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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Uma Casa da Rússia no Oceano Índico




Os tijolos para construir a histórica visita que o presidente Vladimir Putin da Rússia (foto) fará ao Paquistão em setembro já começaram a chegar a Islamabad. É momento de máxima importância na história e na política regionais. Será a primeira vez que um presidente russo visitará o Paquistão, desde que o país nasceu, em 1947.
Os russos estão produzindo tijolos muito resistentes para a casa que esperam erguer na região que é cabeça de praia no Oceano Índico – mansão suficientemente grande para receber os amigos dos russos, do Paquistão e dos países vizinhos, Índia, Irã e Afeganistão, que queiram conviver com os russos.

Mas... os EUA enfureceram-se, à mera visão dos tijolos russos. O ponto é que essa Casa da Rússia estará plantada no meio da estrada, sobre a Nova Rota da Seda que os EUA vêm planejando, e que tem de atravessar o Paquistão. Se o acesso ao Paquistão ficar bloqueado, será extremamente difícil para os EUA manter unidos o corpo e a alma das dezenas de milhares de soldados que os EUA esperam manter alocados no Hindu Kush e na Ásia Central, feito neopioneiros no “Oeste Selvagem” da Xingjiang chinesa e no “baixo ventre macio” da Rússia.

Em resumo, a batalha começou, pelo controle sobre o futuro do Paquistão. Há muitos interessados, e a luta à frente ameaça ser duríssima, porque no coração da disputa estão inúmeras outras questões, todas com consequências profundas na política mundial – segurança no campo da energia das duas grandes usinas da Ásia (China e Índia); o futuro do Novo Oriente Médio; e, é claro, a estratégia dos EUA para ‘conter’ Rússia e China. 
 
Moscou escalou diplomata talentoso e de vastíssima experiência, para visitar o Paquistão em maio e avaliar o terreno. É homem de cuja reputação se fazem as lendas nas montanhas do Hindu Kush – embaixador Zamir Kabulov, principal homem da Rússia no Afeganistão. Ao escalar Kabulov, Moscou declara também, gentilmente, a amplidão de suas intenções no que tenham a ver com o projeto arquitetônico: a nova mansão russa terá ares de Afeganistão.

Imediatamente depois da visita de Kabulov, os especialistas russos começaram a desembarcar no Paquistão. Trazem propostas de alta significação para a segurança e a estabilidade regionais. Moscou demarcou a questão da cooperação no campo da energia, como o fulcro da nascente cooperação com Islamabad.

Ressurge uma ideia de seis anos passados...

É decisão arguta de Moscou, porque a segurança no campo da energia é questão-chave na economia política do Paquistão, não menos importante que o terrorismo. Grandes áreas do Paquistão só têm hoje poucas horas diárias de eletricidade; e a ira popular é visível. Moscou avaliou que a segurança energética é parte essencial da capacidade do Paquistão para preservar sua “autonomia estratégica” e o status de potência sul-asiática; portanto, ao oferecer ajuda ao país nessa área, os interesses geopolíticos russos em vastas porções do Oriente Médio Expandido – do Golfo Persa à Região Autônoma de Xinjiang na China –, estarão também sendo promovidos.

Além disso, em termos imediatos, entender-se com o Paquistão está-se convertendo em imperativo para os russos, no cenário afegão pós-2014, depois de as potências ocidentais terem completado a ‘retirada’, mas quando ainda haverá ali presença militar não desprezível, sem fim previsto, de dezenas de milhares de soldados.

Rússia e Paquistão estão juntos na oposição à ocupação de longo prazo do Afeganistão, pelo ocidente: a Rússia espera influenciar as políticas paquistanesas relacionadas ao futuro do Afeganistão; por sua vez, a cooperação com o Paquistão amplia a resiliência russa total para desempenhar papel efetivo na estabilização do Afeganistão e na oferta de segurança na Ásia Central; e, do mesmo modo, um relacionamento forte com Paquistão – no campo da segurança energética, sobretudo – pode garantir aos russos mais um gancho nos laços estratégicos com outras potências regionais chaves, especialmente China, Índia, Irã e Arábia Saudita.

