A Destruição de Pyongyang - O terror vindo dos céus
Por: Alcione Costa Durante todo o transcurso da Guerra (1950-1953), Pyongyang a capital da República Democrática Popular da Coréia, foi pesadamente atacada com todos os tipos de bombas daquela época de forma implacável e impiedosa pela Força Aérea dos Estados Unidos, principalmente com bombas Napalm.
Foram mais de 1000 bombas por quilômetro quadrado, e a destruição foi total e aniquiladora. Toda a estrutura e infra-estrutura da cidade foram destruídas, energia elétrica, água potável, hospitais, escolas, transporte, comunicações, pontes, indústrias, estradas, farmácias e todo o comércio. A cidade foi praticamente riscada do mapa. Quando o armistício foi assinado em 27-07-1953 havia somente 2 prédios na cidade, na qual 400.000 pessoas haviam residido, uma foto aérea tirada em meados de 1953 sobre esta capital, mostrou que as condições da cidade estavam semelhantes as cidades de Hiroshima e Nagasaki logo após terem sido bombardeadas com armas nucleares pelos Estados Unidos em 06.08.1945 e 09.08.1945 respectivamente.
(É bom que fique aqui registrado que os EUA foi o único país na história da humanidade a lançar armas nucleares sobre seres humanos).
A destruição, o flagelo, a desgraça, a fome e a miséria sem paralelos que se abateu sobre a população e de forma tão aguda se perpetuou nos anos seguintes pela estagnação da economia e instabilidade política, como conseqüência de tão arrasadora experiência.
Foram centenas de milhares de crianças, mulheres e idosos mortos despedaçados e carbonizados. Além dos órfãos e sobreviventes, desfigurados pelas queimaduras, mutilados pelas bombas de fragmentação e por outras armas. E ainda milhares de famílias separadas e casas destruídas, entre outras barbaridades.
As terríveis bombas de Napalm
Durante todo o conflito (1950-1953), os Estados unidos mantiveram uma política de pesados e constantes bombardeios em larga escala sobre a população da Coréia do Norte, especialmente utilizando bombas incendiárias contra todas as cidades e instalações civis e militares da parte norte da península coreana. Mesmo que esses tipos de atrocidades fossem tristemente lembrados no mundo pelo horror das imagens de vítimas civis, justamente na Guerra do Vietnã, pois naquele período programas de TV mostravam freqüentemente para todo o mundo, cenas horripilantes de crianças, idosos, mulheres sendo queimadas vivas.
A bomba Napalm possui uma substância gelatinosa que cola na pele, causando queimaduras de 3º grau, pois as pessoas mesmo entrando na água, ainda continuavam queimando e significativamente muito mais napalm foram lançadas no norte da península (1950-1953) apesar do relativo pouco tempo de guerra em relação à Guerra do Vietnã.
Para se ter uma idéia, durante o final da 2ª metade do ano de 1950, somente neste período foi lançado o equivalente a mais de 1 milhão de galões de Napalm sobre a população civil coreana na parte norte.
Em Maio e Junho de 1953, reforçando ordens do General Douglas MacArthur (1880-1964), o então 33º Presidente dos Estados Unidos Harry Truman (1884-1972), autorizou o General Curtis E. LeMay (1906-1990), líder do Comando Estratégico Aéreo (líder daquele comando desde 19 de Outubro de 1949), a bombardear usando bombas de fragmentação e também bombas incendiárias. Em suma, a ordem era de destruir todas as barragens, hidroelétricas, agricultura, indústria, plantações de arroz e incendiar todas as cidade e aldeias de camponeses da Coréia do Norte, matando também milhares de pessoas afogadas devido à destruição das barragens e posteriormente outros milhares morreram de fome.
Curtis Emerson LeMay, o mais jovem general da Força Aérea dos Estados Unidos ao receber a 4ª estrela, desde Ulysses S. Grant (1822-1885), do Exército, declarou:´Nós matamos 30% da população da Coréia do Norte, (...) na verdade nós matamos 40% da população da Coréia do Norte, talvez o maior percentual de população civil morta, na história de todas as guerras.`
O mesmo LeMay, durante sua aposentadoria declarou:
'Nós consumimos pelo fogo cada cidade da Coréia do Norte, e algumas poucas do Sul por engano, mas de qualquer maneira nós as queimamos.'
Após várias décadas da "guerra contra as drogas", acompanhada por um
custo colossal em vidas humanas e recursos materiais, os
narcotraficantes hoje são mais fortes do que nunca e controlam um
território maior do que em qualquer época.
Por Salvador Capote
Nos últimos seis anos, ocorreram no
México mais de 47 mil assassinatos relacionados ao tráfico de drogas. O
número de mortes foi de 2.119, em 2006, para cerca de 17 mil, em 2011.
Em 2008, o Departamento de Justiça estadunidense advertiu que as OTDs
(Organizações de Tráfico de Drogas), vinculadas a cartéis mexicanos,
estavam ativas em todas as regiões dos Estados Unidos. Na Flórida atuam
máfias associadas ao cartel do Golfo, aos Zetas e à Federação de
Sinaloa. Miami é um dos principais centros de recepção e distribuição de
drogas. Além dos mencionados, outros cartéis, como o de Juárez e o de
Tijuhana, operam nos Estados Unidos.
Os cartéis do México ganharam maior força depois que substituíram os
colombianos de Cali e Medellín nos anos 1990 e controlam agora 90% da
cocaína que entra nos Estados Unidos. O maior estímulo ao narcotráfico é
o alto consumo estadunidense. Em 2010, uma pesquisa nacional do
Departamento de Saúde revelou que aproximadamente 22 milhões de
estadunidenses maiores de 12 anos consomem algum tipo de droga.
Esses, que são apenas alguns dos mais inquietantes dados estatísticos,
permitem questionar a eficácia da chamada "guerra contra as drogas". É
impossível crer que exista realmente uma vontade política para por fim a
este flagelo universal quando observamos o papel desempenho o
narcotráfico a serviço da contra-revolução, para a expansão das
transnacionais e para as ambições geopolíticas dos Estados Unidos e
outras potências. Tráfico da CIA
Repassemos, em síntese, a história recente. A administração de Richard
Nixon, ao iniciar a "guerra contra as drogas" (1971), desenvolve ao
mesmo tempo o tráfico de heroína no Sudeste Asiático com o propósito de
financiar suas operações militares nessa região.
A heroína produzida no Triângulo de Ouro (de onde se unem as zonas
montanhosas do Vietnã, Laos, Tailândia e Myanmar) era transportada em
aviões da “Air America”, propriedade da CIA (Agência Central de
Inteligência). Em uma conferência de imprensa televisionada em primeiro
de junho de 1971, um jornalista perguntou a Nixon: "Senhor presidente, o
que você fará com as dezenas de milhares de soldados estadunidenses que
regressam viciados em heroína?"
As operações do "Air America" continuaram até a queda de Saigon em 1975.
Enquanto a CIA transportava ópio e heroína do Sudeste Asiático, o
tráfico e consumo de drogas nos Estados Unidos se convertia em tragédia
nacional. O presidente Gerald Ford solicitou ao Congresso, em 1976, a
aprovação de leis que substituíssem a liberdade condicional com a
prisão, estabelecessem condenações mínimas obrigatórias e negassem as
fianças para determinados delitos envolvendo drogas.
O resultado foi um aumento exponencial do número de condenados por
delitos relacionados com o tráfico e consumo de drogas e, por
conseguinte, conversão de Estados Unidos no país com maior população
prisional do mundo. O peso principal desta política punitiva caiu sobre a
população negra e outras minorias.
As administrações estadunidenses durante os anos 1980 e 1990 apoiaram a
governos sul-americanos envolvidos diretamente no tráfico de cocaína.
Durante a administração Carter, a CIA interveio para evitar que dois dos
chefes do cartel de Roberto Suárez (rei da cocaína) fossem levados a
juízo nos Estados Unidos. Ao ficar livres, puderam regressar à Bolívia e
atuar como protagonistas no golpe de estado de 17 de julho de 1980,
financiado pelos barões da droga. A sangrenta tirania do general Luis
García Meza foi apoiada pela administração de Ronald Reagan.
A participação mais conspícua da administração Reagan no narcotráfico
foi o escândalo conhecido como "Irã-Contras" cujo eixo mais
propagandeado foi a obtenção de fundos para financiar o conflito
nicaragüense mediante a venda ilegal de armas ao Irã, mas está bem
documentado, ademais, o apoio de Reagan, com este mesmo propósito, ao
tráfico de cocaína dentro e fora dos Estados Unidos.
