mas, de humano mesmo, o que temos visto são ações abertamente criminosas como a da empresa britânica, em conluio com governos sequiosos de receber vantagens financeiras das antigas potências coloniais, para as quais a proteção ambiental passou a ser a nova face do antigo “fardo civilizador do homem branco".



Em 2009: voltando ao passado
(não muito remoto)

"Terceirização de terras" prejudica países em desenvolvimento


Cresce a tendência de offshore farming: há países e investidores comprando e arrendando extensas áreas cultiváveis em nações pobres para produzir alimentos. As populações locais só têm a perder, alertam críticos. Os especialistas já falam de uma verdadeira caça à terra alheia, motivada pelos mais diversos fatores. Arábia Saudita, Japão, China, Coreia, Líbia e Egito são países que precisam importar alimentos, a fim de suprir a demanda interna da população.


Há meses, as autoridades competentes dessas e de outras nações estão negociando a compra ou arrendamento de terra fértil no Brasil, Sudão, Uganda, Camboja e Paquistão, por exemplo, confirmando uma tendência mundial denominada offshore farming.

E não só representantes governamentais, mas também investidores privados, estão à procura de terras cultiváveis, a baixo preço, em todos os continentes, seja para garantir a produção da indústria alimentícia ou para o cultivo de plantas destinadas à produção de biocombustível.

ALEMÃES TAMBÉM

Os empresários alemães também estão nesse barco. A Barnstedt eG e a prefeitura de Uelzen, cidade pequena situada no norte alemão, por exemplo, já compraram terras na Rússia para esse fim. A Agranus AG, sob direção de um ex-executivo da Bayer, arrendou consideráveis extensões de terra na Romênia, Bulgária e na República Tcheca. Já a Prokon GmbH e a Co KG dispõem de mais de 10 mil hectares na Tanzânia, enquanto a empresa Flora Ecopower, de Munique, marca presença na Etiópia.

De acordo com estimativas da ONU, desde 2005, entre 15 e 20 milhões de hectares de terra de países em desenvolvimento foram vendidos ou arrendados por nações mais ricas, extensões que equivalem a nada menos que um quinto das superfícies cultiváveis da Europa. Negócios que acabam, por diversas razões, prejudicando as populaçõoes de regiões carentes, afirma Roman Herre, especialista em reforma agrária da Fian, uma organização internacional de defesa dos direitos humanos.

"A água, um recurso natural cada vez mais escasso, se tornou um bem extremamente estatégico. É evidente que muitas dessas empresas asseguram, através do acesso à terra, também o acesso à água. Há avaliações de especialistas de que haverá, no futuro, uma escassez muito maior de água do que de combustíveis fósseis", observa Herre.

POPULAÇÃO LOCAL EM DESVANTAGEM

Hoje, comenta o especialista, a falta de acesso à terra e água já pode ser considerada o maior problema para pequenos produtores rurais. A compra ou arrendamento de grandes áreas por estrangeiros acaba gerando somente poucos empregos para a população local. Muitas vezes – como é o caso dos chineses na África – os países que compram ou arrendam a terra também enviam a mão-de-obra de casa.

Os agricultores locais estão ameaçados de serem expulsos das áreas que até então cultivavam. Esse foi o caso, por exemplo, de Peter Baleke Kayiira, obrigado a fugir, já em 2001, das Forças Armadas na Uganda. Tudo isso porque o governo ugandense havia aceitado que uma empresa alemã que comercializa café usasse a região ao redor de seu povoado para uma plantação.

"Antes de sermos expulsos tudo estava bem, tínhamos nosso sustento garantido e até sobrava parte da produção que vendíamos. Agora isso não é mais possível. Só conseguimos fazer uma refeição por dia, as crianças não podem mais frequentar a escola. Se continuar assim, daqui a pouco seremos escravos", descreve Kayiira.