Por fim, mas não menos importante, o Paquistão é valioso interlocutor para os russos, no que tenha a ver com atividades e movimentos dos militantes que operam no Cáucaso Norte.

Tudo isso posto, a Rússia sopesa cuidadosamente suas opções e é avessa a embarcar em aventuras à moda da era soviética que se possam converter em drenagem de recursos. A prioridade dos líderes russos é regenerar e inovar a economia e construir força nacional; e, no caso do Paquistão, Moscou estima que aí se possa construir uma interessante parceria, de alto valor econômico para a Rússia benefício para os dois lados.

Tudo considerado, a estratégia de Moscou é desenvolver novos músculos de cooperação com o Paquistão, que sejam sustentáveis, duráveis e que operem em harmonia com as vibrantes parcerias estratégicas da Rússia com a China, a Índia e o Irã.

Dito em outros termos, a abordagem russa provê um necessário “ajuste” político-regional, ou, mesmo, é pré-requisito à iminente admissão de Paquistão e Índia como membros-plenos da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)].

Putin é estadista orientado para a ação. A parte triste é que se passaram seis longos anos desde que, pela primeira vez, o mesmo Putin propôs, na reunião da OCX em junho de 2006, a criação de um clube de energia dentro do grupo regional, no qual se reunissem os países produtores (Rússia, Irã e os países da Ásia Central) e os três grandes consumidores (China, Índia e Paquistão) de energia.

Naquela mesma reunião da OCX, Putin anunciou, pela primeira vez publicamente, que a empresa-leviatã da energia russa, a Gazprom, desejava participar da construção do gasoduto Irã-Paquistão-Índia, IPI. Em sua fala em 2006, Putin disse que “A Gazprom está pronta a participar e a prover assistência técnica e, se necessária, também assistência financeira; e estamos prontos a oferecer quantidades consideráveis de uma e outra, sobretudo para projeto que com certeza decolará.”[1]

A ideia de Putin é que os exportadores de petróleo e gás dentro da OCX sempre competiram por mercados promissores (como China ou Índia); para coordenar os próprios movimentos, a OCX carece de um clube de energia, que atuará como centro de coordenação, aproximando os produtores de energia e aqueles três consumidores chaves.

Outro importante ator na Ásia Central que até agora se manteve fora da OCX é o Turcomenistão – e chega a soar estranho falar em clube de energia na região, que não inclua tão poderoso produtor de gás, como o Turcomenistão. A Rússia tem algumas disputas de gás com o Turcomenistão – país com o qual, contudo, a China mantém relacionamento caloroso no campo da cooperação energética.

Desenvolvimento de alta significação, pouco noticiado, foi que o presidente chinês Hu Jintao convidou o presidente turcomeno a visitar Pequim, mês passado, quando da reunião da OCX –, convite aceito. Basta para ver que a China está interessada em harmonizar suas políticas regionais com a Rússia e pode até ajudar Moscou em seus esforços para coordenar os impulsos da segurança energética entre e com países membros e países observadores da OCX.

Detalhe surpreendente é que as propostas que os especialistas russos trouxeram a Islamabad semana passada retomam, na essência, as linhas centrais daquela proposta de Putin em 2006. Considerados os detalhes já conhecidos até agora, são as seguintes as propostas que Moscou está trazendo a Islamabad:

– A Rússia pode oferecer assistência financeira e técnica aos projetos multibilionários de importação de gás e energia para o Paquistão (o gasoduto).

– Especificamente, a Rússia tem interesse em participar dos dois grandes projetos de oleogasodutos na área, a saber, o TAPI (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia) e o IP [Irã-Paquistão].

– A Rússia prefere que a cooperação seja negociada no nível governamental, em negociações diretas (não em concorrências).