O jornalista William Blum explica essas conexões em seu livro "Rogue
State". Na Costa Rica, que servia como Frente Sul dos "contras"
(Honduras era a Frente Norte) operavam várias redes "CIA-contras"
envolvidas com o tráfico de drogas.
Estas redes estavam associadas com Jorge Morales, colombiano residente
em Miami. Os aviões de Morales eram carregados com armas na Flórida,
voavam à América Central e regressavam carregados de cocaína. Outra rede
com base na Costa Rica era operada por cubanos anti-castristas
contratados pela CIA como instrutores militares. Esta rede utilizava
aviões dos "contras" e de uma companhia de venda de camarões que lavava
dinheiro da CIA, no translado da droga aos Estados Unidos.
Em Honduras, a CIA contratou a Alan Hyde, o principal traficante nesse
país ("o padrinho de todas as atividades criminais" de acordo com
informações do governo dos Estados Unidos), para transportar em suas
embarcações abastecimento aos "contras". A CIA, de volta, impediria
qualquer ação contra Hyde de agências anti-narcóticos.
Os caminhos da cocaína tinham importantes estações, como a base aérea de
Ilopango, em El Salvador. Um ex-oficial da CIA, Celerino Castillo,
descreveu como os aviões carregados de cocaína voavam em direção ao
norte, aterrizavam impunemente em vários lugares dos Estados Unidos,
incluindo a base da Força Aérea no Texas, e regressavam com dinheiro
abundante para financiar a guerra.
"Tudo sob o guarda-chuva protetor do governo dos Estados Unidos". A
operação de Ilopango se realizava sob a direção de Félix Rodríguez
(aliás, Max Gómez) em conexão com o então vice- presidente George H. W.
Bush e com Oliver North, quem formava parte da equipe do Conselho de
Segurança Nacional de Reagan.
Em 1982, o diretor da CIA, William Casey, negociou um "memorando de
entendimento" com o fiscal geral, William French Smith, que exonerava a
CIA de qualquer responsabilidade relacionada às operações de tráfico de
drogas realizadas por seus agentes. Este acordo esteve em vigor até
1995.
Reagan e seu sucessor, George H. W. Bush, patrocinaram o "homem da CIA
no Panamá", Manuel Noriega, vinculado ao cartel de Medellín e à lavagem
de grandes quantidades de dinheiro procedentes da venda da droga. Quando
Noriega deixou de ser útil e se converteu em estorvo, os Estados Unidos
invadiram o Panamá (20 de dezembro de 1989) em um bárbaro ato sem
precedentes contra o direito internacional e a soberania de um país
pequeno.
Michael Ruppert, jornalista e ex-oficial do setor de narcóticos,
apresentou em 1997 uma larga declaração, acompanhada de provas
documentais aos comitês de inteligência ("Select Intelligence
Committees") de ambas Câmaras do Congresso. Em um dos parágrafos afirma: "A CIA traficou drogas não só durante a época dos "Irã-contras", mas o
tem feito durante todos os cinqüenta anos de sua história. Hoje lhes
apresentarei evidências que demonstrarão que a CIA, e muitas figuras que
se fizeram célebres durante o 'Irã-contras', como Richard Secord, Ted
Shackley, Tom Clines, Félix Rodríguez e George H. W.Bush, venderam
drogas aos estadunidenses desde a época do Vietnã."
Em 1999, sob a administração de Bill Clinton, os Estados Unidos
bombardearam impiedosamente o povo iugoslavo durante 78 dias. De novo
aqui aparece o narcotráfico no fundo das motivações. Os serviços de
inteligência dos Estados Unidos e seus homólogos da Alemanha e
Grã-Bretanha utilizaram o tráfico de heroína para financiar a criação e o
equipamento do Exército de Libertação de Kosovo.
A heroína proveniente da Turquia e da Ásia Central passava pelo Mar
Negro, Bulgária , Macedônia e Albânia (Rota dos Balcãs) com destino a
Itália. Com a destruição da Sérvia e o fortalecimento – desejado ou não –
da máfia albanesa, a administração Clinton deixava livre o caminho da
droga desde o Afeganistão até a Europa Ocidental. De acordo com informes
da DEA e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, cerca de 80 %
da heroína que se introduz na Europa passa através de Kosovo.
"Planos" Colômbia
Várias administrações estadunidenses, e em particular a de George W.
Bush, foram cúmplices do genocídio na Colômbia. A "guerra contra as
drogas" sustentada pelos Estados Unidos com recursos financeiros
multimilionários, assistência técnica e volumosa ajuda militar, não
conseguiu deter o fluxo de cocaína e, pelo contrário, tem sido
determinante no surgimento e desenvolvimento dos grupos paramilitares a
serviço dos proprietários de terras com plantações de drogas, e também
como pretexto para manter o domínio sobre os trabalhadores e a população
camponesa.
O Plano Colômbia resultou num completo fracasso, mas serviu como tela de
fundo para a ingerência dos Estados Unidos no país e mostrou claramente
seu verdadeiro objetivo, a contra-revolução.
Muitas vezes se esquece que o narcotráfico é provavelmente o negócio
mais lucrativo dos capitalistas. Com a guerra na Colômbia lucram as
empresas químicas que produzem os herbicidas, a indústria aeroespacial
que abastece helicópteros e aviões, os fabricantes de armas e, em geral,
todo o complexo militar-industrial. Os bilhões de dólares que gera o
tráfico ilegal de drogas, também incrementam o poder financeiro das
corporações transnacionais e da oligarquia local.
A recente declaração do Secretariado de Estado Maior Central das
FARC-EP, em vista do quadragésimo oitavo aniversário do início da luta
armada rebelde, denuncia este vínculo drogas-capital: "os dinheiros do
narcotráfico se convertem em terras, inundam a banca, as finanças, os
investimentos produtivos e especulativos, a hotelaria, a construção e a
contratação pública, resultando funcionais e necessários no jogo de
captação e circulação de grandes capitais que caracteriza a capitalismo
neoliberal de hoje. Igualmente ocorre na América Central e no México."
O Tratado de Livre Comércio Estados Unidos-México (Nafta) obrigou
numerosos camponeses, ante a competitividade de produtos agrícolas
estadunidenses, a cultivar em suas terras papoula e maconha. Outros,
frente à alternativa de trabalho escravo nas indústrias "maquiladoras",
preferem ingressar nas redes mafiosas da droga.
O grande aumento do tráfico de mercadorias através da fronteira e dos
controles bancários para combater o terrorismo, provocou a lavagem de
dinheiro dos bancos até as corporações comerciais. A complexidade e o
volume das operações financeiras, e o fluxo instantâneo e constante de
capitais "on line", tornam extremamente difícil seguir o rastro das
transações ilícitas.
Uma das conseqüências do Nafta é a impunidade quase total que acompanha o
fluxo de narcodólares em ambos os lados da fronteira. Igualmente como
no México, o Tratado de Livre Comércio recentemente em vigor na Colômbia
estimulará a violência, o narcotráfico e a repressão sobre os
trabalhadores e camponeses. A "Iniciativa Mérida", por sua vez, é
somente a versão 'México-Centroamericana' do Plano Colômbia.
Devemos meditar sobre o fato de que em todos os cenários de onde os
Estados Unidos têm intervido militarmente, principalmente naqueles onde
tem ocupado a sangue e fogo o território, o narcotráfico, sem diminuir,
como seria de esperar, está multiplicado e fortalecido. No Afeganistão, o
cultivo de papoula se reduziu drasticamente durante o governo dos
talibãs para alcançar logo, sob a ocupação estadunidense, um crescimento
acelerado.
O Afeganistão é atualmente o primeiro produtor de ópio do mundo, mas,
ademais, já não exporta somente em forma de pasta para seu processamento
em outros países, mas fabrica a heroína e a morfina em seu próprio
território.
Se nos atemos aos fatos históricos, poderíamos afirmar que a política
dos Estados Unidos não tem sido a de "guerra contra as drogas", senão a
de "drogas para a guerra".
A recente revelação, de que o irmão
(implicado no tráfico de droga) do actual presidente do Afganistão,
Hamid Karzai, era pago desde há 8 anos pela CIA, vem confirmar o que
muitos vinham denunciando: a CIA é quem controla o trafico de ópio
afegão.
Para além dos
interesses geoestratégicos, do controle do petróleo e do gás, a invasão
do Afganistão, teve também como objectivo o controle da produção de
ópio.
A CIA e a Droga...