PARCA PARTICIPAÇÃO

As negociações que definem as condições de venda ou arrendamento de terra se realizam, na maioria das vezes, sem a participação da população local. Como o que aconteceu em Madagascar, onde o governo caiu no início do ano, depois que veio a público a intenção das autoridades de arrendar metade das zonas cultiváveis do país para um grupo da Coreia do Sul pelo prazo de nada menos que 99 anos.

Esse não é um caso isolado, diz Herre, lembrando que no Quênia houve uma situação semelhante. "Lá, o emirado árabe Catar recebeu grandes extensões de terra, em troca da promessa de investir na região, entre outros na construção de um porto local."

O exemplo do Quênia e de Madagascar são clássicos, pois nesses dois países, como em muitos outros, a população local está sendo completamente ignorada durante tais negociações. Esses contratos são, na maioria das vezes, ocultados da opinião pública e só vêm à tona por acaso", denuncia o especialista da Fian.

PROMESSAS VAZIAS

A experiência da organização mostra que os investidores, nesses contratos, costumam prometer projetos compatíveis com o desenvolvimento social local, bem como a criação de postos de trabalho e melhoria da infraestrutura. Essas promessas, contudo, quase nunca são cumpridas. Além disso, é importante lembrar que a produção agrária em escala industrial também afeta o meio ambiente de forma decisiva.


"Quando se vê que o Banco Mundial, por exemplo, quer investir quatro bilhões de euros nos agronegócios, pode-se partir do princípio de que essas terras serão basicamente ocupadas pela monocultura e o consumo de água será extremamente alto. O uso de pesticidas e adubo também se intensifica, algo altamente prejudicial ao meio ambiente", explica Heere.


Desde a recente crise de alimentos de 2008, cresce – pelo menos nos setores de cooperação internacional – a consciência de que os pequenos produtores dos países do hemisfério sul são os que mais sofrem com o problema. Um acesso justo e igualitário à terra e à água e uma participação real das populações locais nos processos de decisão fazem parte do direito humano ao alimento, reconhecido pelo direito internacional. Isso é o que todo governo tem que garantir, conclui o especialista Heere.




Fontes:

alerta.inf.br

Deutsche Welle
- Autora: Ulrike Mast-Kirschning Revisão: Simone Lopes

www.dw-world.de/dw/0,,607,00.html

Flora Ecopower
www.floraecopower.com

Banco Mundial
www.worldbank.org

Fian
www.fian.org

O Império anglo-americano em rota para o Brasil

O renomado Conselho de Relações Exteriores de Nova York (CFR), o principal centro de pensamento estratégico do establishment dos EUA, acaba de divulgar o relatório «Global Brazil and US-Brazil Relations» («Brasil Global e Relações EUA-Brasil»), no qual propõe diretrizes para a política estadunidense para com o País e, igualmente, explicita a visão dos autores sobre a posição brasileira no cenário global, no futuro próximo. A importância do documento pode ser aquilatada pelos autores, uma força-tarefa independente de luminares do establishment encabeça da por Samuel W. Bodman, ex-secretario de Energia do governo Bush filho (2005-09) e James D. Wolfensohn, ex-presidente do Banco Mundial (1995-2005).



Apoio duvidoso

Um leitor desavisado do documento poderia ter a impressão de que o velho sonho de consumo da elite política e diplomática brasileira, um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), estaria a ponto de fazer-se realidade. Logo de início, o texto afirma:

«A Força-Tarefa recomenda que o governo Obama endosse plenamente o Brasil como um membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A Força-Tarefa incentiva o governo a considerar as importantes dimensões regionais, multilaterais e de governança global de um tal passo, na medida em que engaje o Brasil em um intenso diálogo sobre este assunto.»

Puxando o saco do Brasil…

O relatório também ressalta o papel de Brasil como “ator global”, em função da importância da economia brasileira, especialmente, em função do crescimento populacional, seu enorme potencial de recursos naturais, especialmente na área energética – hídrica, petrolífera e nuclear – potencial de produção alimentícia e papel emergente no assuntos da ordem mundial, com ênfase em sua projeção frente à África.