– A Rússia também deseja participar no projeto Ásia Central e Sul da Ásia (ACSA) [orig. Central Asia and South Asia (CASA)], originalmente aventado em 2006, para levar ao Paquistão, por linhas de transmissão que cruzarão o leste do Afeganistão, 1.000-1.300 megawatts de energia extra, nos meses do verão, a partir do Tadjiquistão e Quirguistão (projeto que tem o apoio do Banco Mundial e do Banco Islâmico de Desenvolvimento [orig. Islamic Development Bank].

– A Rússia está disposta a cooperar na exploração de petróleo, gás e minérios no Paquistão.

Não surpreendentemente, Islamabad apressou-se responder às propostas russas. Até agora, já há entendimentos, acertados nas primeiras conversações, concluídas em Islamabad na 4ª-feira:

– O Paquistão acolhe com bem-vindas as propostas russas. Especificamente, o Paquistão é favorável a negociar contratos com as empresas estatais russas de energia em contatos diretos governo-a-governo; e está disposto a adaptar a legislação vigente, para viabilizar esse processo.

Serão tomadas as providências necessárias para concluir um memorando de entendimento  que viabilize, durante a visita de Putin ao Paquistão, o processo de fazer avançar os projetos identificados: 

–  Sobre o oleogasoduto IP, o Paquistão já fez contato com os interessados nos contratos para construir o oleogasoduto (obra estimada em US$1,5 bilhão). A Gazprom russa também participará. O Paquistão tem especial interesse em propostas que tragam, atachado, o pacote de financiamento. (China e Irã também manifestaram interesse em participar desse projeto.)

Até meados de julho, o Paquistão encaminhará à Rússia, para estudo, um rascunho de acordo para assistência técnica e financeira a ser recebida dos russos, com vista ao projeto IP.

– A Rússia aceitou financiar os trabalhos de recuperação das usinas de energia de Guddu e de Muzaffargarh...

... O que enfureceu deus-todo-poderoso

Todos esses desenvolvimentos são desafio audacioso, frontal, às estratégias regionais dos EUA na Ásia e no Oriente Médio. As ramificações vão muito, muito longe.

Em primeiro lugar e a mais importante: vê-se a ‘defecção’ do Paquistão, que abandona o campo ocidental, sim. Mais que isso, contudo, o movimento dos russos aproxima-se muito, muito, de golpe “incapacitante” contra a Iniciativa Nova Rota da Seda dos EUA, pensada para conter a influência de russos e chineses na Ásia Central. Como se não bastasse, os sonhos dos EUA, de chegar aos vastos recursos minerais da Ásia Central e do Afeganistão sofrem, aí, um rude golpe.

No plano prático, a geografia do Paquistão foi a base das estratégias regionais dos EUA no Afeganistão e na Central Asia; sem a cooperação do Paquistão [pensado como não russo e não iraniano], nenhum elo de comunicação poderá ser mantido com aquelas regiões; e isso, por sua vez, ameaça ‘existencialmente’ os planos para estabelecer presença permanente de militares dos EUA e da OTAN na região que é “o coração da Eurásia”.

De fato, a segurança no campo da energia é o calcanhar de Aquiles da economia política do Paquistão e debilita a capacidade do Paquistão para desenvolver autonomia estratégica que proteja seus interesses vitais; na direção oposta, o atual déficit agudo de energia torna o Paquistão muito vulnerável a pressões dos EUA. Daí que a mão russa amiga, ainda que movida por autointeresses, terá sérios efeitos geopolíticos sobre as estratégias regionais dos EUA, uma vez que a Rússia trabalha para dar mais independência e resiliência ao Paquistão, criando espaço para que o país atravesse um estreito corredor de tempo, particularmente difícil e tormentoso, ajudando o Paquistão a sobreviver a vasto conjunto de ameaças existenciais.

Mais uma vez, a reunião de países que produzem e países que consomem energia na Ásia é o cenário de máximo pesadelo para os EUA, que temem ser excluídos da matriz de cooperação regional de países locais, onde se reúnem as economias que mais crescem no planeta. Toda a estratégia dos EUA no período pós-soviético visou a evitar essa eventualidade catastrófica, que tornaria impossível para os EUA se integrarem “no coração da Eurásia” – onde está impressionante seleção das maiores potências das próximas décadas: Rússia, China, Cazaquistão, Índia, Paquistão e Irã. (A possível admissão da Turquia como “parceiro para o diálogo” da OCX – por sugestão da China, na reunião da organização em Pequim, mês passado – também enerva terrivelmente os EUA.) 