Um artigo do "The New York Times" de 27 de outubro de 2009, revela
que Ahmed Wali Karzai, irmão do presidente do Afganistão, é pago desde
há 8 anos pela CIA para desempenhar vários serviços, entre os quais, a
formação de um grupo paramilitar incombido de realizar ataques contra
oponentes talibans na região de Kandahar. Este é suspeito desde há muito
de tráfico de droga.
http://www.nytimes.com/2009/10/28/world/asia/28intel.html?_r=1&ref=world Afeganistão, o maior produtor mundial de ópio. Antes
da guerra entre a URSS e o Afganistão (1979-1989), a produção de ópio
era quase nula no Afganistão, assim como aliás no Paquistão. Mas no
início de 1979, as operações clandestinas da CIA estimularam a sua
produção, sobretudo junta da fronteira entre o Paquistão e o Afganistão,
tornando-se a primeira fonte mundial de heroína, fornecendo 60% do
consumo americano. Com a chegada ao poder dos talibans, a
produção de ópio tinha caido 90% em 2001, em grande parte por causa dos
seus vários planos de irradicação do tráfico de droga. Esta proibição,
desencadeou "o inicio de uma penúria de heroina na Europa nos finais de
2001" como admitiu então a ONU.
Com a invasão do Afeganistão
pela NATO, a produção não mais parou de subir, até atingir níveis nunca
antes alcançados e fazendo do Afganistão o fornecedor de 94% do ópio
mundial. Isto só foi possível porque a CIA passou a controlar a sua
produção e exportação.
A presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, questionou nesta
quarta (6) os que buscam pela via judicial a permissão para adquirir
moeda estrangeira e anunciou que passará sua renda fixa de dólares para
peso.
A mandatária disse que "se a
dolarização tivesse vencido, os argentinos estariam todos mortos. O que
me chama a atenção é que tenha comunicadores que pedem para dolarizar a
economia".
"Se esquecem de tudo o que passou em 2001?", disse a presidenta, em rede
nacional, em referência a uma das piores crises econômicas do país, em
momento em que havia paridade do peso e do dólar.
"Se esquecem que apenas neste mês de agosto vão cobrar o último
vencimento dos títulos 2012 com os quais se engancharam porque não
podiam pagá-los?", afirmou Cristina.
Além disso, ela antecipou que passará suas economias em dólares para
pesos e convidou seus funcionários para seguirem esse exemplo. O governo
adotou medidas para restringir a compra de dólares com o fim de
acumular moeda estrangeira no marco da crise econômica internacional.
Autoridades iranianas pediram nesta quinta-feira (7) que os países
do Grupo 5+1 reconheçam seu direito de desenvolver um programa nuclear
civil e pacífico, para assegurar o êxito da próxima reunião sobre o tema
prevista para acontecer em Moscou, nos dias 18 e 19 de junho, indicou a
imprensa iraniana.
Ali Akbar Velayati
"Esperamos que os países do Grupo
5+1 (Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido e Alemanha)
participem com realismo da reunião de Moscou e tomem suas decisões
respeitando os direitos justos do Irã de desenvolver um programa
nuclear civil", disse Ali Akbar Velayati, conselheiro para assuntos
internacionais do aiatolá Ali Khamenei.
"O Irã também se compromete a manter atividades nucleares pacíficas
dentro das normas internacionais", acrescentou. O Irã e o Grupo 5+1 se
reunirão em Moscou para dar prosseguimento às negociações sobre o
programa nuclear que começaram em abril em Istambul e foram mantidas
depois em Bagdá nos dias 23 e 24 de maio.
"As pressões da frente da arrogância (ocidentais) nos impedem de
negociar com base em um plano em que todos nós possamos ganhar", disse o
ex-presidente Akbar Hachemi Rafsandjani, que dirige o Conselho do
Discernimento, uma entidade encarregada de aconselhar o aiatolá.
"O ocidente deve saber que o caminho do êxito nas negociações passa pelo
reconhecimento dos direitos justos do Irã e do abandono de uma política
miserável de pressão, ameaças e sanções", acrescentou.
*Como diz o ditado palestino:"Quem despoja os demais, vive sempre em terror". E os norte americanos só fazem isso porque no mundo há alienados o suficiente para acreditar que na Líbia havia um regime totalitário e que eles (OTAN) levariam aos líbios, a "Democracia e a Liberdade".
Economia do país segue e ritmo forte mesmo após sanções; país é envolto por estereótipos que pouco refletem a realidade.
Agência Efe
Opera MundiPedro Chadarevian | São Paulo
O Irã
pensa grande. Apesar dos boicotes e pressões internacionais, o país
segue o curso de uma ousada estratégia de desenvolvimento. A meta é
estar entre as 15 maiores economias do planeta antes de 2020. A
valorização do preço do petróleo explica apenas em parte este sucesso. A
economia iraniana vem se diversificando e passou praticamente incólume
pela crise global.
Por trás desta expansão impressionante está um modelo que combina
elementos socialistas, herdados da Revolução de 1979, com as reformas de
mercado promovidas pelo atual presidente logo em seu primeiro mandato.
Um processo amplo de privatizações reduziu a presença do Estado na
economia, abrindo espaço para investidores externos, mantendo, contudo,
uma participação importante para o capital nacional, estatal e privado. O
setor automobilístico do país, por exemplo, tem tecnologia
predominantemente nacional, é o quinto mais pujante do planeta.
Como nenhum processo de desenvolvimento se dá sem o apoio fundamental na
evolução da qualidade de vida da população, vale a pena uma rápida
incursão sobre este tema. Não há dúvidas que a alta qualificação da
mão-de-obra contribui diretamente para a situação econômica recente. O
país, desde a ruptura com o regime dos xás, investiu pesadamente em
educação. A ponto de liderar em 2011 o ranking dos países com maior
crescimento na produção científica no mundo. O estado de bem-estar
social é também um dos mais evoluídos da região, capaz de reduzir o
nível de pobreza a míseros, com o perdão do trocadilho, 12% (no Brasil, o
índice atualmente se situa em torno dos 20%).
A repercussão política destas condições materiais excepcionais é
evidente. No Irã, que mantém, apesar das pressões externas, a
estabilidade democrática, não parece haver hoje qualquer sinal de
contaminação do ambiente revolucionário do norte da África.
O modelo atual de desenvolvimento se embasa em uma retórica
antiimperialista, buscando ultimamente aliados inclusive na América
Latina, como Hugo Chávez (Venezuela) e Rafael Correa (Equador). Mas se a
política externa ajuda a legitimar o regime, a enorme influência que
mantêm os aiatolás – com status de verdadeiro poder moderador no
interior do Estado – produz uma massa crescente de descontentes, em
especial entre segmentos da intelectualidade.
Para entender melhor a realidade complexa desta sociedade em frenética transformação, oOutra Economia escutou
o filósofo cearense Daniel Marcolino, que acaba de defender uma tese de
mestrado na Universidade de São Paulo sobre a estética do cinema
iraniano. Para realizar a sua pesquisa, passou dois meses imerso no país
persa, e conta agora com exclusividade para os leitores do Opera Mundi esta
experiência, esclarecendo aspectos da vivência dos iranianos que vão
muito além da imagem estereotipada difundida pela grande imprensa.
* * * * *
NO BRASIL, A INFORMAÇÃO QUE NOS CHEGA SOBRE O IRÃ PASSA, EM GERAL,
PELO OBSCURO FILTRO DA MÍDIA OCIDENTAL, QUE QUER NOS FAZER ACREDITAR NOS
RISCOS DE UM REGIME TIRANO, TOTALITÁRIO, ATRASADO E COM INTENÇÕES
ESTRITAMENTE BÉLICAS E EXPANSIONISTAS. LENDO O SEU TRABALHO DE
MESTRADO [“A DILUIÇÃO DO AUTOR NA TRILOGIA DE KOKER DE ABBAS
KIAROSTAMI”], NOS DAMOS CONTA QUE A INTENSA VIDA CULTURAL NA CAPITAL DO
PAÍS, TEERÃ, APRESENTA UMA REALIDADE QUE VAI MUITO ALÉM DESSE
ESTEREÓTIPO, E MUITAS VEZES CONTRARIANDO TOTALMENTE ESSA VISÃO
PRECONCEITUOSA.
Não só no Brasil, mas em todo o Ocidente
(exceção feita a alguns países na América do Sul e Central) e mesmo no
Oriente, em parte dele, a informação é fabricada, não só pela mídia, mas
por todo um conjunto de canais que elaboram formas de reconstrução do
ser-Outro Oriente. Disso já nos falava muito bem Edward Said.
O
que é novo nessa construção a partir de 1979 é que o Irã é elevado à
categoria de inimigo número 1 do mundo. O Irã passa a representar o
atraso determinante para o mundo. Essa posição liderada pelo Irã
ameaçaria a paz mundial, porque tem a ideia beligerante dos persas. Ora,
os EUA e seus aliados provocaram as maiores guerras do final do século
XX, invadiram o Iraque, apoiando-o antes quando era de seu interesse em
uma guerra contra o Irã, o que fortaleceu o poder religioso local.