Segundo o texto, «devido às massas terrestres, economias, populações e base de recursos de ambos os países, o Brasil e os EUA interagem, necessariamente, em um mundo crescentemente globalizado e multipolar».

Amigos da onça

Entretanto, antes de se aprofundar a análise do contexto estratégico em que se inscreve o relatório do CFR, deve-se destacar que a proposta da inclusão do Brasil no clube dos membros permanentes do CSNU, não é apenas um reconhecimento objetivo da importância global do País, mas tem embutida uma intenção manifesta de cooptá-lo para um projeto de reestruturação do poder mundial em que permanecem intocados os axiomas fundamentais do atual sistema global. Por exemplo, o documento sequer menciona a crise do sistema financeiro e bancário internacional, que tem sido a base da hegemonia anglo-americana no cenário internacional e, na realidade, é o principal item de uma agenda de reformas necessária para proporcionar uma verdadeira mudança da ordem de poder mundial. E, muito menos, cita o inevitável recuo estratégico anglo-americano diante do visível fracasso das intervenções militares na Ásia Central e no Oriente Médio, que coloca em xeque a expansão da sua estratégia hegemônica baseada no controle de recursos naturais – diante da qual é bastante conveniente a opção de cooptar o Brasil como alternativa para o fornecimento desses recursos.

Nada de novo no front…

Assim, o CFR, ainda que aceite formalmente a realidade de um mundo multipolar, não abre mão da pretensão de perpetuar o esquema hegemônico baseado no sistema de “livre comércio” e no controle dos fluxos monetários e financeiros, que tem prevalecido desde a emergência e a consolidação da Inglaterra como poder colonial, no final do século XVII e início do XVIII. Sem uma reforma do sistema de bancos centrais “independentes”, que surgiu com a criação do Banco de Inglaterra, em 1694, e a devolução aos governos nacionais da prerrogativa de emissão da moeda e do crédito, em paralelo com uma drástica redução do financiamento dos Estados nacionais pela emissão de títulos de dívida, nenhuma proposta de reformas globais pode ser levada a sério, nem terá qualquer impacto duradouro sobre a estrutura de crises em curso.

Presente de grego…

Em vez disso, o relatório deixa claro que a oligarquia anglo-arnericana gostaria de enquadrar o Brasil no molde de um grande exportador de matérias-primas e uma “potência ambiental”, que abra mão da utilização plena dos seus recursos naturais para o desenvolvimento interno soberano do País e da América do Sul,pelo processo de integração regional. Neste particular, é relevante que, enquanto ignora a necessidade de um aprofundamento qualitativo e quantitativo da industrialização do País, o documento destaque o potencial de exportação de produtos primários – energia e alimentos – e a autoirnposição de uma draconiana legislação ambiental, que nenhum país industrializado adotou, a começar pelos próprios EUA. Tal tendência é explicitada no trecho a seguir:

«A floresta amazônica é, em si própria, um valioso recurso, que recicla dióxido de carbono para produzir mais de 20% do oxigênio do mundo.»

Entre as propostas de atuação conjunta, o documento sugere:

«Há um amplo escopo para que os EUA e o Brasil trabalhem juntos para melhorar as capacidades de modelagem e coleta de dados climáticos, particularmente na Região Amazônica … Esses esforços bilaterais ajudariam ainda mais a aprimorar as ambições brasileiras nas ciências e tecnologias espaciais, ao mesmo tempo em que enfrentariam o desmatamento e as mudanças climáticas e as relações entre eles.»