De fato, outras várias questões também surgem. Os movimentos russos no Paquistão efetivamente contornam e neutralizam as políticas dos EUA para isolar o Irã. No caso de eclodirem hostilidades entre EUA e Irã, Washington enfrentará isolamento quase total na região entre o Golfo Persa e o Estreito de Malacca. Por outro lado, o projeto do oleogasoduto Índia-Paquistão (que parece ser prioritário tanto para a Rússia quanto para a China) terá impacto devastador na política dos EUA para o Irã, porque multiplicará várias vezes as capacidades estratégicas do Irã. Os EUA terão de considerar que é questão de tempo, para que a China seja conectada ao oleogasoduto IP. Esses laços comunicacionais efetivamente ajudam a China a reduzir sua dependência do Estreito de Malacca.

O pior de tudo: Washington não tem segurança de como a Índia abordará a mudança geopolítica emergente que a Rússia está pondo em movimento. Índia e Rússia tradicionalmente gozam de confiança e confiabilidade mútuas. Índia e Irã também têm laços fundamentalmente fortes, que resistiram à pressão dos EUA. A Índia está trabalhando independentemente a favor da normalização de suas relações com a China; e os dois países conseguiram avanços consideráveis nessa direção. (Curiosamente, as empresas estatais indianas e chinesas do setor de energia acabam de concluir um memorando de entendimento, segundo o qual se comprometem a não contestar as propostas umas das outras, em outros países, e a cooperar entre elas, inclusive nos respectivos setores domésticos.) 

Mais importante, a segurança energética está tornando-se preocupação crucial para os líderes indianos, com a economia em rápida expansão e a cada vez mais presente necessidade de garantir acesso, a preços razoáveis, a fontes de energia, convertendo-se em paixão obcecada das políticas externas da Índia. (O ministro de Assuntos Externos da Índia, S M Krishna embarca para o Tadjiquistão, fonte da energia para o Projeto ACSA, na 3ª-feira.)

As opções diplomáticas e político-militares dos EUA para conter os movimentos dos russos no Paquistão concentram-se principalmente sobre a via de influenciar as políticas do Paquistão e da Índia. Os EUA buscam uma abordagem mista para o Paquistão, alternando sinais soft e um pouco mais de músculos, que já começa a assumir vagos sinais de ameaça. Recentemente, tudo levava a crer que os EUA apresentariam, em junho, alguma espécie de pedido de desculpas pelo massacre de soldados paquistaneses num ataque militar dos EUA em novembro passado, na fronteira Afeganistão-Paquistão, depois de o Paquistão reabrir o trânsito para passagem, por seu território, dos comboios da OTAN.

Mas, depois das confabulações russo-paquistanesas, os EUA endureceram. Aconteceu mais um ataque na 2ª-feira contra soldados paquistaneses (18 dos quais foram brutalmente degolados) por grupos militantes de origem obscura que operam a partir de “paraísos seguros” dentro do Afeganistão. Não se requer grande argúcia para ver que as forças dos EUA no Afeganistão preferem não ver o que esses militantes fazem bem debaixo de seus narizes. (Esses “paraísos seguros” de militantes, curiosamente, correspondem exatamente à região pela qual passarão as linhas de transmissão do Projeto ACSA, que partem do Tadjiquistão.)

Seja como for, na quarta-feira, o comandante dos EUA no Afeganistão, John Allen, esteve no quartel-general do Paquistão em Rawalpindi, para propor ao comandante do exército paquistanês, Parvez Kayani, que os dois lados engajem-se em “operações conjuntas” contra os militantes que operam na fronteira Afeganistão-Paquistão.