Antes
disso, já havia reforçado esse mesmo poder quando do golpe promovido
por eles junto aos ingleses em 1953, ocasião em que o primeiro ministro
Mohamed Mossadegh estatizou a empresa de petróleo que estava nas mãos de
britânicos, passando às aos iranianos. Isso se deu em 1951 e já em 1953
acontecia o golpe.
Foi uma interferência criminosa em assuntos
nacionais por parte dos EUA e Reino Unido, países que hoje lideram
sérias sanções econômicas que afixiam as forças produtivas do país. Como
então agora se surpreender e atribuir ao próprio Irã a “invenção” de um
governo teocrático? Não estamos dizendo que esse golpe tenha
diretamente gerado o governo que aí está, mas certamente o inconformismo
da população com a situação de sua extrema pobreza na era Pahlevi
encontrou na religião suporte para reivindicar mudanças.
FALA-SE
ABERTAMENTE EM POLÍTICA NAS RUAS DE TEERÃ HOJE? OS TEMAS DA ATUALIDADE
REGIONAL, COMO AS REVOLUÇÕES DA PRIMAVERA ÁRABE, OS EXERCÍCIOS MILITARES
DE ISRAEL NO GOLFO PÉRSICO, OS ATENTADOS CONTRA OS CIENTISTAS
IRANIANOS, SÃO COMENTADOS NOS MEIOS INTELECTUAIS?
Fala-se
sobre política, e muito. É um dos tópicos recorrentes nas conversas e
os iranianos não têm receio de criticar o governo. Todos esses tópicos
da atualidade regional são, sim, debatidos. Mas cabe lembrar que o
acesso à informação é limitado.
Há
muitos sites censurados e as mídias impressa e televisiva são
controladas pelo Estado. Por outro lado, é muito fácil driblar a
censura. Os programas anti-filtros são populares e basta olhar os
telhados de Teerã para ver uma grande quantidade de antenas parabólicas,
que captam sinais de emissoras do mundo todo. Nos meios intelectuais,
em geral, o acesso à informação é maior, além de ser um grupo que viaja
para países estrangeiros e mantém redes de contato.
Existe
no Irã uma vontade das pessoas de mostrarem-se diferentes do modo como o
governo se posiciona. Muitos deles dizem que, no Irã, há uma vida
pública, cuja expectativa do governo é, em certa medida, satisfeita, e
outra privada, muito diferente.
Ainda
dizem: o governo é uma coisa, o povo, outra. Isso na intenção de
demarcar diferenças entre as declarações do presidente e o que o povo
pensa e como eles vivem, em referência à vida privada que levam no Irã.
PELO SEU
DISCURSO, AHMADINEJAD POSICIONA-SE, IDEOLOGICAMENTE, PRÓXIMO ÀS
CORRENTES DA ESQUERDA BOLIVARIANA DA AMÉRICA LATINA. EM RECENTE PASSAGEM
PELO EQUADOR, FEZ DURAS CRÍTICAS AO IMPERIALISMO NORTE-AMERICANO E AO
NEOLIBERALISMO. EXISTE A PERCEPÇÃO DE UM GOVERNO AHMADINEJAD
PROGRESSISTA EM RELAÇÃO ÀS SUAS POLÍTICAS SOCIAIS E ECONÔMICAS?
Essa
aproximação não é ideológica, mas estratégica. O discurso é ideológico,
pois seriam nações anti-imperialistas, anti-Estados Unidos,
principalmente. Mas o contexto e a história são muito distintos. O
governo de Ahmadinejad é progressista em relação às políticas sociais.
Aliás, desde a Revolução há uma melhora significativa nos indicadores
sociais. A expectativa de vida ao nascer, por exemplo, era inferior a 60
anos em toda a década de 1970 e hoje é de 74 anos.
A
situação econômica é prejudicada pelo bloqueio econômico, que é uma
questão muito séria, mas mesmo assim a situação não é ruim se comparado
aos nossos índices aqui no Brasil. Na esfera cultural, o problema no Irã
são as restrições às liberdades individuais, as estratégias que a
população tem de ter para conseguir, por exemplo, usar a Internet
livremente. Mas, fora isso, há uma efervescência cultural impressionante
e as praças estão sempre cheias de pessoas, famílias, jovens, crianças.
Isso é espetacular como as ruas são tomadas pelas pessoas.
OUTRO
ESTEREÓTIPO EM VOGA NA MÍDIA OCIDENTAL É EM RELAÇÃO À POSIÇÃO DA MULHER
NA SOCIEDADE IRANIANA ATUAL. LENDO O SEU TRABALHO, PERCEBEMOS QUE A
REALIDADE IRANIANA MAIS UMA VEZ CONTRARIA ESTA CONCEPÇÃO DE DOMINÂNCIA
MASCULINA ABSOLUTA NO PAÍS. PODE-SE CONSIDERAR QUE AS MINORIAS SEXUAIS
NO IRÃ CONSEGUIRAM TAMBÉM CONQUISTAS APÓS A REVOLUÇÃO?
Se
você considerar as mulheres como minoria sexual, sim. Mas cabe lembrar
que antes da Revolução elas já eram tratadas de maneira diferente no
Irã, em comparação, por exemplo, com muitos países árabes. No ano
passado, uma mulher foi presa na Arábia Saudita por dirigir. No Irã,
elas não só dirigem, como podem abrir seu próprio negócio, trabalhar,
pedir divórcio.
Cerca
de 65% dos estudantes universitários são mulheres. Até mesmo na
controversa questão do uso do véu em público o Irã se diferencia. A
obrigação é cobrir a cabeça, mas não se obriga o uso do chador (manto
preto que cobre todo o corpo) ou da burca.
Há
casos em que a polícia se incomoda com mulheres que deixam muito cabelo
à mostra, mas comparado com países árabes, o Irã é, sem dúvida, mais
liberal. Agora, se em minorias sexuais você incluir os homossexuais, a
situação é diferente, pois há mais medo de se expor.
Mesmo
assim, são conhecidos os lugares de “pegação”, inclusive com informação
constando em guia internacional, e as festas particulares.
Fábrica de produção de aço em Isfahan: sanções não diminuíram produtividade em diversos setores da economia persa
Irán produziu 600 mil veiculos de passeio em apenas 4 meses de 2012
O desenvolvimento da industria eletroeletronica do Irã é o maior da região
Grupo de flamenco iraniano "Andaluzia" se apresenta em Teerã e derruba alguns mitos sobre a condição da mulher no país
Pepe Mujica, foi um dos principais dirigentes do movimento guerrilheiro tupamaro, que lhe custou anos de prisão e terríveis torturas durante a ditadura militar (1973-1985), é um dos políticos mais queridos do Uruguai,um homem de estilo simples e frontal. Foi um dos fundadores do Movimento de Libertação Nacional (MLN), os tupamaros, que surgiu como uma organização de esquerda ainda no período civil, em contraponto ao bipartidarismo blanco-colorado que dominava o país. Depois de 1973, com a implantação de uma ditadura militar, passou à luta armada. O nome tupamaro vem de Tupac Amaru, um líder inca que lutou contra a dominação espanhola.
Agricultor, carismático, “Pepe” Mujica é famoso por sua fala simples, direta, “campechana” , como dizem lá. Andava sempre com uma velha lambreta pelas ruas de Montevidéu, é considerado o político mais popular no Uruguai, especialmente entre os jovens e os uruguaios que migraram do país. Foi eleito deputado nas eleições de 1994 e senador em 1999. Nas eleições de 2004 foi o legislador com maior quantidade de votos, cargo a que renunciou ao ser designado ministro de Pecuária, Agricultura e Pesca em março de 2005, onde ficou até de março do 2008.
Junto com outros dirigentes do Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros, passou mais de doze anos preso em quartéis uruguaios, durante a ditadura militar. Durante dois destes doze anos ficou praticamente enterrado vivo, no fundo de um poço. Ele e seus companheiros que foram submetidos a essa tragédia ficaram conhecidos como os “reféns”. Mujica sobreviveu a essa provação e hoje é um dos líderes políticos mais importantes do Uruguai. Mais do que isso, é uma voz a ser ouvida, um exemplo de vida digna e corajosa.
