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domingo, 17 de junho de 2012

Césare Battisti. Um terrorista?



“Boicotar minha imagem de escritor é uma maneira de me impedir de voltar à vida normal. É quase querer me empurrar a cometer o que eles venderam para o público: ‘esse cara é criminoso então vamos encorajar ele a cometer uma besteira’. Mas isso não vai acontecer”. Césare Battisti

Por Vanessa Silva

Em uma sexta-feira chuvosa, na zona sul de São Paulo, encontrei o ativista italiano Césare Battisti para realizarmos a entrevista agendada por e-mail alguns dias antes. O local escolhido foi uma lanchonete árabe: 10 da manhã. Mais ou menos pontualmente ele passou em frente ao local, mas não entrou. Engoli rapidamente os últimos pedaços da esfiha e esperei. Ele volta. Para. Olha para dentro por entre as mesas e sai novamente. Apresso-me a pagar o que consumi e saio. Avisto-o parado, na esquina, com ar perdido.

Não tive outra opção senão abordá-lo e me apresentar: “Césare, olá! Sou a Vanessa”. “Oi. Oi! Vamos lá!” Como que para justificar-se pela estranha reação, esclarece: “é que não fui eu que marquei, foi um amigo. Eu não conheço a região aqui”. Após trocarmos duas vezes de lugar, eu é que fiquei deslocada: também não conhecia a região. Por fim, achamos um restaurante apropriado e iniciamos a conversa.

“Não posso falar sobre política, nem sobre o meu processo na Itália. Isso já me rendeu muita complicação”, justificou-se. Feita a ressalva, iniciamos a entrevista.

O escritor

Battisti é escritor. Tem 20 obras publicadas, entre livros e histórias incluídas em coletâneas. A maior parte delas foi escrita em italiano, mas apenas quatro conseguiram circular em seu país natal. A maior receptividade aos seus escritos é observada na França, onde viveu 14 anos. Todos os seus livros foram traduzidos para o francês. Seus últimos três trabalhos foram publicados em português pela editora Martins Fontes: “Minha Fuga sem Fim”, “Ser Bambu” e o recém lançado “Ao pé do Muro”.

No prefácio de seu último livro, o professor titular da Unicamp e membro de Anistia Internacional, Carlos Alberto Lungarzo, esclarece que “a obra de Battisti é, também, uma luta contra o fetichismo. A nação é toda a Humanidade, e nenhuma pátria, mesmo ‘socialista’, pode substituí-la. Não existem anjos nem demônios, heróis nem bandidos, vítimas sagradas ou caçadores abençoados.

A repercussão do lançamento do seu livro no Brasil, no entanto, desagradou o italiano: “de repente, era como se tivessem concordado, ninguém [dos grandes jornais] apareceu. A gente sabia [que isso aconteceria] e por isso estamos fazendo um trabalho por canais alternativos, por uma imprensa mais militante e com apresentações em todos os Estados”.

Dois dias antes do lançamento, realizado na USP no dia 26 de abril, o jornal Folha de S. Paulo informou que o próprio autor havia cancelado o evento na Livraria da Vila. “Não é por acaso que é a Folha que faz isso. É um jornal cooptado pela Itália que me persegue há cinco anos, mentindo de maneira descarada, fazendo intoxicação, criando notícias falsas, como por exemplo, essa dizendo que a apresentação foi anulada em uma livraria onde nunca foi anunciada”.

Ainda assim o lançamento foi um sucesso: “estava cheio de gente, foi muito bom. [Tinha] estudantes, funcionários da USP, acadêmicos”.

“Ao Pé do Muro” foi lançado primeiramente na França, no dia 5 de março e “a Itália fez de tudo para boicotar este lançamento, de maneira histérica, querendo queimar livros”, conta Battisti.

O que ganha com o direito autoral a partir da venda dos livros no Brasil não é suficiente para que ele se mantenha, mas a divulgação de seus escritos tem outro objetivo: “não é através das vendas no Brasil que vou poder pagar meu aluguel. Mas é muito importante dar a conhecer a verdadeira cara de Césare Battisti. Que ele não é esse monstro que a mídia inventou, vendeu. Então é muito importante fazer esta turnê para combater esta imagem. Não é tanto pelas vendas do livro”.

E ressalta ainda que, “através disso [dos livros] eu vou poder desenvolver minhas ideias, minha maneira de pensar. [Lutar por] justiça e liberdade, pela igualdade e educação para todo mundo”.

Ativismo e militância na Itália

“Os anos 1970 foram um período de luta armada em quase todo o mundo. (...) Teve [luta armada] no Chile, Brasil, França, Itália, na Espanha, nos Estados Unidos com os Panteras Negras. Depois de 1968, se organizaram grupos no mundo inteiro, [até na] China”. Mas a Itália quer negar que existiu uma guerra, o que é “um absurdo porque nós temos [no país] dezenas de milhares de pessoas denunciadas, milhares presas. Ainda temos presos políticos na Itália. Hoje, 30, 40 anos depois ainda estão presos. Então, negar isso é um absurdo”.

De família comunista, Battisti entrou na militância ainda criança e aos 17 anos saiu de casa para participar de um grupo de jovens que vivia em uma “comunidade” de militantes não armados.

Ele classifica como o maior erro da sua vida ter entrado para o Proletários Armados Comunistas (PAC): “neste período, todo mundo achava que a via era a das armas. Claro que hoje eu acho que foi um erro, que tentar uma revolução armada em um país como a Itália é um absurdo. Acho que caímos em uma armadilha”.

Ele explica que a Itália tinha um forte movimento cultural “talvez o mais forte em quantidade e qualidade da Europa inteira depois da 2ª Guerra Mundial”. Então, para destruir esse movimento, os jovens foram “atraídos” para as armas, para o “enfrentamento direto com a polícia e com a repressão do Estado e claro que não tínhamos a menor possibilidade de ganhar deles. Foi uma armadilha”.

Tratava-se de uma “democracia de fachada. Na verdade, tínhamos a máfia no poder. Então acho que um jovem com 20 anos podia facilmente cair em uma armadilha dessas e recorrer à via das armas, ainda que eu ache que foi um erro político e estratégico”.

Proletários armados e a morte dos quatro

Battisti garante que não tem nenhum envolvimento nas mortes que foi acusado de ter cometido. Os fundamentos iniciais do Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) era de não matar. Mas a organização teve uma reviravolta quando, em junho de 1978, um grupo dentro dos PAC matou o guarda penitenciário Antonio Santoro. Neste momento, ele se decidiu definitivamente por sair, assim como boa parte dos fundadores da organização, conta.

“Esse homicídio foi executado quando eu ainda fazia parte dos PAC. Os outros três foram realizados quando eu já tinha saído. Isso não quer dizer que eu não fazia parte da luta armada, só que tinha saído desse agrupamento. Eu continuava em armas, mas em células de bairro, não nos PAC”.

“Eu assumo a responsabilidade política por esses anos todos coletivamente. Isso é história e a história não se julga nos tribunais”. Ele conta ainda que ninguém nunca o interrogou na Itália sobre esses crimes “nem um policial, nem um juiz, sobre esses assassinatos. Nada. Isso aconteceu depois. Depois da minha fuga da cadeia. Que foi uma fuga cinematográfica que a Itália não suportou uma coisa dessas. Então foi pura vingança”.

“Se queremos falar de vias jurídicas, de tribunais, então tem que respeitar também as leis. Eles não têm prova nenhuma de que eu participei disso. Nenhuma prova técnica. Pelo contrário. Têm provas de que eu não participei. As armas que foram usadas para matar essas pessoas foram encontradas com outras pessoas, que confessaram os crimes. É um absurdo! Tudo foi montado e fabricado de uma maneira imunda.

Por que então a perseguição?

O italiano de fala mansa não tem exatamente a imagem do que pensamos ser um terrorista. Tem semblante sereno, a barba feita, cabelo bem cortado. As lutas, perseguições, fugas e prisões, no entanto, deixaram sinais em seu semblante. Aos 57 anos, são visíveis as marcas da idade.

Mas, se é inocente como afirma, por que essa perseguição tão pessoal?, questiono. Battisti rebate prontamente elevando o até então tom calmo de sua fala: “essa é uma pergunta que eu faço aos jornalistas que me acusam publicamente. Por que eles mesmos não vão buscar a resposta para essas perguntas? (...) A grande imprensa que tem tantos recursos, deveria falar de ética profissional, colocar esta questão eles mesmos”.