“Recuerdos” do México

Por outro lado, a oferta de promover o Brasil como “ator global” segue de perto o roteiro utilizado no final da década de 1980 e início da de 1990, para convencer o México a aderir ao Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), com a promessa de que o país se converteria em um membro destacado do “Primeiro Mundo” – e, ao mesmo tempo, um interlocutor preferencial com as demais nações da América Latina. O resultado desta pregação interna dos governos de Carlos Salinas de Gortari (1988-1994) e Ernesto Zedillo (1994-2000) foi a profunda crise que assola o México, que viu destruída a sua capacidade de produção de alimentos e enfrenta claros riscos de desintegração nacional. Ademais, nenhuma nação da America Latina aceitou a alardeada “liderança diplomática” do México, que passou a ser considerado como pouco mais do que um porta-voz de políticas estadunidenses, como se acaba de constatar com o rotundo fracasso da candidatura do presidente do Banco do México, Agustin Carstens, ao comando do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Para o Brasil não seria diferente:

«Com o Brasil como membro permanente do CSNU, o Brasil e os EUA, necessariamente, trabalhariam juntos em todos os desafios importantes nas áreas da segurança internacional, desenvolvimento e questões humanitárias, criando, potencialmente, as condições para uma relação e cooperação bilaterais mais estreitas em uma gama de assuntos ainda mais vasta, inclusive, dentro da região.»

Criando problemas

Ironicamente, o relatório do CFR enfatiza falsamente uma pretensa desconfiança das demais nações da América do Sul com o tamanho do Brasil:

«Ao mesmo tempo, a região se mostra, com frequência, relutante em aceitar o gigante de língua portuguesa como um dos seus. A crescente interdependência entre o Brasil e os seus vizinhos complica ainda mais as distinções e assimetrias, o que se reflete em relações simultaneamente caracterizadas pela ambivalência, indiferença, tensões e deferências … Alguns sul-americanos são cautelosos com o fato de que o Brasil, como um novo hegemon potencial com olhos no poder global, possa não ter consideração pelos interesses da região.»

Com isso, o que não passa de uma falsa suposição no atual ambiente de integração regional, passaria a ser efetivo, se se concretizasse o ingresso do Brasil no CSNU da maneira proposta pelo CFR – não por falta de mérito, mas pela inclusão do País em uma ordem hegemônica global vinculada ao “excepcionalismo” anglo-americano de caráter neocolonial. Neste ponto, a verdadeira emergência do Brasil como ator global passa, necessariamente, pela consolidação e aprofundamento do processo de integração da América do Sul, que deve avançar a um sistema de união aduaneira, para defender o enorme mercado interno regional dos embates depredadores do “livre comércio” globalizado.

Tentando obter aliados

Multipolar, mas só com “livre comércio” A iniciativa do CFR não é nem independente nem isolada, integrando um intenso debate que se trava no interior do establishment, sobre os rumos que a ordem mundial poderá tomar a partir da atual crise financeira e bancária mundial. Isto fica evidente pelo fato de, simultaneamente ao relatório do CFR, uma proposta semelhante vem sendo feita pelo establishment britânico, na linha de elevar o status brasileiro no CSNU. Por exemplo, em 21 e 22 de junho últimos, visitou Brasil o vice-premier britânico Nick Clegg, que transmitiu o recado de Londres:

«O Brasil é hoje uma força global, não apenas por sua riqueza. O país é uma potência arnbiental, sem a qual não pode haver um acordo climático significativo, e tem um papel cada vez maior na segurança internacionaL… Por esse motivo, o Reino Unido ativamente apóia a ambição brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.»

Neocolonialismo

No Rio de Janeiro, em uma visrta à favela do Morro dos Prazeres, um lapso verbal do empolgado Clegg evidenciou os antolhos coloniais usados por certos dignitários britânicos para vislumbrar o Brasil, ao afirmar que gostaria de ver os laços entre os dois países “voltarem ao século XIX, para recuperar as bases de uma relação mais sólida (Notícias Terra, 22/06/2011)” .

Em um contexto mais amplo, em 20 de julho, o vice-chanceler Jeremy Browne proferiu, na Chatham House, um discurso intitulado «Navegando na Nova Ordem Mundial: o Reino Unido e as Potências Emergentes». A entidade, formalmente conhecida como Real Instituto de Assuntos Internacionais (RIIA), é uma instituição basilar do Império Britânico, que desde a década de 1920, juntamente com o CFR (criado à sua imagem e semelhança), integra o núcleo duro do establishment anglo-americano. De fato, a criação deste núcleo marcou a culminação do processo de cooptação dos EUA aos desígnios imperiais britânicos, no âmbito do processo de reformulação do imperialismo clássico, nas primeiras décadas do século XX.