"Queremos Uruguai cheio de engenheiros, filósofos e artistas"
O presidente eleito do Uruguai, José "Pepe" Mujica, reuniu-se com um grupo de intelectuais em dezembro de 2009 e fez alguns pedidos a eles: que contagiem todo o povo uruguaio com o olhar curioso sobre o mundo, que está no DNA do trabalho intelectual, e com o inconformismo. Mujica propõe também uma revolução na educação. "Escolas de tempo completo, faculdades no interior, ensino superior massificado. E, provavelmente, inglês desde o pré-escolar no ensino público. Porque o inglês não é idioma falado pelos ianques; é o idioma com o qual os chineses conversam com o mundo. Não podemos ficar de fora".
Pepe Mujica
Discurso proferido em dezembro de 2009 pelo presidente eleito da República do Uruguai, José Alberto Mujica Cordano (El Pepe), dirigente histórico e fundador do Movimento de Libertação Tupamaros:
"A vida tem sido extraordinariamente generosa comigo. Ela me deu inúmeras satisfações, mais além do que jamais me atrevera a sonhar.
Quase todas são imerecidas. Mas nenhuma é mais que a de hoje: encontrar-me aqui agora, no coração da democracia uruguaia, rodeado de centenas de cabeças pensantes.
Cabeças pensantes! À direita e à esquerda. Cabeças pensantes a torto e a direito, cabeças pensantes para atirar para cima.
Vocês se lembram do Tio Patinhas, o tio milionário do Pato Donald que nadava em uma piscina cheia de moedas? Ele tinha uma sensualidade física pelo dinheiro.
Gosto de me ver como alguém que gosta de tomar banho em piscinas cheias de inteligência alheia, de cultura alheia, de sabedoria alheia.
Quanto mais alheia, melhor. Quanto menos coincide com meus pequenos saberes, melhor.
O semanário Búsqueda tem uma frase charmosa que usa como insígnia:
“O que digo, não o digo como homem sabedor, mas sim buscando junto com vocês”.
Por uma vez estamos de acordo. Sim, estaremos de acordo.
O que digo, não o digo como chacareiro sabichão, nem como trovador ilustrado. Digo-o buscando com vocês.
O digo, buscando, porque só os ignorantes acreditam que a verdade é definitiva e maciça, quando ela é apenas provisória e gelatinosa. É preciso buscá-la porque ela anda correndo brincando de esconde-esconde. E pobre daquele que empreenda essa caça sozinho. É preciso fazê-la com vocês, com aqueles que fizeram do trabalho intelectual a razão de sua vida. Com os que estão aqui e com os muito mais que não estão.
De todas as disciplinas
Se olharem para trás, seguramente encontrarão algumas caras conhecidas porque se trata de gente que trabalha em espaços de trabalho afins. Mas vão encontrar muito mais rostos desconhecidos porque a regra desta convocação foi a heterogeneidade.
Aqui estão os que se dedicam a trabalhar com átomos e moléculas e os que se dedicam a estudar as regras da produção e da troca na sociedade. Há gente das ciências básicas e de sua quase antípoda, as ciências sociais: gente da biologia e do teatro, da música, da educação, do direito e do carnaval. Há gente da economia, da macroeconomia, da microeconomia, da economia comparada e até alguns da economia doméstica. Todas cabeças pensantes, mas que pensam distintas coisas e podem contribuir desde suas distintas disciplinas para melhorar este país.
E melhorar este país significa muitas coisas, mas entre as prioridades que queremos para esta jornada, melhorar o país significa impulsionar os processos complexos que multipliquem por mil o poderio intelectual que aqui está reunido. Melhorar o país significa que, dentro de vinte anos, o Estádio Centenário não seja suficiente para abrigar um ato como este, pois o Uruguai estará cheio, até as orelhas, de engenheiros, filósofos e artistas.
Não é queiramos um país que bata os recordes mundiais pelo puro prazer de fazê-lo. É porque está demonstrado que, uma vez que a inteligência adquira um certo grau de concentração em uma sociedade, ela se torna contagiosa.
Inteligência distribuída
Se, um dia, lotarmos estádios de gente formada será porque, na sociedade, haverá centenas de milhares de uruguaios que cultivaram sua capacidade de pensar. A inteligência que traz riqueza para um país é a inteligência distribuída. É a que não está só guardada nos laboratórios ou na universidade, mas sim anda pela rua. A inteligência que se usa para plantar, para tornear, para manejar uma máquina, para programar um computador, para cozinhar, para atender bem um turista é a mesma inteligência. Alguns subiram mais degraus do que outros, mas se trata da mesma escada.
E os degraus de baixo são os mesmos para a física nuclear e para o manejo de um campo. Para tudo é preciso o mesmo olhar curioso, faminto de conhecimento e muito inconformista. Acabamos sabendo porque antes ficamos incomodados por não saber. Aprendemos porque temos comichão e isso se adquire por contágio cultural desde quando abrimos os olhos ao mundo.
Sonho com um país onde os pais mostrem a pastagem a seus filhos pequenos e digam: “Sabem o que é isso? É uma planta processadora da energia do sol e dos minerais da terra”. Ou que lhes mostrem o céu estrelado e façam com que pensem nos corpos celestes, na velocidade da luz e na transmissão das ondas. E não se preocupem que esses pequenos uruguaios vão seguir jogando futebol. Só que, lá pelas tantas, enquanto vêem a bola picar, podem pensar ao mesmo tempo na elasticidade dos materiais que a fazem rebotar.
Capacidade de interrogar-se
Havia um ditado: “Não dê peixe a uma criança, ensina-a a pescar”.
Hoje deveríamos dizer: “Não dê um dado a uma criança, ensina-a a pensar”.
Do jeito que vamos, os depósitos de conhecimento não vão estar mais situados dentro de nossas cabeças, mas sim fora, disponíveis para buscá-los na internet. Aí vai estar toda a informação, todos os dados, tudo o que se sabe. Em outras palavras, aí vão estar todas respostas. Mas não vão estar todas as perguntas. O diferencial vai estar na capacidade de se interrogar, na capacidade de formular perguntas fecundas, que provoquem novos esforços de investigação e aprendizagem.
E isso está bem no fundo, marcado quase no nosso de nossa cabeça, tão fundo que quase não temos consciência.
Simplesmente aprendemos a olhar o mundo com um sinal de interrogação e essa se torna nossa maneira natural de olhar para o mundo. Adquirimos essa capacidade muito cedo e ela nos acompanha por toda a vida. E, sobretudo, queridos amigos, ela contagia.
Em todos os tempos foram vocês, os que se dedicam à atividade intelectual, os encarregados de espalhar a semente. Ou para dizê-lo em palavras que nos são muito caras: vocês têm sido os encarregados de acender a necessária inquietação.
Por favor, vão e contagiem. Não perdoem a ninguém.
Necessitamos de um tipo de cultura que se propague no ar, entre os lugares, que se cole nas cozinhas e até nos banheiros. Quando conseguirmos isso, teremos ganho a partida quase para sempre. Porque se quebra a ignorância essencial que enfraquece muita gente, uma geração após a outra.
O conhecimento é prazer
Precisamos, antes de mais nada, massificar a inteligência, para nos tornarmos produtores mais potentes. Isso é quase uma questão de sobrevivência. Mas nesta vida não se trata só de produzir: também é preciso desfrutar. Vocês sabem melhor do que ninguém que, no conhecimento e na cultura, não há só esforço, mas também prazer.
Dizem que as pessoas que correm pelas ruas chegam num ponto em que entram numa espécie de êxtase onde já não existe o cansaço e só fica o prazer. Creio que ocorre o mesmo com o conhecimento e a cultura. Chega um ponto onde estudar, investigar e aprender já não é um esforço, mas um puro deleite.
Que bom seria que esses manjares estivessem a disposição de muita gente! Que bom seria se, na cesta de qualidade de vida que o Uruguai pode oferecer a sua gente, houvesse uma boa quantidade de consumos intelectuais. Não porque seja elegante, mas sim porque é prazeroso. Porque se desfruta com a mesma intensidade com a qual se pode desfrutar de um prato de talharim.
Não há uma lista obrigatória das coisas que nos tornam felizes! Alguns podem pensar que o mundo ideal é um lugar repleto de shopping centers. Nesse mundo, as pessoas são felizes porque todos podem sair cheios de sacolas com roupas novas e caixas de eletrodomésticos. Não tenho nada contra essa visão, só digo que ela não é a única possível.
Digo que também podemos pensar em um país onde a gente escolhe arrumar as coisas ao invés de jogá-las fora, onde se prefere um carro pequeno a um grande, onde decidimos nos agasalhar melhor ao invés de aumentar a calefação.
Esbanjar não é o que fazem as sociedades mais maduras. Vejam a Holanda e as cidades repletas de bicicletas. Aí as pessoas se deram conta de que o consumismo não é a escolha da verdadeira aristocracia da humanidade. É a escolha dos farsantes e dos frívolos.