Ele esclarece que o interesse por sua pessoa aflorou em 2002 quando passa a ter acesso à imprensa e a questionar o governo italiano. “Infelizmente eu virei uma personalidade pública, que tinha acesso à grande mídia e comecei a denunciar o que acontecia, o que tinha acontecido e ainda estava acontecendo na Itália. Por exemplo, eu queria saber onde estão os presos políticos, o que está acontecendo com eles. Essa foi a razão pela qual eu tive que fugir da França depois de 14 anos de asilo e vim para o Brasil. Se eu ficasse calado, se fosse qualquer um, que não tinha esse acesso à grande mídia para falar, denunciar essas coisas, estaria tudo bem, tranquilamente”.

Durante o tempo em que fui escritor, “que não vendia nada, ninguém se interessava por mim. Ninguém se ocupava de Césare Battisti. Eu estava a algumas centenas de quilômetros da Itália, estava em Paris. Por que nunca se ocuparam de mim? Por que começa isso em 2002? Porque é quando eu tenho acesso à grande mídia e começo a falar”.

Quando questionado sobre o porquê deste exato momento, ele esclarece: “porque teve um governo de direita na Itália, governo de direita na França... e eu fui vendido. Eu fui vendido em troca de um contrato. Isso saiu na imprensa. (...) A maior preocupação não era de que se estava vendendo a justiça, fazendo mercado com a Justiça”, mas se era conveniente para a Itália essa troca: “por que nós temos que aceitar o contrato com a França se podemos fazer nós mesmos? A preocupação do jornal [Corriere della Sera] não era que se estava vendendo a Justiça. Era a conveniência econômica, denuncia.

Battisti e o povo

“É mentira quando se fala que o povo italiano quer a minha cabeça. O povo italiano nem liga pra isso. Quem quer minha cabeça é a grande mídia e os políticos que estão no governo. O povo (...) tem outros problemas. A Itália está de joelhos, está em falência. (...) Sempre a máfia esteve no governo depois da guerra, mas nesses 16 anos eles tomaram todos os poderes. Desde a mídia, até o executivo. (...) Imagina então se o povo está preocupado comigo quando estão sendo fechadas milhares de empresas na Itália?”

No Brasil, em sua opinião, acontece a mesma coisa. “O povo não está contra mim nada. O povo brasileiro tem essa sabedoria [de saber] que a imprensa é poder e o povo brasileiro desconfia do poder, então nem liga. Eu nunca tive problema de relacionamento com as pessoas na rua”.

A receptividade é tamanha que “eu não consigo sequer pagar um café no lugar onde moro. Às vezes tenho até que passar longe porque sempre tenho que tomar uma cerveja, coisa e tal. (...) São muito receptivos. (...) Nunca tive problema de hostilidade. Tenho adversários políticos, claro. Sou honrado por ter adversários políticos, se [uma pessoa] não tem adversários políticos é porque não tem opinião.


Pior momento


Depois de 14 anos “deixar a França, minhas filhas, foi muito duro, muito difícil”, diz ao referir-se ao momento em que teve que fugir da França após o presidente Jacques Chirac ter concedido a extradição de Battisti à Itália em 2004. Neste momento, o italiano já era um escritor conhecido e a atitude de Chirac provocou reação da opinião pública francesa. Com a ajuda, supostamente, do serviço secreto francês, o ativista foge para o Brasil.

Ele conta, no entanto, que o pior momento desde que deixou a Itália foi o tempo decorrido entre a decisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em dezembro 2010, de não conceder sua extradição e a decisão final do Supremo Tribunal Federal (STF), em junho de 2011, que decidiu por sua libertação imediata:

“Quando o presidente Lula assinou a não extradição e eu fiquei um ano mais [preso] porque tinha uma vontade forte da direita daqui, (...) neste momento eu pensei que não tinha jeito. Se nem o presidente da República consegue fazer respeitar a Constituição, quem vai fazer respeitar? Então neste momento foi muito difícil para mim. (...) Quando se está sozinho em uma cela, tem momentos de desespero forte. Acho que este foi o momento mais duro, neste ano entre a assinatura de Lula e a última audiência do STF em que deliberaram a minha liberdade”.

“Ao Pé do Muro”

Battisti diz ter conhecido o Brasil por meio do relato dos presos com os quais conviveu durante o tempo em que esteve preso na carceragem federal de Brasília.

“Sem pieguice, o texto mostra a simpatia do autor pela humanidade daquelas pessoas empurradas a um mundo infernal onde, apesar de tudo, tentam manter sua dignidade. (...) Eles tratam o gringo com afeto, mas se apavoram com seus hábitos esquisitos: não gosta de baralho, novela ou futebol, usa caneta e óculos, e lê algo que não é a Bíblia. (...) Battisti se afina com a ingenuidade dos populares: eles não entendem como esse ‘gringo’ de olhar brincalhão e sorriso permanente, possa ser o Bin Laden italiano, o superterrorista difamado ad nausem (...). Seus colegas, que se consideram simples ‘bandidos’, não compreendem como um sujeito tão perigoso, que inspira tortuosas vinganças em tiras de três países, pode ser custodiado por apenas um policial”, escreve Lungarzo no prefácio do livro “Ao Pé do Muro”.

Battisti conta que o tema recorrente de sua “escrita é a identidade e as circunstâncias”, porque segundo ele, “ao contrário do que querem que a gente acredite, não é o homem que cria as circunstâncias, mas as circunstâncias que criam o homem. Você coloca a mesma pessoa em um bairro rico e em uma favela, essa pessoa não terá o mesmo destino. Não vai agir da mesma maneira. Então essas pessoas que estão presas são julgadas por alguns instantes da vida delas. Ninguém sabe de onde vêm o que são. Essas pessoas têm sentimentos, emoções, pensamentos e sonhos como qualquer um. Mas ninguém se pergunta isso aí. O tribunal não tem nem tempo, nem estrutura e tampouco se importa de saber quem são essas pessoas. E elas são seres humanos como qualquer um”.

No Brasil, Battisti foi colocado em contato com presos comuns e tratado como tal, não como preso político. Sobre a experiência, ele pontua que já ficou na “cadeia na Itália também, então eu sei o que quer dizer isso aí. Então eu não tive nenhuma dificuldade de lidar com esses presos. (...) Essas pessoas quando te falam, te falam de uma maneira... porque não têm nada mais a perder. E na cadeia, o cinismo, essa estrutura de defesa que precisamos na rua, lá não existe. Porque você está submetido a uma pressão tal que isso tudo aí não tem o menor sentido. Essa proteção que precisamos na rua não tem sentido nenhum, é outro tipo de proteção que se precisa lá. Então quando fala com alguém, fala de verdade. É por isso que eu aprendi a conhecer o Brasil sob a palavra dos presos.

Ele ainda ressalta que “a Europa deveria estar olhando muito mais para a alma da América Latina. A América Latina ainda tem um povo com alma, que não tem nada a ver com essa coisa de primeiro ou terceiro mundo! É outra coisa. Vai em outra direção. Tem outra maneira de pensar, de enxergar a vida. Então foi isso que aprendi nas prisões brasileiras e nas ruas estou constatando que é isso mesmo”.

Novos fronts

Sobre o espírito libertário do nosso tempo, Battisti considera que “tem gerações novas que estão surgindo, que estão lutando, querem lutar e enxergam as coisas de outro ângulo. Então é só a maneira de enxergar que mudou. Mas o espírito de luta para a conquista de liberdade, justiça e igualdade existe ainda. Só que hoje tem-se muito mais consciência sobre o fato de que não pode existir igualdade sem liberdade, que era uma coisa que nos nossos anos não estava muito claro”.

Hoje, Battisti faz oficinas de escrita pelo Brasil. Seu método é: “de um lado, onde tem dinheiro eu cobro, e devolvo [dá aula de graça] quando ninguém pode pagar. Na verdade, eu faço isso desde 1986, no México. Eu não preciso de muito dinheiro para viver. Não sou uma pessoa que vive no luxo. Preciso de poucas coisas. Não tenho e não quero carro. Então isso para mim é suficiente. Ter uma renda para ter uma vida digna. Nada mais”.




Fonte: Vermelho
Imagem: Google

sábado, 16 de junho de 2012

Sarkozy: da cadeira presidencial para a cela







Alexandra Dibizheva, Polina Tchernitsa





O ex-chefe de Estado de França, Nicolas Sarkozy, corre o risco de ser alvo de vários processos judiciais, podendo ser declarado culpado de receber muitos milhões de euros em subornos para contratos militares e de a sua campanha eleitoral ter sido financiada ilegalmente. Sarkozy pode ser condenado até 5 anos de prisão. 

O próprio Sarkozy nega todas as acusações e, entretanto, a sua imunidade presidencial expira hoje, dia 15 de junho.