Pretensão inglesa

O discurso de Browne teve como objetivo responder à pergunta: como a Grã-Bretanha, como potência mundial consolidada, deve responder à ascensão das potências emergentes e à nova ordenação de poder mundial que elas estão ensejando?

A resposta proposta por ele envolve três proposições:

«Uma: estamos vivendo uma revolução na ordem global. E esta é uma revolução: eu uso a palavra deliberadamente, não só para provocar. Dois: a Grã-Bretanha não deveria temer automaticamente essa revolução, e tem muitas das qualidades e características necessárias para responder às oportunidades que ela oferece. Mas, de forma crucial, três: para sobreviver, ou melhor ainda, prosperar nesse ambiente revolucionário, a Grã-Bretanha precisa responder com um nível de imaginação e determinação proporcional em escala ao impacto dessa revolução.»

«A História está, estou certo disto, repleta de discursos de ministros do Foreign Office, anunciando que estamos vivendo um período de importantes mudanças globais. Assim sendo, não é sem alguma consideração prévia que faço estas afirmativas hoje. Eu as faço contra o pano de fundo de duas revoluções de proporções sísmicas, que estão ocorrendo no cenário, mundial. A primeira é a Primavera Árabe … Mas, ao lado dessas revoluções “clássicas” óbvias, há uma segunda, menos visível, mais lenta, mas igualmente – de fato, eu diria ainda mais – profunda: a revolução das potências emergentes, que não ocupa as manchetes diariamente.»

A lenga-lenga continua

A resposta de Browne a esse questionamento é bastante reveladora do que o establishment anglo-arnericano pretende preservar nas mudanças da ordem mundial:

«Nunca o mundo foi tão interconectado. E nunca ele esteve a ponto de se transformar em tão multipolar. A combinação dessas duas condições nos apresenta desafios inusitados. Mas também oferece oportunidades inusitadas … e uma vez que estamos em terreno não mapeado, é importante nos aferrarmos a certos princípios chave, os pontos cardeais da nossa política. São estes três que considero os mais fundamentais: primeiro, o livre comércio e a mentalidade orientada ao exterior que o embasa; segundo, os nossos valores e as liberdades mais amplas que fundamentam o livre comércio e as sociedades livres; e terceiro, os singulares pontos de venda da Grã-Breranha, que nos dão a chance de transformar essa revolução em nossa oportunidade.»

Para não deixar qualquer dúvida, Browne reafirma que «devemos assegurar-nos de não esquecer de que o livre comércio é central para a dinâmica que está reconfigurando a ordem mundial».

A insistência no laissez-faire

A insistência em colocar o sistema de “livre comércio” no núcleo a ser preservado dentro da reorganização da estrutura do poder global significa que as oligarquias hegemônicas que controlam o sistema financeiro mundial não estão dispostas a abrir caminho pacificamente ao advento de uma nova ordem substancialmente diferente do sistema que surgiu na consolidação da hegemonia mundial anglo-holandesa, ao final do século XVII. Vale recordar que, em uma espécie da pré-história do sistema de “livre comércio”, enquadrava-se a pirataria, uma guerra naval irregular, por meio da qual as potências coloniais emergentes, Holanda e Inglaterra, minaram o poder econômico e financeiro do Império espanhol. A paz de Utrecht, em 1713, marcou a vitória das potências protestantes, Holanda e Inglaterra, sobre sua rival católica, a Espanha dos Habsburgo. A partir daí, predominou a hegemonia inglesa, baseada no “livre comércio” e no domínio dos oceanos.