Os holandeses andam de bicicleta, eles as usam para ir trabalhar, mas também para ir a concertos ou aos parques. Chegaram a um nível em que sua felicidade cotidiana se alimenta de consumos materiais como intelectuais.
De modo que, amigos, vão e contagiem todos com o prazer pelo conhecimento. Paralelamente, minha modesta contribuição será fazer com que os uruguaios andem de pedalada em pedalada.
Inconformismo
Eu lhes pedi antes que contagiem os outros com o olhar curioso sobre o mundo, que está no DNA do trabalho intelectual. E agora aumento o pedido e lhes rogo que contagiem também com o inconformismo. Estou convencido que este país necessita uma nova epidemia de inconformismo, como a que os intelectuais geraram décadas atrás.
No Uruguai, nós que estamos no espaço político da esquerda somos filhos ou sobrinhos daquele semanário Marcha, do grande Carlos Quijano. Aquela geração de intelectuais impôs-se a si mesma a tarefa de ser a consciência crítica da nação. Andavam com alfinetes na mão, estourando balões e desinflando mitos.
Sobretudo o mito do Uruguai multicampeão. Campeão da cultura, da educação, do desenvolvimento social e da democracia. Acabamos não sendo campeões de nada. Menos ainda nestes anos, nas décadas de 50 e 60, onde o único recorde que obtivemos foi ser o país da América Latina que menos cresceu em 20 anos. Só o Haiti nos superou neste ranking.
Esses intelectuais ajudaram a demolir aquele Uruguai da siesta conformista.
Com todos seus defeitos, preferimos esta etapa, onde estamos mais humildes e situados na real estatura que temos no mundo. Mas precisamos recuperar aquele inconformismo e colocá-lo embaixo da pele do Uruguai inteiro.
Antes eu dizia a vocês que a inteligência que serve a um país é a inteligência distribuída. Agora, digo que o inconformismo que serve a um país é o inconformismo distribuído. Aquele que invade a vida de todos os dias e nos empurra a perguntar-nos se o que estamos fazendo não pode ser feito melhor. O inconformismo está na própria natureza do trabalho de vocês. Precisamos que ele se torne uma segunda natureza de todos nós.
Uma cultura do inconformismo é aquela que não nos deixa parar até que consigamos mais quilos por hectare de trigo ou mais litros por vaca leiteira. Tudo, absolutamente tudo, pode ser feito de um modo um pouco melhor do que foi feito ontem. Desde arrumar a cama de um hotel até produzir um circuito integrado.
Necessitamos de uma epidemia de inconformismo. E isso também é cultural, também se irradia desde o centro intelectual da sociedade para sua periferia. É o inconformismo que fez com que pequenas sociedades ganhassem respeito sobre o que fazem. Aí estão os suíços, meia dúzia de gatos pintados como nós, que se dão o luxo de andar por aí vendendo qualidade suíça ou precisão suíça. Eu diria que o que vendem de verdade é inteligência e inconformismo suíços, que estão esparramados por toda a sociedade.
A educação é o caminho
Amigos, a ponte entre este hoje e este amanhã que queremos tem um nome e se chama educação. É uma ponte longa e difícil de cruzar. Porque uma coisa é a retórica da educação e outra coisa é nos decidirmos a fazer os sacrifícios necessários para lançar um grande esforço educativo e sustentá-lo no tempo. Os investimentos em educação são de rendimento lento, não iluminam nenhum governo, mobilizam resistências e obrigam o adiamento de outras demandas.
Mas é preciso seguir esse caminho. Devemos isso a nossos filhos e netos. E é preciso fazê-lo agora, quando ainda está fresco o milagre tecnológico da internet e se abrem oportunidades nunca antes vistas de acesso ao conhecimento.
Eu me criei com o rádio, vi nascer a televisão, depois a televisão a cores, depois as transmissões por satélite. Mais tarde, passaram a aparecer quarenta canais em minha TV, incluindo aí os que transmitiam direto dos Estados Unidos, Espanha e Itália. Depois vieram os celulares e os computadores que, no início, serviam apenas para processar números. Em cada um destes momentos, fiquei com a boca aberta. Mas agora com a internet se esgotou a minha capacidade de surpresa. Sinto-me como aqueles humanos que viram uma roda pela primeira vez. Ou que viram o fogo pela primeira vez.
Sentimos que nos tocou a sorte de viver um marco na história. Estão sendo abertas as portas de todas as bibliotecas e de todos os museus. Todas as revistas científicas e todos os livros do mundo vão estar a nossa disposição. E, provavelmente, todos os filmes e todas as músicas do mundo. É perturbador.
Por isso precisamos que todos os uruguaios e, sobretudo, todos os pequenos uruguaios saibam nadar nessa corrente. Precisamos subir essa corrente e navegar nela como um peixe na água. Conseguiremos isso se a matriz intelectual da qual falávamos antes estiver sólida. Se soubermos raciocinar em ordem e fazermos as perguntas que valem a pena.
É como uma corrida em duas vias: lá em cima no mundo o oceano de informação; aqui embaixo, nós, preparando-nos para a navegação transatlântica.
Escolas de tempo completo, faculdades no interior, ensino superior massificado. E, provavelmente, inglês desde o pré-escolar no ensino público. Porque o inglês não é idioma falado pelos ianques; é o idioma com o qual os chineses conversam com o mundo. Não podemos ficar de fora. Não podemos deixar nossas crianças de fora.
Essas são as ferramentas que nos habilitam a interagir com a explosão universal do conhecimento. Este mundo não simplifica a nossa vida: complica-a. Nos obriga a ir mais longe, a ir mais fundo na educação. Não há tarefa maior diante de nós.
O idealismo ao serviço do Estado
Queridos amigos, estamos em tempos eleitorais. Em benditos e malditos tempos eleitorais. Malditos, porque nos põe a brigar e a disputar corridas entre nós. Benditos, porque nos permitem a convivência civilizada. E mais uma vez benditos porque, com todas as suas imperfeições, nos fazem donos do nosso próprio destino. Aqui todos aprendemos que é preferível a pior democracia à melhor ditadura.
Nos tempos eleitorais, todos nos organizamos em grupos, frações e partidos, nos cercamos de técnicos e profissionais e desfilamos frente ao soberano. Há adrenalina e entusiasmo. Mas depois, alguém ganha e alguém perde. E isso não deveria ser um drama.
Com estes ou com aqueles, a democracia uruguaia seguirá seu caminho e irá encontrando as fórmulas rumo ao bem-estar. Seja qual for o lugar que nos toque, ali estaremos colocando a tarefa sobre os ombros. E estou seguro de que vocês também. A sociedade, o Estado e o Governo precisam de seus muitos talentos. E precisam mais ainda de sua atitude idealista. Nós que estamos aqui, entramos na política para servir, não para nos servir do Estado. A boa fé é a nossa única intransigência. Quase todo o resto é negociável. Muito obrigado por acompanharem-me."
Como prometido antes da eleição, o presidente do Uruguai José Pepe Mujica ainda mora em sua pequena fazenda em Rincon del Cerro, nos arredores de Montevidéu. A moradia não poderia deixar de ser modesta, já que o dirigente acaba de ser apontado como o presidente mais pobre do mundo.
Pepe recebe 12.500 dólares mensais por seu trabalho à frente do país, mas doa 90% de seu salário, ou seja, vive com 1.250 dólares ou 2.538 reais ou ainda 25.824 pesos uruguaios. O restante do dinheiro é distribuído entre pequenas empresas e ONGs que trabalham com habitação.
"Este dinheiro me basta, e tem que bastar porque há outros uruguaios que vivem com menos", diz o presidente. Aos 77 anos, Mujica vive de forma simples, usando as mesmas roupas e desfrutando a companhia dos mesmos amigos de antes de chegar ao poder.
Além de sua casa, seu único patrimônio é um velho Volkswagen cor celeste avaliado em pouco mais de mil dólares. Como transporte oficial, usa apenas um Chevrolet Corsa. Sua esposa, a senadora Lucía Topolansky também doa a maior parte de seus rendimentos. Sem contas bancárias ou dívidas, Mujica disse ao jornal El Mundo, da Espanha, que espera concluir seu mandato para descansar sossegado em Rincon del Cerro.
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Mujica oferece residência oficial para abrigar moradores de rua
O presidente do Uruguai, José Mujica, ofereceu nesta
quinta-feira (31 de maio) sua residência oficial para abrigar moradores de rua
durante o próximo inverno caso faltem vagas em abrigos oficiais do
governo.