Liliane Bettencourt
O principal processo que o ex-presidente terá de enfrentar será o financiamento ilegal da sua campanha eleitoral por Liliane Bettencourt. Alegadamente, em 2007, a herdeira do gigante cosmético L’Oréal e a mulher mais rica de França mandou transferir para a Suíça somas avultadas para fugir aos impostos, das quais parte, segundo a versão da acusação, ficaram nas contas bancárias da campanha de Sarkozy.

Outro processo é o chamado carachigate. Em meados dos anos 90, a França forneceu ao Paquistão submarinos Agosta e por isso, segundo a prática então em vigor, funcionários paquistaneses receberam comissões.


Nicolas Sarkozy e Edouard Balladur
A seguir, no entanto, aconteceu outro pagamento, este ilegal, segundo a acusação. Alegadamente, parte dessa contribuição foi para o financiamento da campanha eleitoral do então primeiro-ministro Edouard Balladur. A campanha era chefiada por Nicolas Sarkozy, que na altura ocupava o posto de ministro do Orçamento. Balladur perdeu para Chirac, que depois da chegada ao poder proibiu a prática de pagamento de comissões nos contratos militares. Depois disso, em Carachi, em uma explosão morreram 11 engenheiros franceses que trabalhavam na construção dos ditos submarinos. Assim, Sarkozy pode vir a ser acusado não só de participação em esquemas de corrupção, mas também de envolvimento na morte de 11 cidadãos franceses.

As probabilidades de isso ocorrer são bastante grandes, apesar de não haver quase indícios diretos contra Sarkozy, esclarece Iuri Rubinski, diretor do Centro de Estudos Franceses do Instituto da Europa da Academia das Ciências da Rússia:

"Tal como no primeiro caso, não há provas substanciais. Por enquanto, o ex-presidente é chamado a depôr como testemunha e não como acusado, mas se encontrarem alguma coisa, então haverá processo. O exemplo de Chirac, que foi condenado a dois anos, já diz muito. Um chefe de Estado está na mira da Justiça e, se depois de terminado o mandato, a sua imunidade termina, ele torna-se num cidadão comum. Quanto a Sarkozy, aqui não haverá lugar a vinganças ou a tentativas de impedir o seu regresso à vida política, eu acho que as acusações terão em vista apenas o esclarecimento dos fatos."

O exemplo de Chirac, que o tribunal reconheceu como culpado da prática de corrupção, não foi totalmente correto, na opinião de outros peritos. Ele acabou por ter a pena suspensa. A prática política em França demonstra que Sarkozy, provavelmente, conseguirá evitar os processos judiciais, na opinião de Kira Zueva, especialista senior do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais:

"A prática desse tipo de acusações resume-se principalmente à acusação. É pouco provável que Sarkozy seja condenado a uma pena de prisão, apesar da gravidade das acusações. Trata-se de um político bastante astuto que conseguirá de alguma maneira justificar-se nesta situação. Parece-me que o caso não irá para além de conversas e críticas."





Fonte: Voz da Rússia
Imagem: Google

sexta-feira, 15 de junho de 2012

História do grupo Mujahedin e Khalq (MEK) do Irã




Owen Bennett-Jones, London Review of Books, vol. 34, n. 11, p. 10-12

http://www.lrb.co.uk/v34/n11/owen-bennett-jones/terrorists-us


Tradução: Vila Vudu


“Mas a verdade é outra. Os apoiadores norte-americanos dos MEKs creem que a organização ainda tenha potencial ‘de combate’, precisamente por sua longa história de violência e terrorismo. Por isso creem que esses terroristas sejam úteis para arrancar do poder os mulás iranianos. Por isso a secretária Clinton acabará por excluir os MEKs, da lista de organizações terroristas.”

Essa história dos ‘Mujahedin do Povo’ (Mujahedin e Khalq, MEK), também conhecidos como ‘Mujahedin do Irã’, é o relato de como gerenciamento competente e insistente de marketing & imagem pode fazer, de um inimigo mortal, um muito prezado aliado.

Os MEKs estão hoje em campanha massiva para serem excluídos da lista dos EUA de organizações terroristas. Tão logo sejam tirados da lista, estarão livres para usar o apoio que sempre deram aos EUA, e tornarem-se o grupo mais bem amado, mais favorecido e, sem dúvida, o que mais fundos receberá, dentre outros grupos da oposição iraniana.

Outro artifício, também usado para conseguir resultado bem semelhante a esse, foi o Congresso Nacional Iraquiano (CNIq) – grupo de lobby liderado por Ahmed Chalabi que falou de democracia e pavimentou o caminho para a invasão do Iraque, presenteando Washington com ‘provas’ altamente questionáveis da existência de inexistentes armas de destruição em massa e de laços entre Saddam Hussein e a al-Qaeda. Em seguida, quando George Bush levou os EUA à guerra, o CNIq e seus líderes só tiveram de descansar um pouco e preparar-se para governar.

Muitos em Washington acreditam que, para o bem ou para o mal, os EUA irão à guerra contra o Irã, e que os MEK terão papel a desempenhar. Mas, antes, eles terão de convencer Hillary Clinton a retirar o grupo de sua lista oficial de terroristas. Alguns funcionários de Clinton têm insistido para que ela deixe os MEK exatamente na lista onde estão; mas há cachorros grandes em Washington que exigem furiosamente que ela converta os MEK em organização oficialmente declarada não terrorista. Depois de exaustiva caminhada entre várias agências, o processo dos MEK está agora sobre a mesa de Clinton. Declarações recentes do Departamento de Estado indicam que a ‘desterrorificação’ dos militantes MEK já é agora bem provável.

Organizados nos anos 1960s como grupo islamista anti-imperialista, com tendências socialistas e dedicado à luta para derrubar o xá, os MEK originalmente defenderam não só a revolução islâmica, mas, também, muitos direitos para as mulheres – combinação que atraiu muitas simpatias nos campi das universidades iranianas. Conseguiram construir genuína base popular e tiveram papel destacado na derrubada do Xá em 1979. Tornaram-se tão populares, que o Aiatolá Khomeini sentiu que precisava destruí-los; ao longo dos anos 1980s, Khomeini fomentou julgamentos e execuções públicas de membros do grupo. Os MEK retaliaram, com atentados contra clérigos influentes no Irã.

Temendo pela vida, membros dos MEK fugiram, primeiro para Paris, depois para o Iraque, onde Saddam Hussein, desesperado para encontrar aliados para a guerra contra o Irã, ofereceu-lhes milhões de dólares, além de tanques, peças de artilharia e armas de vários tipos. Também deu-lhes terras. Camp Ashraf tornou-se lar dos MEK, uma fortaleza no deserto, 80 km ao norte de Bagdá, a uma hora de viagem por terra até a fronteira do Irã.

A partir dos anos 1970s, a retórica dos MEK mudou, de islamista para secular; de socialista para capitalista; de pró-revolução para anti-revolução.

E desde a queda de Saddam o grupo apresenta-se como pró-EUA, ‘da paz’, dedicado a promover a democracia e os direitos humanos. Mas essa incansável ‘reinvenção’ pode ser perigosa, e o novo governo iraquiano, favorável ao Irã, está sendo pressionado por Teerã para fechar definitivamente a fortaleza de Camp Ashraf, que cresceu ao longo das décadas e abriga hoje população equivalente à de qualquer das pequenas cidades da região. E não só o Irã. Muitos iraquianos também não veem com bons olhos os MEK, não só por terem-se aliado a Saddam Hussein, mas porque os MEK também participaram da violenta supressão de curdos e xiitas.

Forças de segurança do Iraque já, por duas vezes, atacaram Camp Ashraf, em 2009 e 2011, ataques que deixaram mais de 40 mortos. Vídeos de tanques blindados lançados contra moradores desarmados de Ashraf podem ser vistos em YouTube. Agora, o Iraque decidiu que Camp Ashraf tem de ser fechado; e os moradores, relutantemente, começaram a mudar-se para Camp Liberty, ex-base do exército dos EUA próxima do aeroporto de Bagdá, atualmente sob supervisão da ONU e protegida por forças da segurança iraquiana. O Alto Comissariado da ONU para Refugiados [orig. UNHCR] está cadastrando os residentes, com vistas a distribuí-los por outros países, como refugiados; mas poucos países deram sinais de interesse em receber pessoas que, do ponto de vista oficial dos EUA, são terroristas, e que, segundo outros, não passariam de fiéis adoradores de uma espécie de culto satânico.
Os MEK passaram a viver sob regras típicas de grupos de fanáticos religiosos – os fiéis foram separados das respectivas famílias e amigos; e toda a informação que chegava até eles era controlada – depois de 1989, ano em que o casal que lidera o movimento, Massoud e Maryam Rajavi, lançou a Operação Luz Eterna [orig. Operation Eternal Light]. Depois que Saddan fracassou no golpe para ‘mudar o regime’ no Irã, a Operação Luz Eterna foi a alavanca escolhida para, afinal, levar o grupo a controlar o país. O sucesso, disse Rajavi aos seus guerreiros-fiéis, era garantido, porque o povo iraniano, civis e militares, desertaria em massa e seguiria os MEK na marcha sobre Teerã. Seria fácil, disse ele. Mas, à parte ninguém ter desertado, as forças iranianas resistiram ferozmente e contra-atacaram. Morreram mais de mil seguidores dos MEK de Massoud e Maryam Rajavi, e muitos outros foram feridos. Os MEK perderam cerca de 1/3 de seus quadros.