O Brasil tem que sair dessa

A pirataria foi a forma incipiente do sistema de “livre comércio”. mais tarde institucionalizado pelo sistema de bancos centrais “independentes”, a partir da criação do Banco da Inglaterra. Isto, e não simplesmente uma crise cíclica do capitalismo, é o que está no núcleo da presente crise mundial. É evidente que a própria maneira de pensar, isto é, os sistemas de conceituação predominantes, estão em profunda crise e, portanto, não está claro para as elites hegemônicas um rumo certo e definido. É esta crise que está permitindo a emergência de novos atores, entre eles o Brasil, que podem conduzir uma verdadeira revolução, para corrigir efetivamente os rumos da Civilização, fora das matrizes coloniais livrecambistas.

Portanto, não é o eventual reconhecimento das potências hegemônicas que poderá levar o Brasil e as outras potências emergentes à condição de protagonistas da reconstrução da Civilização universal. As nações devem estar conscientes de que uma nova realidade mundial está para surgir, na qual os valores inalienáveis do homem, como a vida, a liberdade e a busca da felicidade, como estabelecido na Declaração da Independência dos EUA, juntamente com os princípios do Estado nacional soberano, deverão ser as bússolas que orientarão o processo civilizatório ao longo do século XXI.

Lorenzo Carrasco

Solidariedade Ibero-americana




Fonte: blogdoambientalismo, postado por Husc
Imagem: google

Quem somos nós? Bárbaros ou "Civilizados"

Immanuel Wallerstein, provocador: capitalismo está condenado: resta saber quê irá substituí-lo.
Transição não será apocalíptica: dependerá das escolhas que fizermos agora


O Tempo em que podemos mudar o mundo

Entrevista a Sophie Shevardnadze

Tradução: Daniela Frabasile

A entrevista durou pouco mais de onze minutos, mas alimentará horas de debates em todo o mundo e certamente ajudará a enxergar melhor o período tormentoso que vivemos. Aos 81 anos, o sociólogo estadunidense Immanuel Wallerstein, acredita que o capitalismo chegou ao fim da linha: já não pode mais sobreviver como sistema. Mas – e aqui começam as provocações – o que surgirá em seu lugar pode ser melhor (mais igualitário e democrático) ou pior (mais polarizado e explorador) do que temos hoje em dia.

Estamos, pensa este professor da Universidade de Yale e personagem assíduo dos Fóruns Sociais Mundiais, em meio a uma bifurcação, um momento histórico único nos últimos 500 anos. Ao contrário do que pensava Karl Marx, o sistema não sucumbirá num ato heróico. Desabará sobre suas próprias contradições. Mas atenção: diferente de certos críticos do filósofo alemão, Wallerstein não está sugerindo que as ações humanas são irrelevantes.

Ao contrário: para ele, vivemos o momento preciso em que as ações coletivas, e mesmo individuais, podem causar impactos decisivos sobre o destino comum da humanidade e do planeta. Ou seja, nossas escolhas realmente importam. “Quando o sistema está estável, é relativamente determinista. Mas, quando passa por crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante.”

É no emblemático 1968, referência e inspiração de tantas iniciativas contemporâneas, que Wallerstein situa o início da bifurcação. Lá teria se quebrado “a ilusão liberal que governava o sistema-mundo”. Abertura de um período em que o sistema hegemônico começa a declinar e o futuro abre-se a rumos muito distintos, as revoltas daquele ano seriam, na opinião do sociólogo, o fato mais potente do século passado – superiores, por exemplo, à revolução soviética de 1917 ou a 1945, quando os EUA emergiram com grande poder mundial.


Há exatamente dois anos, você disse ao RT que o colapso real da economia ainda demoraria alguns anos. Esse colapso está acontecendo agora?

Não, ainda vai demorar um ano ou dois, mas está claro que essa quebra está chegando.

Quem está em maiores apuros: Os Estados Unidos, a União Europeia ou o mundo todo?