Ele pediu que fosse feito um
relatório listando os edifícios públicos disponíveis para serem
utilizados pelos desabrigados e, após os resultados, avaliará se há a
necessidade da concessão da sede da Presidência. De acordo com a revista
semanal Búsqueda, Mujica disponibilizou ainda o palácio de Suarez y Reyes, prédio inabitado onde ocorrem apenas reuniões de governo.
No último dia 24 de maio, uma moradora de rua e seu filho foram
instalados na residência presidencial por sugestão de Mujica ao
Ministério de Desenvolvimento Social. Logo após o convite, contudo,
encontraram outro local para se alojar.
O presidente não mora em sua residência oficial, pois escolheu viver em
seu sítio, localizado em uma área de classe média nas redondezas de
Montevidéu. Nem mesmo seu antecessor, o ex-presidente Tabaré Vázquez
(2005-2010), ocupou o palácio durante seu mandato. Ambos representam os
dois primeiros governos marcadamente progressistas da história do
Uruguai.
No inverno do ano passado, pelo menos cinco moradores de rua morreram
por hipotermia. O fato causou uma crise no governo e acarretou na
destituição da ministra de Desenvolvimento Social, Ana Vignoli.
Moradias populares
Em julho de 2011, Mujica assinou a venda da residência presidencial de
veraneio, localizada em Punta del Este, principal balneário turístico do
país, para o banco estatal República. A operação rendeu ao governo 2,7
milhões dólares e abrirá espaço para escritórios e um espaço cultural.
A venda dessa residência estava nos planos de Mujica desde que assumiu a
Presidência em março de 2010. Com os fundos amealhados, será
incrementado o orçamento do Plano Juntos de Moradias. Também é planejado
o financiamento de uma escola agrária na região, onde jovens de baixa
renda poderão ter acesso a cursos técnicos.
Fonte: Opera Mundi, El Guia Latino, Vermelho
Imagem: Google, Vermelho
Com grande satisfação, apresentamos um primeiro resultado do que virá por aí no nosso novo disco. Trata-se de um registro de gravação da música "O encontro de Lampião com Eike Batista", mesclado também com algumas cenas de ensaios. A música ainda não está totalmente finalizada, mas pensamos que já funciona como uma boa prévia e por isso gostaríamos de compartilhá-la com os interessados. Disponibilizamos, junto com o vídeo, a letra no formato de legenda. Para habilitá-la, basta acionar o botão "cc" no canto inferior direito.
Combalida política e economicamente, por uma crise que se aprofunda a cada dia, também do ponto de vista social - e pela erosão de sua credibilidade internacional - a Espanha e sua diplomacia parecem não ter aprendido nada com as dolorosas lições dos últimos anos.
De passagem por Brasília, aonde vem oferecer, segundo a imprensa ibérica, onze anos depois de sua última visita ao nosso país, uma “aliança política e econômica sem precedentes”, o Rei Juan Carlos tem como destino final na América do Sul, o observatório chileno de Cerro Paranal, a fim de agregar-se, como “observador”, no dia 6 de junho, à cúpula presidencial da Aliança do Pacífico.
Essa, para quem não conhece, é uma organização patrocinada pelo México e pela Espanha, que nasce com o claro objetivo de se contrapor à ampliação da presença brasileira na América do Sul, e que reúne, além do México, o Chile, o Peru e a Colômbia.
Com a Aliança do Pacífico, a Espanha, que não pode participar de reuniões do Mercosul, da Unasul e da Celac, nem mesmo como observadora, contaria – depois do rotundo fracasso de suas cúpulas “ibero-americanas”- com novo instrumento para imiscuir-se nos assuntos do nosso continente.
O outro aliado com que contam os espanhóis nesse processo de tentar promover a divisão sul-americana, é o Paraguai, país tradicionalmente pendular em suas relações externas, que joga para beneficiar-se da ajuda ora do Brasil, ora da Argentina, ora da Espanha, dependendo do momento e das circunstâncias.
Não foi por outro motivo que o Paraguai aceitou promover a fracassada cúpula “ibero-americana” de Assunção, em novembro do ano passado, que terminou com a ausência dos países mais importantes da região, mas contou com a presença justamente do México e do Chile, co-patrocinadores da “Aliança do Pacífico”.
É também importante registrar, nesse contexto, a posição do parlamento paraguaio que impede, há anos, a expansão do Mercosul, ao não ratificar a entrada da República da Venezuela no Tratado, já aprovada pelos outros membros do bloco.
A diplomacia brasileira, com a chegada do Rei Juan Carlos a Brasília nesta segunda-feira – data em que ocorrerá, em Madri, reunião “técnica” para discutir a questão da expulsão de brasileiros dos aeroportos espanhóis nos últimos anos - tem excelente oportunidade para deixar claro que não concorda com a interferência externa no espaço sul-americano.
Com relação ao Paraguai, qualquer concessão do grupo, no futuro, poderia ser negociada – em todas as instâncias, incluída a parlamentar - de forma a obter rápida aprovação à entrada da República da Venezuela no Tratado do Mercosul. Enquanto isso, nada impede que o Uruguai, a Argentina e o Brasil possam negociar acordos bilaterais de livre comércio com Caracas.
É difícil, tendo em vista a formação histórica de nossos países, que a tentativa de divisionismo entre o Brasil e os países ocidentais do continente tenha êxito. O México sempre foi uma realidade à parte, menos durante o governo nacionalista de Cárdenas, quando seus atos o incluíam na mesma ordem de pensamento de Getúlio Vargas. Como se recorda, Cárdenas nacionalizou o petróleo em 1938, sem que os Estados Unidos, já em preparação para a guerra, tomasse qualquer medida de retaliação. Nos últimos trinta anos, no entanto, os governos do México têm sido fiéis vassalos dos Estados Unidos e é, sem dúvida, a serviço de Washington, que sua diplomacia atua ao lado do Chile e de Madri.
Há razões ainda mais antigas que tornam difícil essa aliança da Costa do Pacífico. O povo peruano não se esquece, até hoje, da ocupação de Lima pelas forças chilenas, em janeiro de 1881, na Guerra do Pacífico, que lhe custou a amputação de parte de seu território (a Província de Tacna) por 50 anos, só recuperada depois de imensos sacrifícios e desgastantes negociações diplomáticas.
A Bolívia sofreu ainda mais com os chilenos: todo o litoral do Pacífico que lhe pertencia (a rica e extensa província de Antofagasta) foi anexado, e La Paz perdeu seu acesso ao oceano. Esse conflito – provocado pelos interesses ingleses e norte-americanos – não foi completamente superado, e é uma lição de como os estranhos, com suas intrigas, causam as tragédias ao fomentar as guerras entre vizinhos.
Essa mesma interferência estrangeira – no caso, das empresas petrolíferas americanas e inglesas – provocou a carnificina da Guerra do Chaco, entre a Bolívia e o Paraguai, nos anos 30 do século passado.
O México rompeu relações com a Espanha e dela esteve distanciado até o fim do franquismo. Hoje, apesar da submissão de sua política externa aos Estados Unidos, grande parte da opinião pública mexicana rejeita aproximação maior com Madri.
Não há qualquer razão para que a Espanha de Juan Carlos, que vem sacrificando seu grande povo, em favor dos exploradores de sempre (hoje reunidos na globalização do neoliberalismo), venha a se meter no encontro de Cerro Paranal.
Isso só se explica pela desesperada busca de apoio internacional, no momento em que sua economia e suas instituições (sobretudo a monarquia) entram em acelerado declínio de credibilidade interna.
Com suas grandes empresas e bancos endividados (só a Telefónica, que atua no Brasil com a marca Vivo, deve mais de US$ 100 bilhões), reduz-se o prestígio internacional do governo e da monarquia espanhola. O Rei – é o que se diz na imprensa espanhola – vem nos propor “relações políticas e econômicas sem precedentes”. Em lugar de relações novas e excepcionais, os brasileiros querem, no mínimo, ser tratados com respeito em território espanhol, quando viajarem à Europa.
A cortesia diplomática recomenda que recebamos bem o Rei – em nome do respeito ao povo espanhol – mas os nossos interesses no mundo recomendam que não nos comprometamos com um governo que está arrochando seu povo com medidas econômicas draconianas, enquanto os ricos continuam saqueando os trabalhadores e retirando seus capitais do país.
A queda da popularidade de Piñera no Chile, a aproximação crescente do Brasil com a Colômbia, e a iminência de um governo de esquerda no México, retiram da monarquia espanhola espaço para suas manobras diplomáticas em nossa região.