Rajavi tinha de encontrar alguma explicação para a derrota. A ideia ortodoxa que lhe ocorreu foi dizer aos seus seguidores, que haviam perdido a guerra porque se deixaram distrair por amor&sexo. Ordenou que os seguidores se divorciassem, abraçassem o celibato e passassem a viver numa habitação comunitária, só de homens, como soldados de exércitos regulares. Tomados de ideias de autossacrifício e martírio, os combatentes MEK obedeceram. (Até hoje a regra do celibato é tão rígida que há turnos no posto de combustível de Camp Ashraf, para que mulheres e homens abasteçam os carros sem se encontrarem.) Os combatentes MEK foram treinados para transferir a paixão pelas antigas esposas, para os líderes. Conscientes de que a frustração sexual já gerava novas dificuldades, os Rajavis passaram a organizar reuniões nas quais os MEK deveriam confessar, em público, suas fantasias sexuais. E os que confessavam eram espancados por outros fiéis. Não se estimulavam nem amizades, nem filhos em Camp Ashraf.

A partir de meados dos anos 1980s, sob alegação de que a segurança ali seria precária, os líderes ordenaram que várias crianças que viviam em Camp Ashraf fossem entregues para adoção a famílias pró-MEK na Europa e no Canadá. Alguns pais passaram mais de 20 anos sem ver os filhos.

Essas práticas, e as frequentes sessões de doutrinação, além do bloqueio total de qualquer informação vinda do mundo exterior (os MEK são proibidos também de usar telefones), ajudaram a firmar o controle sobre os membros. Mas os MEK que viviam fora do Iraque também manifestaram extraordinária devoção à causa. Em 2003, quando autoridades francesas prenderam Maryam Rajavi e a acusaram de terrorismo (adiante, ela foi libertada), 10 militantes dos MEK, em diferentes pontos do mundo, puseram fogo ao corpo, em sinal de protesto: dois deles morreram.

O grupo MEK nega, evidentemente, que tenha organização de culto religioso. Mas vários observadores externos – militares norte-americanos de alto escalão, agentes do FBI, jornalistas e a Rand Corporation (financiada pelo Pentágono) – que estiveram em Camp Ashraf insistem em repetir que, sim, são organizados como seita. Um alto funcionário do Departamento de Estado (hoje aposentado), que foi enviado ao Iraque para entrevistar milhares de membros dos MEK, concluiu que, sim, se tratava de seita e culto religiosos; que a fortaleza de Camp Ashraf, praticamente uma cidade, mas não qual não se via uma única criança, era “completa tragédia, em termos humanos”; que os membros eram “mal atendidos e mal dirigidos” pelos líderes; e que muitos haviam sido subornados ou, no geral, “enganados”, para que se unissem ao grupo.

Os MEK usavam vários métodos de recrutamento. A elite do grupo reuniu-se no Irã, antes da revolução popular islâmica. Outros eram prisioneiros iranianos, capturados durante a guerra Irã-Iraque. A esses, Saddam ofereceu uma barganha: se se alistassem no grupo dos MEK, poderiam trocar os campos de prisioneiros de guerra e mudar-se para o complexo de Camp Ashraf, muito mais confortável. Outros membros foram recrutados em campi de universidades dos EUA, com promessas de emprego, dinheiro, novos passaporte e a oportunidade de lutar contra os exércitos dos mulás. Outros, mais simplesmente, foram enganados.

A um ativista dos MEK que vivia no Irã e que estava em visita a Camp Ashraf contaram que sua mulher e filho haviam sido mortos; e que ele, se quisesse poderia ficar vivendo ali. Só depois de dez anos, afinal, o homem voltou a encontrar um telefone; ligou para o número de sua casa no Irã e, afinal, soube que estavam todos vivos. Outros ex-membros dos MEK contam que, na chegada ao Iraque, eram passados clandestinamente pelos controles de imigração, de modo que seus passaportes não registravam qualquer carimbo de entrada. Depois, quando decidiam deixar o país, eram informados que corriam o risco de ser presos por ter entrado ilegalmente no país.

Ouvi horas de depoimentos desse tipo, de ex-membros. O grupo insiste que todos os que contam essas histórias são agentes iranianos; que não separou famílias nem expulsou crianças. Mas as lágrimas de pais, mães, esposas e filhos me pareceram mais convincentes.

Mas, apesar de tudo isso, alguns oficiais militares norte-americanos que trabalharam em Camp Ashraf depois da invasão do Iraque saíram de lá convencidos de que os MEK poderiam ser aliados muito úteis.

O general David Phillips, policial-militar que serviu lá em 2004, argumenta que, se os MEK são organizados como culto e facção religiosa, o mesmo se pode(ria) dizer dos Marines dos EUA: os Marines e os MEK são obrigados a usar uniformes, obedecem ordens e seguem rituais que, para os não iniciados, parecem bizarros.

Esse tipo de simpatia pelos MEK e a avaliação positiva que se ouve de vários militares dos EUA são fáceis de explicar. Em 2003, foram informados de que os EUA encontrariam pesada resistência, de um exército de terroristas uniformizados e pesadamente armados, que combateriam a favor de Saddam e contra as forças dos EUA. Mas aconteceu que, entre o momento em que a informação foi recolhida e a chegada dos americanos, os líderes dos MEK rapidamente entenderam que não havia futuro para Saddam; e, numa pirueta política, trocaram de lado.

Quando os soldados dos EUA chegaram a Camp Ashraf, foram recebidos por anfitriões cordiais, que falavam inglês e logo manifestaram integral apoio à ‘causa’ dos EUA. Para muitos soldados dos EUA, Camp Ashraf tornou-se refúgio e abrigo, onde encontravam segurança, num país massivamente hostil.

Mas nada disso explica a popularidade de que gozam os MEK entre políticos em Londres, Bruxelas e Washington, hoje. Boa parte dessa popularidade é comprada. Cerca de três dúzias de ex-altos comandantes militares e políticos norte-americanos são conferencistas regulares nos eventos dos MEK e de amigos dos MEK: Rudy Giuliani; Howard Dean; o ex-conselheiro para segurança nacional do governo Obama, general James Jones; e o ex-senador Lee Hamilton. O pagamento, por dez minutos de fala, com pose para fotografias, está entre $20 mil e $40 mil dólares. O tema dessas ‘palestras’ pode ser qualquer um: muitos dos palestrantes sequer mencionam a sigla MEK.

Em meses recentes, o governo Obama sinalizou que poderá proibir a realização dessas ‘palestras’ e eventos. O Tesouro investiga denúncias de que os ‘palestrantes’ norte-americanos estariam recebendo dinheiro de organização terrorista ‘listada’. O que querem de fato saber, em outras palavras, é se os exilados iranianos que pagam o ‘soldo’ dos ‘palestrantes’ são membros dos MEK; os que fazem campanha a favor do grupo, sem receber pagamento, não serão afetados. A maioria dos apoiadores apóiam os MEK porque apoiariam qualquer coisa que ajude ou pareça ajudar a derrubar o governo em Teerã. Parecem não se dar conta de que a organização tem sido definida como culto de fanáticos e não tomam conhecimento do que dizem os ex-membros.

Grande número dos mais conhecidos lobbyistas pró-MEK dizem que aceitam fazer as tais ‘palestras’ porque outros intelectuais e políticos que também participam das atividades dos MEK são prova da respeitabilidade do grupo.

Mas os MEK também têm lobbyistas contratados em Washington, que se dedicam a escrever longas respostas às críticas. As 105 páginas do relatório da Rand Corporation sobre os MEK foram escritas por quatro desses lobbyistas, que trabalharam durante 15 meses nos EUA e no Iraque, para produzir a mais aprofundada análise que há, dos aspectos considerados ‘de culto’ do movimento. A resposta veio de um grupo dito “de Ação Executiva”, que se autodescreve como “uma CIA e Departamento de Defesa privados, disponíveis para cuidar dos seus mais complexos problemas e desafios mais difíceis’. O relatório da “Ação Executiva” levava o título de Courting Disaster: How a Biased, Inaccurate Rand Corporation Report Imperils Lives, Flouts International Law and Betrays Its Own Standards.[1] O autor que assina pela “Ação Executiva”, Neil Livingstone, hoje candidato dos Republicanos ao governo do estado de Montana, contou que fora contratado por um ‘cidadão norte-americano’ para avaliar a objetividade do Relatório Rand.