Na verdade, o mundo todo vive problemas. Os Estados Unidos e União Europeia, claramente. Mas também acredito que os chamados países emergentes, ou em desenvolvimento – Brasil, Índia, China – também enfrentarão dificuldades. Não vejo ninguém em situação tranquila.

Você está dizendo que o sistema financeiro está claramente quebrado. O que há de errado com o capitalismo contemporâneo?

Essa é uma história muito longa. Na minha visão, o capitalismo chegou ao fim da linha e já não pode sobreviver como sistema. A crise estrutural que atravessamos começou há bastante tempo. Segundo meu ponto de vista, por volta dos anos 1970 – e ainda vai durar mais uns vinte, trinta ou quarenta anos. Não é uma crise de um ano, ou de curta duração: é o grande desabamento de um sistema. Estamos num momento de transição. Na verdade, na luta política que acontece no mundo — que a maioria das pessoas se recusa a reconhecer — não está em questão se o capitalismo sobreviverá ou não, mas o que irá sucedê-lo. E é claro: podem existir duas pontos de vista extremamente diferentes sobre o que deve tomar o lugar do capitalismo.

Qual a sua visão?

Eu gostaria de um sistema relativamente mais democrático, mais relativamente igualitário e moral. Essa é uma visão, nós nunca tivemos isso na história do mundo – mas é possível. A outra visão é de um sistema desigual, polarizado e explorador. O capitalismo já é assim, mas pode advir um sistema muito pior que ele. É como vejo a luta política que vivemos. Tecnicamente, significa é uma bifurcação de um sistema.

Então, a bifurcação do sistema capitalista está diretamente ligada aos caos econômico?

Sim, as raízes da crise são, de muitas maneiras, a incapacidade de reproduzir o princípio básico do capitalismo, que é a acumulação sistemática de capital. Esse é o ponto central do capitalismo como um sistema, e funcionou perfeitamente bem por 500 anos. Foi um sistema muito bem sucedido no que se propõe a fazer. Mas se desfez, como acontece com todos os sistemas.

Esses tremores econômicos, políticos e sociais são perigosos? Quais são os prós e contras?

Se você pergunta se os tremores são perigosos para você e para mim, então a resposta é sim, eles são extremamente perigosos para nós. Na verdade, num dos livros que escrevi, chamei-os de “inferno na terra”. É um período no qual quase tudo é relativamente imprevisível a curto prazo – e as pessoas não podem conviver com o imprevisível a curto prazo. Podemos nos ajustar ao imprevisível no longo prazo, mas não com a incerteza sobre o que vai acontecer no dia seguinte ou no ano seguinte. Você não sabe o que fazer, e é basicamente o que estamos vendo no mundo da economia hoje. É uma paralisia, pois ninguém está investindo, já que ninguém sabe se daqui a um ano ou dois vai ter esse dinheiro de volta. Quem não tem certeza de que em três anos vai receber seu dinheiro, não investe – mas não investir torna a situação ainda pior. As pessoas não sentem que têm muitas opções, e estão certas, as opções são escassas.

Então, estamos nesse processo de abalos, e não existem prós ou contras, não temos opção, a não ser estar nesse processo. Você vê uma saída?

Sim! O que acontece numa bifurcação é que, em algum momento, pendemos para um dos lados, e voltamos a uma situação relativamente estável. Quando a crise acabar, estaremos em um novo sistema, que não sabemos qual será. É uma situação muito otimista no sentido de que, na situação em que nos encontramos, o que eu e você fizermos realmente importa. Isso não acontece quando vivemos num sistema que funciona perfeitamente bem. Nesse caso, investimos uma quantidade imensa de energia e, no fim, tudo volta a ser o que era antes. Um pequeno exemplo. Estamos na Rússia. Aqui aconteceu uma coisa chamada Revolução Russa, em 1917. Foi um enorme esforço social, um número incrível de pessoas colocou muita energia nisso. Fizeram coisas incríveis, mas no final, onde está a Rússia, em relação ao lugar que ocupava em 1917? Em muitos aspectos, está de volta ao mesmo lugar, ou mudou muito pouco. A mesma coisa poderia ser dita sobre a Revolução Francesa.