Será melhor que o Brasil, como agiu quando da reunião anterior, no Paraguai, se ausente do próximo encontro de Chefes de Estado dos paises “ibero-americanos”, previsto para realizar-se na cidade de Cadiz, na Espanha, em novembro deste ano. Para discutir o futuro dos nossos países contamos com a Unasul e o Conselho de Defesa Sul-americano, e, no contexto do espaço ampliado da América Latina, com a Celac. Nós, e nossos vizinhos, não temos nada a fazer do outro lado do Atlântico, assim como a elite neocolonial de nossas antigas metrópoles não têm nada a fazer, institucionalmente, do lado de cá do oceano.
Nas terças-feiras, quando Obama está em Washington, seu programa é escolher, com seus assessores, quem irá mandar matar.
Depois do New York Times, em 29 de maio, ter publicado reportagem sobre os poderes de vida ou morte do Presidente Obama, 1.879 americanos enviaram à Casa Branca um curioso apelo.
“O New York Times”, diziam, “ contou que o Presidente Obama criou, oficialmente, uma “lista da morte” em que ele se baseia para ordenar o assassinato de cidadãos americanos. “
E concluíam : “…nós abaixo assinados pedimos que seja feita também uma lista de “Não matar” na qual cidadãos americanos seriam inscritos para evitar serem colocados na “ lista da morte” e, assim, não poderem ser executados sem indiciamento, juiz, júri, julgamento ou devido processo legal.”
Já era sabido que Obama assumia esses poderes fatais sobre cidadãos americanos ou não.
A reportagem do New York Times, porém, revelou com detalhes como a coisa se processava, o que chocou a opinião pública liberal da América.
Diz o Times que nas reuniões de terça-feira, o Presidente Obama, a CIA e assessores revisam a “lista da morte”. E o pessoal do presidente indica os indivíduos perigosos que foram localizados e, portanto, estão ao alcance do braço longo e forte de Tio Sam.
Obama, então, decide quais serão as vítimas e ordena que seus agentes as executem, sejam ou não americanos, em qualquer parte do mundo.
Tudo bem no estilo das antigas republiquetas latino-americanas. Digo “antigas” por que, atualmente, em nenhuma delas ainda se fazem coisas assim.
Execuções de suspeitos, nas quais o Presidente funciona como juiz e executor, sem dar chance de defesa ao acusado, parecem estranhos ao Direito de uma nação modelo de democracia.
E são mesmo.
Como sustenta o jurista Andrew Napolitano, “o presidente não pode legalmente ordenar a morte de ninguém, exceto de acordo com a Constituição e a Lei Federal.”
E ele explica que, para a Constituição, o presidente só pode mandar matar através de militares, quando os EUA forem atacados ou “quando um ataque for tão iminente e certo que atrasar (a execução) custaria vidas de americanos.
Evidentemente, numa declaração de guerra, o direito de matar inimigos está implícito.
Andrew Napolitano, que é altamente conceituado nos EUA, informa ainda que, sob a lei federal, o Presidente só pode ordenar execuções por civis quando o réu for condenado por uma corte federal, um júri legalmente formado e não existirem mais possibilidades de apelação da sentença.
Para proceder a execuções através de militares, o Presidente, segundo a lei federal, terá de requerer ao Congresso, que tem um prazo de 180 dias para decidir.
As “listas da morte” de Obama são totalmente ilegais pois desrespeitam tanto a Constituição quanto a Lei Federal, conclui Napolitano.
Depois do atentado de 11 de setembro, a sociedade americana foi tomada por um medo histérico de novos ataques.
Nesse clima, os governos adotaram sistemas nacionais de segurança totalitários, pois passam ao largo da Constituição, das Convenções de Genebra, das leis de guerra e das leis federais.
As liberdades individuais, base da Constituição dos EUA, são sacrificadas em nome da necessidade de proteger o país e os cidadãos de atentados terroristas.
A segurança nacional justificaria as mais diversas infrações à lei pelo Estado e seus agentes. Crimes como a tortura e o seqüestro de suspeitos se disseminaram largamente, com a cobertura das mais altas autoridades civis e militares.
Quando senador, Barack Obama distinguiu-se pela sua luta pelos direitos humanos e o respeito à Constituição. Ele combateu as torturas, a guerra do Iraque e exigiu o fechamento da base de Guantanamo.
Esperava-se que na presidência cumprisse suas promessas de mudanças, de retorno aos princípios democráticos, avalizadas que foram por sua atuação parlamentar.
Na verdade, isso não aconteceu.
Ao invés de mudar o sistema, o sistema é que mudou Obama.
Manteve a política do governo Bush de colocar a segurança acima da lei.
É verdade que aboliu as torturas de suspeitos e as “extraordinary renditions”, na qual suspeitos de terrorismo eram raptados pela CIA no estrangeiro e transportados clandestinamente para países onde poderiam ser interrogados com torturas sem maiores complicações.
Mubarak e Kadafi foram dos mais prestimosos colaboradores, pondo suas instalações secretas e profissionais “especializados” à disposição da CIA.
Obama também declarou que em 1 ano fecharia Guantanamo.
Mas cedeu à pressão do Congresso e do Pentágono e deu o dito por não dito.
Talvez sob as mesmas pressões, ele aumentou o ataque dos drones – aviões sem piloto – contra talibãs escondidos no Paquistão, de 1 a cada 4 meses, em 2004 (tempos de Bush) para 1 a cada 4 dias.
Apesar do chefe de contra terrorismo de Obama, John Brennan ter rotulado como “insignificantes “ as mortes de civis inocentes por drones, a Comissão de Direitos Humanos do Paquistão estimou que, até 2011, esse número chegou a 957, entre os quais dezenas de crianças.
Empolgado com esse novo “brinquedo letal”, Obama não só aumentou os ataques de drones no Paquistão, como também os estendeu ao Yemen, onde seus efeitos colaterais em termos de baixas inocentes, embora constatados, ainda não foram calculados.
Internamente, Obama não vetou a reedição do “Patriot Act” , do governo Bush, que anula diversas liberdades individuais.
E foi mais alem, assinou a lei do Congresso que permite ao presidente mandar militares prenderem suspeitos de apoio ao terrorismo e os manterem encarcerados, sem direito a julgamento, por tempo indefinido.
Algo que só Hitler, Stalin e mais alguns ditadores faziam.
Sem contar que se atribui o direito de mandar quem considerar um perigo à segurança dos EUA, em qualquer parte do mundo.
Em outras palavras: excedeu George Bush.
Em sua defesa, Obama apresenta quatro justificações:
1- A análise cuidadosa dos suspeitos a serem mortos substitui o processo legal de que fala a Constituição. Qualquer jurista diria que isso é uma brincadeira. Hitler e Stalin poderiam alegar o mesmo;
2- Sua escolha das vítimas é criteriosa, só definida quando o perigo que elas representam é grave e certo. É um argumento subjetivo, impossível de provar;
3- Os ataques de drones são cirúrgicos. Só atingem os culpados alvejados, raramente civis. As estatísticas divergem, mas todas falam em pelo menos centenas de camponeses inocentes mortos;
4- Além de eficientes, os drones custam relativamente pouco e matam sem arriscar vidas de americanos e sem grandes danos à política externa dos EUA. Os 3 primeiros pontos deste ítem são verdadeiros, mas não o último: 97% da população paquistanesa repudia os drones e 69% consideram os EUA a maior segurança à paz na região, o que prejudica muito a imagem do país na região.
Apesar desses poderes letais, esperava-se que Obama, tido como moralmente oposto a eles, procurasse restringir seu uso ao máximo.
Não é o que acontece.
Segundo o New York Times, ele tem assumido decididamente sua posição de juiz e carrasco, sendo que aprova cada ataque dos drones.
Estimativas mostram que, enquanto Bush promoveu poucas execuções sem julgamentos, Obama foi responsável pelo assassinato de mais de 1.000 pessoas, muitos dos quais não puderam sequer ser identificados como “suspeitos.”
Principalmente, porque a CIA, sua fonte de informações, considera inimigos todos os estranhos que estiverem numa zona de combates, a menos que provem sua inocência. O que seria impossível estando mortos.
A “Lista da Morte” é um segredo cuidadosamente guardado, mas o Times revela que ela contém os nomes de diversos americanos, inclusive de uma jovem de 17 anos.
Compreensivos, os autores do artigo sugerem que Obama se sente muito mal ao ordenar os assassinatos.
Gostaria de lembrar que um governo deve ser medido por suas ações, não por suas convicções.
O apelo dos 1.879 americanos ao Presidente para que não os matassem, pode ser interpretado de muitas maneiras.
Prefiro acreditar que eles pretendiam chamar Obama à razão.
Quem sabe convencê-lo a mudar de novo, agora no sentido que lhe valera a eleição.
Não sei se dará para se contrapor ao poder anti- democrático do Congresso e do Pentágono.