Concluiu que, dentre outros problemas, os autores do Relatório Rand eram demasiadamente inexperientes para tratar de tema tão complexo como os MEK. Até hoje, os que apoiam o trabalho publicado por Neil Livingston, publicado há três anos, desqualificam o relatório Rand como “serviço de alunos calouros”. A Rand diz que a crítica visa aos assistentes do autor principal, que foram apenas coadjuvantes e cujos nomes só foram incluídos como autores para oferecer-lhes algo para engordar-lhes os currículos. Todo esse lobby custa quantias astronômicas de dinheiro.

Parte do dinheiro é reunido pelos militantes encarregados de levantar fundos para os MEK, na Grã-Bretanha e em outros pontos, que trabalham de porta em porta. Funcionários dos EUA também creem que os MEK tenham à sua disposição os ganhos auferidos do (muito) dinheiro que receberam de Saddam Hussein e aplicaram bem.

Muitos dos que militam pró-MEK não respondem diretamente às acusações de que não passariam de grupo dedicado a cultos satânicos: os lobbyistas falam insistentemente da questão de os MEK serem excluídos da lista de grupos terroristas.

Em 1996, resolução da Assembleia Geral da ONU criou comissão encarregada de redigir versão inicial de uma Convenção sobre Terrorismo Internacional. Desde então, funcionários reúnem-se anualmente para discutir a questão. Mas, até o momento, ainda não encontraram definição do que seja “terrorismo” que satisfaça todos. Dois pontos parecem emperrar sempre.

Primeiro, a Organização da Conferência Islâmica insiste que movimentos de resistência contra forças de ocupação e que lutem em nome da libertação nacional – por exemplo, na Caxemira –, não podem ser considerados movimentos terroristas. Segundo, os governos temem que estejam, eles próprios, incluídos em toda e qualquer definição de terrorismo que apareça à discussão naquela comissão.

Assim, com cada um tentando construir definições de “terrorismo” que mais claramente excluam as próprias práticas, não parece haver qualquer resultado à vista, no plano internacional.

Evidentemente, decidir quais grupos são terroristas e quais não são é sempre ato político: o IRA nunca foi considerado grupo terrorista, nas listas norte-americanas; e Nelson Mandela, ainda em 2008, permanecia listado como terrorista aos olhos dos EUA.

O histórico de ataques terroristas organizados pelos MEK remonta aos anos 1970s, quando fizeram oposição ao Xá e lutaram contra os EUA que apoiavam o Xá. Para o Departamento de Estado, os MEK, em 1973, assassinaram um soldado do exército dos EUA que servia em Teerã; e, em 1975, assassinaram dois membros do US Military Assistance Advisory Group. Além de três executivos da Rockwell International e um da Texaco, também assassinados. A hostilidade dos MEK contra os EUA continuou depois da Revolução Popular Iraniana.

Dia 4/11/1979, estudantes iranianos ocuparam a Embaixada dos EUA em Teerã e sequestraram 52 diplomatas norte-americanos, que foram mantidos presos por 444 dias. Um dos diplomatas sequestrados contou que não estaria na embaixada naquele dia, se não tivesse sido atraído para lá por seus contatos com os MEK. Outro relatou que não tinha qualquer dúvida de que os MEK haviam apoiado o sequestro e, de fato, não defendiam qualquer negociação diplomática. Muito tempo depois de Khomeini ter decidido que era mais que hora de acertar aquela questão, os MEK ainda insistiam que seu apoio aos sequestros não passaria de boatos, uma farsa ardilosamente concebida; hoje já negam peremptoriamente qualquer participação. Sobre os assassinatos, dizem que, naquela época, seu principal líder era prisioneiro nas prisões do Xá; e que, com isso, uma facção marxista havia invadido a organização e assumido o comando. Essa facção, de fato, um grupo dissidente, teria sido responsável pelos ataques e assassinatos; e os ataques cessaram quando os líderes legítimos foram libertados e reassumiram o comando. São discussões que, em todos os casos, estão ultrapassadas. Os anos 1970s já vão longe. As organizações mudam.

É possível que os MEK tenham parado de assassinar norte-americanos, mas continuam comprometidos com a luta armada no Iraque e no Irã. Os esforços que empenharam a favor de Saddam Hussein contra os curdos e os xiitas nada são, se comparados às bombas, assassinatos e vastas ofensivas que organizaram e executaram dentro do Irã do final dos anos 1980s aos anos 1990s. A história de violência dos MEK está bem documentada, mas a organização insiste que a violência é coisa do passado.

Essa ideia tem recebido considerável estímulo nas cortes europeias. Em 2007, a Comissão de Apelação para Organizações Proscritas, um organismo britânico especializado oficial, declarou que os MEK teriam renunciado ao uso da força e acolheu recurso impetrado pelo grupo e contra decisão do Foreign Office britânico, que preferia manter o grupo na lista de organizações terroristas. Em 2009, a União Europeia tirou os MEK da lista europeia de organizações terroristas, amparada numa tecnicalidade que beira o absurdo: antes de qualquer outra ação, o grupo deveria ter sido formalmente informado dos motivos pelos quais seria listado como “organização terrorista”.

Para manter os MEK na lista dos EUA, Hillary Clinton terá de demonstrar que o grupo ainda tem capacidade para ou projeto de cometer atos terroristas. Os apoiadores dos MEK lembram que, no processo para convencer a corte britânica de que são grupo pacífico, em julho de 2004, todos os que vivem em Camp Ashraf assinaram documento no qual rejeitam o terrorismo e todos os tipos de violência. Há quem não tenha sido plenamente convencido.

Dado o que se viu acontecer em Guantánamo e na base aérea de Bagram, dizem eles, surpresa seria se alguém se recusasse a assinar o tal documento de renúncia ao terror. Em novembro de 2004, o FBI relatou atividades do grupo em Los Angeles; o relatório fala de telefonemas gravados, nos quais líderes dos MEK na França discutiam “específicos atos de terrorismo, inclusive bombas”. Segundo o FBI, a inteligência francesa e a política em Colônia também têm informações semelhantes e gravações. O relatório FBI-2004 foi divulgado há mais de um ano, mas praticamente todo o material no qual a secretária Clinton fundamentará sua decisão é sigiloso. Em 2010, a Corte de Apelação do Distrito de Columbia julgou acusação contra os MEK, e um dos três juízes, Karen LeCraft Henderson, observou que material sigiloso ao qual a corte teria tido acesso oferecia “apoio substancial” à acusação de que os MEK continuam engajados na prática de ações terroristas ou, no mínimo, que não desmontaram a infraestrutura terrorista básica, não perderam capacidade de ataque e têm planos para empreender novas ações terroristas. Matéria apresentada em fevereiro pelo canal NBC News citava funcionários não identificados do governo dos EUA, que teriam dito que os MEK seriam responsável pelo assassinato, em tempos recentes, de vários cientistas nucleares iranianos. Apesar de alguns apoiadores dos MEK já terem sugerido que essas ações não desmereciam os MEK, a própria organização negou qualquer envolvimento naqueles atentados.

O livro de Raymond Tanter aqui resenhado é parte da campanha de marketing-publicidade-Relações Públicas para mudança de imagem dos MEK – espécie de briefing dos que pregam que o grupo seja excluído da lista norte-americana de organizações terroristas. Tanter, que é apoiador ativo do grupo já há muito tempo, produziu um guia compacto, completo, com fotos e ilustrações em cores do grupo e transcrições de discursos feitos por defensores pagos para defender os MEK. O livro nada diz sobre ataques perpetrados nos anos 1970s ou a ajuda que o grupo deu a Saddam Hussein. Também ignora outros ataques no Irã, nos anos 1990s. Tanter crê que, nos termos da legislação nos EUA, só as leis aprovadas nos EUA nos últimos anos seriam aplicáveis à questão de excluir ou manter o grupo na lista de organizações terroristas; o que nos leva à questão de excluir ou não excluir o grupo, daquela lista; e só considera o período pós- 2001.

O autor diz que os MEK seriam a melhor esperança disponível para a chamada ‘terceira alternativa’: um modo pelo qual os EUA consigam provocar mudança de regime da Síria, sem ter de depender de sanções ou de guerra.