O que isso diz sobre a importância das escolhas pessoais?

A situação muda quando você está em uma crise estrutural. Se, normalmente, muito esforço se traduz em pouca mudança, nessas situações raras um pequeno esforço traz um conjunto enorme de mudanças – porque o sistema, agora, está muito instável e volátil. Qualquer esforço leva a uma ou outra direção. Às vezes, digo que essa é a “historização” da velha distinção filosófica entre determinismo e livre-arbítrio. Quando o sistema está relativamente estável, é relativamente determinista, com pouco espaço para o livre-arbítrio. Mas, quando está instável, passando por uma crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante. As ações de cada um realmente importam, de uma maneira que não se viu nos últimos 500 anos. Esse é meu argumento básico.

Você sempre apontou Karl Marx como uma de suas maiores influências. Você acredita que ele ainda seja tão relevante no século 21?

Bem, Karl Marx foi um grande pensador no século 19. Ele teve todas as virtudes, com suas ideias e percepções, e todas as limitações, por ser um homem do século 19. Uma de suas grandes limitações é que ele era um economista clássico demais, e era determinista demais. Ele viu que os sistemas tinham um fim, mas achou que esse fim se dava como resultado de um processo de revolução. Eu estou sugerindo que o fim é reflexo de contradições internas. Todos somos prisioneiros de nosso tempo, disso não há dúvidas. Marx foi um prisioneiro do fato de ter sido um pensador do século 19; eu sou prisioneiro do fato de ser um pensador do século 20.

Do século 21, agora.

É, mas eu nasci em 1930, eu vivi 70 anos no século 20, eu sinto que sou um produto do século 20. Isso provavelmente se revela como limitação no meu próprio pensamento.

Quanto – e de que maneiras – esses dois séculos se diferem? Eles são realmente tão diferentes?

Eu acredito que sim. Acredito que o ponto de virada deu-se por volta de 1970. Primeiro, pela revolução mundial de 1968, que não foi um evento sem importância. Na verdade, eu o considero o evento mais significantes do século 20. Mais importante que a Revolução Russa e mais importante que os Estados Unidos terem se tornado o poder hegemônico, em 1945. Porque 1968 quebrou a ilusão liberal que governava o sistema mundial e anunciou a bifurcação que viria. Vivemos, desde então, na esteira de 1968, em todo o mundo.

Você disse que vivemos a retomada de 68 desde que a revolução aconteceu. As pessoas às vezes dizem que o mundo ficou mais valente nas últimas duas décadas. O mundo ficou mais violento?

Eu acho que as pessoas sentem um desconforto, embora ele talvez não corresponda à realidade. Não há dúvidas de que as pessoas estavam relativamente tranquilas quanto à violência em 1950 ou 1960. Hoje, elas têm medo e, em muitos sentidos, têm o direito de sentir medo.

Você acredita que, com todo o progresso tecnológico, e com o fato de gostarmos de pensar que somos mais civilizados, não haverá mais guerras? O que isso diz sobre a natureza humana?

Significa que as pessoas estão prontas para serem violentas em muitas circunstâncias. Somos mais civilizados? Eu não sei. Esse é um conceito dúbio, primeiro porque o civilizado causa mais problemas que o não civilizado; os civilizados tentam destruir os bárbaros, não são os bárbaros que tentam destruir os civilizados. Os civilizados definem os bárbaros: os outros são bárbaros; nós, os civilizados.

É isso que vemos hoje? O Ocidente tentando ensinar os bárbaros de todo o mundo?

É o que vemos há 500 anos.



Fontes: outraspalavras.net (As declarações foram colhidas no dia 4 de outubro pela jornalista Sophie Shevardnadze, que conduz o programa Interview na emissora de televisão russa RT (abaixo). A transcrição e a tradução para o português são iniciativas de Outras Palavras.)

Imagem: google


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