É onde mais claramente se vê o vício que há no argumento dos lobbyistas pro-MEKs: de um lado, dizem que os MEK teriam renunciado à violência, o que lhes daria condições para pleitear que o grupo seja excluído da lista de organizações terroristas. Mas, mesmo que tenham realmente desistido da violência, ainda assim não se entende por que os EUA se aliariam a eles.

Mas a verdade é outra. Os apoiadores norte-americanos dos MEKs creem que a organização ainda tenha potencial ‘de combate’, precisamente por sua longa história de violência e terrorismo. Por isso creem que esses terroristas sejam úteis para arrancar do poder os mulás iranianos. Por isso a secretária Clinton talvez exclua o grupo, da lista de organizações terroristas.

Os apoiadores dos MEKs dizem que ainda são rede poderosa no interior do Irã e que não perderam as bases populares. Os que se opõem ao grupo dizem que o regime usa os terroristas MEKs para divulgar teorias conspiracionais sobre ‘complôs’ armados fora do país. Dizem também que, ao apoiar o Iraque de Saddan, na guerra Irã-Iraque, os MEKs perderam a considerável base de apoio popular que chegaram a ter.

A secretária Clinton não poderá ignorar as considerações políticas. O lobby a favor dos MEKs insiste que seus ativistas correm risco de serem massacrados no Iraque. Se o Iraque decidir lançar novo ataque aos MEKs que vivem em Camp Ashraf, seja porque o grupo provoque demais, seja porque o grupo monte a encenação de algum ataque no qual surjam como vítimas indefesas, a resposta do lobby pró-MEKs será violenta.

Atualmente, a prioridade do Departamento de Defesa é garantir que os que ainda vivem em Camp Ashraf sejam transferidos em segurança para [o campo de refugiados] Liberty. Em fevereiro, Clinton disse que uma “transferência bem-sucedida teria peso decisivo em qualquer posição dos EUA sobre o status da organização terrorista estrangeira dos MEKs”. Em termos legais, nada significa e não faz qualquer sentido.

O que diz o acordo segundo o qual os MEKs aceitam deixar Camp Ashraf, sobre o grupo desejar ou ser capaz de organizar e executar atentados terroristas? Nada. O acordo não toca nesses temas.

De fato, as declarações da secretária Clinton revelam qual é o verdadeiro medo de Clinton e de seu departamento de Estado: temem que, deliberadamente ou como efeito de alguma provocação lançada pelos MEKs, os iraquianos ataquem os MEKs pela terceira vez, e que os EU sejam denunciados por ignorarem os sinais de alerta. Em maio, o Departamento de Estado avançou alguns passos, e chegou a dizer que já considerava a possibilidade de excluir os MEKs da lista de suspeitos de associação, desde que continue a evacuação de Ashraf.

A declaração de Clinton sugere que ela já decidiu tirar os MEKs da lista de grupos terroristas. Sinal de que o lobby pró MEKs nos EUA trabalhou bem. Mas há mais uma coisa que se deve ter em mente.

Como disse recentemente um experiente observador em Washington: “Hillary Clinton é homem-político. Nesse momento, muitos de seus parceiros e associados estão ganhando bom dinheiro com a ajuda dos MEKs e eles absolutamente não apreciariam perder essa galinha de ovos de ouro, o que fatalmente acontecerá se o grupo continuar listado como organização terrorista.” Se, porém, os MEKs forem excluídos da lista de organizações terroristas – como, antes, aconteceu ao INC [Congresso Nacional Iraquiano (CNIq)] de Chalabi –, os MEKs passam a poder receber ‘incentivos’ pagos pelo Congresso dos EUA, e os Rajavis serão automaticamente convertidos a candidatos prováveis à presidência, depois da ‘mudança de regime’ no Irã, com que sonham os EUA.

Há dez anos, Donald Rumsfeld e os neocons estavam de tal modo irmanados com Ahmed Chalabi, do Congresso Nacional Iraquiano (CNIq), que lhe forneceu um helicóptero para que Chalabi e um punhado de apoiadores viajassem até Nasiriya, de modo a aparecerem nas fotografias oficiais da ‘libertação do Iraque’. Mas bastou o helicóptero pousar, para que o mundo soubesse que ninguém, no Iraque, algum dia ouvira falar de Chalabi. E Chalabi foi derrotado nas eleições por outro ex-exilado, Nouri al-Maliki; e teve de contentar-se com o ministério do Petróleo. Até hoje, Al-Maliki lá continua, no Iraque, como sempre foi, dedicado apoiador do governo do Irã. Nada mais distante dos objetivos do golpe dos EUA no Iraque, tão longamente planejado.

Mas os lobbyistas incansáveis que operam em Washington a favor de outros grupos terroristas amigos dos EUA, preferem o lado alegre das histórias. Chalabi, eles concedem, jamais fora o que se supunha que fosse. Mas com os MEKs a coisa agora é diferente. Um coronel aposentado do exército dos EUA, que trabalha em lobbys a favor de grupos terroristas amigos dos EUA, como os MEKs iranianos, costuma escrever que Maryam Rajavi “é um George Washington”.

Os EUA estão a um passo de comprovar, mais uma vez, que não são capazes de aprender com os próprios erros.


 Fonte: IrãNews

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Hugo Chávez anuncia reforço nas Forças Armadas





O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anunciou, em rede nacional de TV e rádio, que o país desenvolve um sistema de aviões não tripulados para trabalhos de supervisão e proteção do território. Ele fez questão de destacar que os equipamentos servirão apenas à defesa do país.

O presidente citou o desenvolvimento e reforço das Forças Armadas, mencionando também o progresso da construção da fábrica de montagem de fuzis AK103, com o apoio da Rússia, que deve produzir 25 mil armas e até 70 milhões de balas ao ano.

"Estamos dando passos muito firmes em direção a esse grande objetivo proposto que é converter a Venezuela em um país potência", disse Chávez, da sede do Ministério da Defesa, onde se reuniu com o Alto Comando Militar, membros das Forças Armadas Nacionais (FAN) e representantes da Milícia Nacional Bolivariana.

O mandatário, por meio de um contato com o general Julio César Morales Prieto, presidente da Companhia Anônima Venezuela de Indústrias Militares (Cavim), mostrou a série de armamentos e munições que estão se fabricando na instalação de Fuzis AK-43AK-43, no estado de Aragua, no centro do país.

Chávez também falou sobre os aviões não tripulados e explicou que eles têm apenas câmeras e servirão para "a defesa de nosso país, para a paz". "Não temos planos para atacar ninguém, mas que ninguém se equivoque conosco. Estamos obrigados a defender com nossa vida a independência de nosso país", afirmou.

Segundo ele, os drones servirão ainda para supervisionar a produção petroleira, as estradas, diques e bosques, por exemplo.

A ABC da Espanha informou nesta semana que promotores americanos em Nova York investigavam a construção de aviões teleguiados da Venezuela e a compra dessas aeronaves do Irã, citando fontes familiarizadas com a investigação."É claro que estamos fazendo isso, e temos direito. Somos um país livre e independente", disse Chávez sobre a construção dos drones.

O presidente disse também que é capaz que, agora, os Estados Unidos digam que é preciso vigiar a Venezuela, porque o país está trabalhando nesse projeto. "É possível, é provável, que dentro de pouco seja divulgado [nos Estados Unidos] que esses aviões têm uma bomba atômica na ponta", completou, falando sobre a política belicista norte-americana.

A construção das aeronaves faz parte da cooperação militar com o Irã, China e Rússia.







Fonte: Vermelho

Comandante Che Guevara - Hasta Siempre

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Hugo Chávez e os cinco objetivos históricos

 

O discurso do presidente Chávez no ato de inscrição de sua candidatura para as eleições do dia sete de outubro deste ano assinala várias diferenças com seu rival, o candidato da oposição Henrique Capriles Radonski. Há um primeiro conjunto de diferenças, assinaladas pela estrutura discursiva e pela capacidade de reunir um conjunto de ideias em um lapso bastante prolongado (mais de três horas). 

 

 

Por Juan Eduardo Romero*


Nesse conjunto de expressões, observou-se um indivíduo que desmente as versões de uma enfermidade terminal. Fisicamente, é inaudito pensar que uma pessoa que esteja –como divulgam os meios nacionais e internacionais- em uma etapa iminente à sua morte possa não somente manter-se de pé discursando, como também que esse discurso tenha unidade temática, coerência e significado.

Ao comparar as inscrições de candidaturas, observa-se não somente uma diferença –evidente- quanto à extensão do discurso (Capriles, uns 22 minutos, incluindo as longas pausas; e Chávez, 180 minutos, sem pausas), há uma diferença mais profunda: a capacidade de transmitir e de conectar-se com a emotividade das pessoas.

No domingo, 10 de junho, observamos um Capriles duvidando na estrutura sintática e gramatical de seu discurso, além dos evidentes vazios conceituais e a suas infrutíferas tentativas de mostrar emoção (Te quero, Venezuela!). Na segunda, 11 de junho, se viu um Chávez conectado, sensibilizado com os coletivos, com seus seguidores. Assistimos a um discurso que demonstra o que expressou o grande pensador francês Michel Foucault: um discurso que é dito, ou seja, um discurso que se reproduz por aceitação ou por rejeição.

Essa reprodução está relacionada a diversos elementos. Um deles é a capacidade de vincular o mundo pessoal – o do ser humano, não o do presidente - com outros mundos pessoais dos grupos de pessoas que o rodeiam. Corresponde a uma capacidade de leitura de certos temas que são considerados essenciais à própria condição humana. Outro elemento evidenciado é a insistência em colocar no campo da discussão cidadã tópicos (lexias) que se relacionam com a vida cotidiana de todos (segurança, emprego, meio ambiente, prosperidade).

Nesse primeiro conjunto de elementos, o balanço é claro: um candidato que dá mostras de coerência enunciativa, paradigmática, com capacidade para manter atento a um público que marchou, que se mobilizou. Nesse conjunto de elementos, ambos candidatos usaram manifestações de natureza física. Capriles, caminhando cerca de 10 quilômetros com o objetivo de mostrar-se tal como é: jovem e dinâmico. Chávez, mantendo-se parado por mais de 180 minutos contínuos. Essas manifestações físicas têm sentidos simbólicos diferentes: para Capriles, trata-se de mostrar que ele é um candidato dinâmico, que dá demonstrações de força em contraste com um candidato –supostamente- enfermo. Por seu lado, Chávez mostrou uma presença física que ridiculariza os rumores, as especulações tecidas pela agenda midiática. Sua presença física gera um efeito tranquilizador nos bolivarianos, que tinham uma dúvida razoável sobre suas condições de saúde.

Há um segundo conjunto de diferenças próprias da própria significação das ideias apresentadas. O candidato Capriles mostrou-se dinâmico –isso ninguém duvida-, porém, carente de profundidade e convencimento em sua estrutura discursiva. Os constantes vazios na articulação do discurso fazem ver um homem que não é capaz de manter uma lógica de significados e significantes em temas que podem sensibilizar aos cidadãos. Ao abordar áreas como segurança, emprego não conseguiu convencer com uma proposta que fosse sentida como conexão aos profundos sentimentos da população. Observamos um discurso que passava de umas ideias –desconectadas, sem sentido- a outras, sem conseguir defini-las com profundidade. Por seu lado, o discurso de Chávez –além de sua extensão temporal- mostrou manter intactas as vantagens de uma liderança carismática e emotiva. Esses elementos permitiram que se conectasse com coletivos que se mostraram preocupados com seu estado de saúde. No entanto, além disso, nesse segundo conjunto de elementos, vimos uma clara definição ideológica. Capriles, por seu lado, mesmo tentando estabelecer comparações, não o fez sobre a base da construção de um "eles” e um "nós” que os colocasse no espectro direita-esquerda, no qual se situam tradicionalmente os cidadãos.


O discurso de Chávez foi emotivo ao mesmo tempo em que se posicionou como um discurso de esquerda, nacionalista e anti-imperialista. A proposta que esboçou sob a ideia de objetivos históricos nos mostra uma perspectiva –ou melhor, prospectiva, por sua visão de futuro- que coloca o processo venezuelano com um amplo sentido histórico; porém, também como uma resposta ante a crise de acumulação –e depredação do sistema capitalista. 


Quando Chávez assinala como prioridade a independência, ou propõe como uma resposta à articulação em rede sob a ditadura do capital, que leva aos Estados nacionais a adaptar-se e acoplar-se às necessidades de acumulação de riqueza do sistema-mundo e que são a base das diferenças na distribuição da riqueza. Da mesma forma acontece com a ideia de construir um modelo de socialismo que se distancie das perversões do socialismo real soviético ou cubano, e outro tanto com a necessidade de transformar o país em uma potência que canalize –e encabece- iniciativas de articulação de esforços grã-nacionais que construam alternativas às formas de controle e espoliação capitalista. Para isso, a contribuição a elaborar alternativas pluripolares, como Unasul, Celac, Alba e Banco do Sul, são uma necessidade histórica.

Para Chávez, um processo como o venezuelano não pode sobreviver sem conseguir levar além de suas fronteiras a proposta de transubstanciação social e cultural. Finalmente, tudo isso conduz à prioridade de conseguir sobreviver às próprias dinâmicas destrutivas da vida, propiciadas a partir da lógica espoliativa do capitalismo. Como conclusão, fomos testemunhas de uma confrontação de ideias que deixou claro quem é quem no campo ideológico.


 

*Juan Eduardo Romero é professor e pesquisador da Universidade do Zulia, Venezuela. Historiador especialista em processos políticos Contemporâneos

Fonte: Adital, Vermelho

Imagem: Google (colocadas por este blog)
Vídeos: Youtube (colocados por este blog)

terça-feira, 12 de junho de 2012

Quem Precisa de Forças Armadas?





Mídia: Carta Capital
Política: Roberto Amaral
Defesa Nacional

Desgastadas política e socialmente com a ditadura (1964-1985), nossas Forças Armadas, desde o governo Fernando Collor, vêm sendo objeto de crescente (e burra) marginalização, que se aprofundou no governo Fernando Henrique Cardoso.

Solícito no atendimento às diretrizes norte-americanas, o segundo Fernando foi diligente na política de tentar confinar nossas Forças em atividades típicas de polícia, como o combate ao contrabando e ao narcotráfico.

Mas , justiça lhe seja feita, deu o pontapé inicial para a criação do Ministério da Defesa, boa ideia que ainda poderá vingar.

Já o governo Luiz Inácio Lula da Silva teve o grande mérito de aprovar a primeira Estratégia Nacional de Defesa com visão própria da inserção do Brasil no cenário geopolítico mundial.

Finalmente, a presidente Dilma Rousseff (embora as Forças Armadas permaneçam cumprindo papel de polícia nos morros cariocas) avança na definição de programa de investimentos em ciência e tecnologia, de especial em tecnologias duais, e na articulação com a indústria aqui instalada, indústria que, em crise, precisa ser encarada como parceira indispensável do programa de nacionalização de armamentos, sem a qual não teremos Forças Armadas dignas do nome.

Afinal, defesa nacional é defesa de que e de quem? Da nacionalidade? De nossos valores? Quais são esses valores, aqueles que unificam o que se pode chamar de povo e nação? Defesa de nosso território? Ou defesa de nossa soberania?

O que é soberania, e qual soberania é possível, num mundo dito globalizado, o qual, embora multipolar, uma multipolaridade de polos assimétricos, conhece a hegemonia econômica, científica e militar do mais forte entre os mais fortes, e os mais fortes são potências nucleares?

No Brasil , o interesse nacional, após a Segunda Guerra Mundial, era ditado pela nossa inserção dependente na Guerra Fria, resolvida pela renúncia da União Soviética, caso único de suicídio de um Estado.

Aquela inserção qualificava nossa política externa e determinava o caráter de nossas Forças Armadas. A saber, simplesmente não precisávamos delas, senão para cuidar da fronteira com o suposto inimigo potencial, a Argentina, pois, do ‘perigo soviético’ nos defenderiam os ‘marines’.

Por consequência, recebendo armamento de segunda linha, prescindíamos do desenvolvimento de tecnologias e produção de armamentos próprios, vedada às nossas forças e à nossa incipiente indústria militar qualquer sorte de transferência de tecnologia.

Para o seu papel subalterno de guardas pretorianos do status quo, ou para intervir no processo democrático, fraturado-o, não careciam de modernidade.

A visão subalterna conheceu o clímax no governo do marechal Castello Branco, quando foi cunhado o infeliz bordão ‘o que é bom para os EUA é bom para o Brasil’.

Os demais governos militares, todavia, incentivaram o desenvolvimento da indústria nacional de defesa, de que são símbolos a Embraer e seu AM-X, estenderam a soberania marítima para 200 milhas, romperam com o acordo militar Brasil-EUA e deram impulso à pesquisa nuclear.

A disparidade entre o poder econômico do Brasil e o dos seus vizinhos elimina do horizonte hoje visível qualquer hipótese de guerra regional, a não ser por procuração, de potência externa, como aliás, no Império sob a hegemonia britânica, foi a imoral guerra contra o Paraguai, e, na ditadura, a intervenção na República Dominicana, atendendo aos interesses dos EUA.

Resta a hipótese de enfrentar inimigo muito mais poderoso, caso em que não caberá a ilusão de enfrentá-lo de igual para igual, senão adotar uma política de dissuasão ao máximo do invasor, desanimando qualquer intento atentatório à nossa soberania.

Em país com as características brasileiras, amante ativo da paz e da boa convivência internacional, o papel de suas Forças Armadas é o de serem capazes de inibir qualquer desrespeito às regras da convivência internacional, de soberania e de autodeterminação.

Dito de outra forma, sabemos que a inexistência de capacidade de defesa, isto é, de força dissuasória, é eficiente estímulo à aventura militar.

Qualquer que seja a política nacional de defesa, ela depende de nosso desenvolvimento econômico, gerador de nosso desenvolvimento científico-tecnológico, gerador de nosso desenvolvimento industrial e não tem e não pode ter política de defesa o Estado que não possui indústria bélica. Quem não produz sua própria tecnologia militar não tem tecnologia alguma.

Está certo e é coerente com nossa história de povo e civilização que o Brasil não seja nem queira ser uma potência militar, mas é pelo menos estranho que renuncie a um sistema de defesa – ainda que
constitucionalmente limitado à dissuasão –, compatível com sua presença continental.


Não há a menor relação, do ponto de vista militar, entre nossas Forças Armadas e as necessidades de nosso país, considerada sua dimensão continental, seu litoral, suas fronteiras, a riqueza de seu mar erritorial, a Amazônia, seus recursos minerais, sua população e a exigência de projeção do poder nacional.

É dramática a fragilidade de nossas Forças Armadas, mas este, lamentavelmente, não é o cerne da questão, porque é impossível pensar em política de defesa, cingindo-se ao ponto-de-vista estritamente militar.

A política de defesa fundamenta-se em elementos culturais e ideológicos, e depende da adesão da cidadania, porque assim como a economia e a diplomacia, guerra é, ao fim e o cabo, uma questão política.

Deserdados da sociedade e da cidadania não formam exércitos de defesa e resistência. Estes carecem da força da população que pretendem defender, e da identificação dessa mesma população com seus objetivos.

As Forças Armadas aptas do ponto de vista tecnológico deverão ser concebidas a partir da vontade nacional e de sua missão no projeto estratégico coletivo; os valores nacionais são oferecidos pela sua
formação de povo, nação e país, pela sua cultura, pela sua história.


Segurança nacional, como tem demonstrado a democracia, é antes de tudo desenvolvimento econômico-social auto-sustentado.

Nosso projeto fundamental, assim o entendo, é ultrapassar a condição periférica, e a estratégia é o aprofundamento da relação Sul-Sul, tendo como ponto-de-partida a América do Sul, onde já desfrutamos de posição destacada.

A partir daí, utilizando esse ponto de apoio, aprofundar seu relacionamento com os países africanos, a começar pelos países da lusofonia, mas a eles não se limitando.

Nosso objetivo estratégico deve ser abreviar o parto da história.

O projeto nacional é tributário e servidor do papel que estamos dispostos a desempenhar na America do Sul e no hemisfério e sua articulação considera a consciência do que somos e a decisão do que
queremos ser.


Queremos ser um modelo alternativo de desenvolvimento auto-sustentável, democrático, solidário, progressista; uma sociedade harmônica e igualitária, aberta ao convívio amistoso de todas as crenças e etnias, amante da paz e da liberdade.

No plano continental, o projeto desse novo Brasil está comprometido com:

- a democracia e os regimes representativos;

- a desnuclearização de nosso continente de par com a exigência do fim de todos os estoques de armas nucleares e de destruição em massa;

- a proteção e fortalecimento de nossas culturas nacionais;

- a articulação econômica, cultural e política entre nossos povos;

- a proteção de nossas economias, a promoção do desenvolvimento e a distribuição de renda como ponto de partida para a superação das desigualdades sociais e construção futura de uma sociedade sem classes;
- a proteção de nossas matérias primas, de nossos recursos naturais e de nossas fronteiras;
- o desenvolvimento em comum polos de ciência e tecnologia; e

- a latinidade como valor estratégico.

Finalmente, nosso compromisso é o de assegurar a paz e a não-intervenção nos assuntos internos de outros países, e, em particular, a intervenção estrangeira no hemisfério.

Ao fim e ao cabo: é preciso virar a página. Não podemos sacrificar nossas necessidades atuais em razão de traumas de há 30-40 anos.

É preciso serviço de inteligência, e é preciso política de defesa. Sob a égide da Constituição de1988, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) nada tem a ver com o Serviço Nacional de Informações (SNI), e o papel das Forças Armadas é e deve ser distinto daquele da longa noite da ditadura.

Essa é a exigência do Estado democrático que, aos trancos e barrancos, conseguimos construir e buscamos fortalecer.

*Comentário:* Defesabr

De acordo com o Wikipedia, Roberto Átila Amaral Vieira nasceu em Fortaleza, em 24 de dezembro de 1939, é jornalista, professor e político, tendo sido ministro da Ciência e Tecnologia no início do
governo Lula.


Ele resume a história recente das Forças Armadas até os sacrificados dias atuais, em que são colocadas de lado por um grupo político rancoroso e ainda tem um deles como ministro da Defesa para tratar de certas comissões.

Que as Forças Armadas não atendam mais a um dado aspecto político da nação é compreensível, mas vê-las fragilizadas ao ponto de não poderem responder às necessidades mínimas que a Constituição lhes outorga é um grave problema, que o Executivo tem que ser chamado pela sociedade a responder por que e até quando.

É preciso tentar compreender e analisar o que Roberto Amaral vê como projeto fundamental da Nação ser “ultrapassar a condição periférica” e a estratégia ser “aprofundar a relação Sul-Sul”, porém compartimentado no globo a um limite entre a América do Sul e a África. Ter como objetivo estratégico “abreviar o parto da história” parece ainda mais um enigma político.

Entendo que, qualquer que seja o projeto nacional escolhido pela sociedade, precisamos sim saber o que somos hoje e decidir o que queremos ser amanhã.

Mais que isso, precisamos também olhar com preocupação e prevenção um mundo perigoso, temeroso, instável e em época de enorme mutação. O mundo é simplesmente imprevisível.

Vejamos, então:

No Brasil, estamos no limiar de um Pré-Sal que já está refém dos mais escusos sonhos da classe política, enquanto o honesto seria haver um planejamento de agregação de valor desse rico petróleo para o país poder aplicar um grande  projeto de educação, o que terá que acontecer de um modo ou de outro.

Queremos ser um povo rico, educado, inovador, avançado, e sempre alerta ao mundo.

No exterior, temos o hemisfério norte em via de duas crises, vindo primeiro a econômica e, em seguida, a política, que deverão ressuscitar radicalismos que o mundo pensava estarem extintos.

A Europa, os  EUA e parte da Ásia, principalmente, enfrentarão épocas absolutamente caóticas pouco à nossa frente, talvez mesmo a partir desse ano de 2012.

A China, por outro lado, também sofrerá grandes perdas em seu modelo exportador, por ausência de demanda dos atores acima. O problema é saber o que isso causará ao ânimo de sua classe dirigente e para onde ela fará o país se expandir, militarmente, o que é certo que irá acontecer.

Portanto, se quisermos mesmo ser um povo alerta ao que acontecerá ao mundo, será preciso começar por entender que mesmo os melhores paradigmas atuais em termos de Defesa ainda são muito humildes frente a inimigos que poderão vir de várias fontes em busca de dominação das melhores riquezas do planeta, aqui abundantes.

Então, queremos ser um povo rico, educado, inovador, avançado, e sempre alerta ao mundo. Para defender nossa soberania, queremos por prevenção dispor de Forças Armadas ampliadas, equipadas, treinadas, eficazes, motivadas e com capacidade dissuasória absoluta em toda parte.

Se você quiser saber como se faz isso, comece por aqui: DEFESA BR –ABERTURA

No discurso de posse que não houve, o presidente Tancredo Neves resumia o seu pensamento sobre Defesa e nossas Forças Armadas :

“Sua responsabilidade será cada vez maior, com o esperado crescimento da cobiça internacional sobre os nossos recursos naturais, e considerando-se a extensão das nossas lindes.

Ao heroísmo, e à abnegação de nossos soldados, devemos acrescentar os indispensáveis meios de combate.

O adestramento militar possibilita a eficiência da bravura, e os equipamentos modernos de luta são necessários ao bom desempenho dos exércitos. 

Temos de preparar as nossas Forças Armadas para qualquer hipótese de agressão externa”.


*Roberto Silva* do Blog DefesaBr





Fonte: DefesaBr



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