Vai virar jogo de gato e rato. Os sinais são péssimos. Os incansáveis ataques dos
drones nos últimos meses desestabilizaram as áreas tribais paquistanesas adjacentes à fronteira com o Paquistão. Os drones têm provocado muitas mortes de civis, a ponto de funcionários da ONU começarem a considerar a possibilidade de classificar essas matanças ‘fantasma’ como “crimes de guerra”.

Os ataques dos drones  enfurecem a população das áreas tribais e disparam sentimentos antigoverno, enquanto Islamabad parece impotente para impedir que os EUA violem a integridade territorial do país. Muito obviamente, o Paquistão está cedendo; e os EUA não permitirão que isso continue. Tudo indica que os EUA aumentarão a pressão sobre o Paquistão e subirão calibradamente as tensões.

Uma mudança de paradigma

O xis da questão é que o “desafio estratégico” do Paquistão colheu de surpresa os EUA. Os EUA sempre contaram com a mentalidade comprador  das elites paquistanesas e, agora, de repente, foram apanhados no contrapé, ao descobrir que aquelas mesmas elites (as lideranças militares, sobretudo) já não são exatamente o que os EUA supunham que fossem.

Claro, essa é perspectiva viciada e na raiz dela está baixa disposição, de Washington, para construir avaliação honesta de porque houve, afinal, essa mudança de paradigma. Os EUA não precisarão procurar muito longe para perceber as complexidades. A mais recente pesquisa divulgada pelo Pew Global Attitudes, na 4ª-feira, mostra que 74% dos paquistaneses “odeiam” os EUA; o presidente Obama alcança índices excepcionalmente baixos de popularidade. Não por acaso, o político paquistanês atualmente mais popular é Imran Khan (70% de aprovação), cujo principal item de campanha eleitoral é que o Paquistão afaste-se da guerra do Afeganistão e exija que as tropas dos EUA façam as malas e deixem a região, por bem, com seu maquinário de guerra.

Os EUA enfrentam desafio mais complexo em relação à Índia. Washington teve a audácia de elogiar Nova Delhi recentemente, ao falar da Índia como “engrenagem” das estratégias norte-americanas na Ásia-Pacífico. Para desconsolo dos EUA, a resposta da Índia, até agora, foi um ensurdecedor silêncio, ao mesmo tempo em que o país afasta-se de qualquer ‘arranjo de gangue’ contra a China. Por outro lado, cresce a massa crítica indispensável para a normalização das relações sino-indianas. Igualmente, a Índia tem-se atentamente dedicado a proteger seu processo de diálogo com o Paquistão, contra as vicissitudes do impasse EUA-Paquistão. Mesmo em relação ao Irã, a Índia traçou limites que não serão ultrapassados e deixou claro que não será manipulada – e já se veem sinais de que Washington, afinal, entendeu.

Tudo isso posto, os EUA dedicar-se-ão a intrometer-se no diálogo Índia-Paquistão e tentarão desviar o foco, para que se abordem as questões altamente emocionais do apoio do Paquistão ao terrorismo e aos ataques dos fidayeen em Mumbai em novembro de 2008, que arranharam profundamente a psique dos indianos e levantaram novas suspeitas quanto às intenções do Paquistão.

Sobre segurança no campo da energia, os EUA têm encorajado a Arábia Saudita a ajudar mais generosamente a Índia, na esperança de encorajá-la a reduzir sua dependência do petróleo iraniano e, em termos gerais, para afastar a Índia do projeto do oleogasoduto IP. Em termos ideais, Washington buscará um abraço triplo, que aproxime EUA, Índia e Arábia Saudita, para manter os indianos longe das tentações de um clube de energia gerido pela Organização de Cooperação de Xangai.
Mas longe vão os tempo em que os EUA sabiam como os demais países reagiriam. Washington está insegura. Os indianos também têm preferências e uma queda para calar os próprios pensamentos, ao mesmo tempo em que começam a tomar decisões independentes sobre como alcançar sues objetivos nacionais, em cenário regional complicado. 


[1] Há matéria sobre isso em 21/6/2006, em http://en.rian.ru/analysis/20060621/49855458.html [NTs].
Tradução: Vila Vudu
Fonte: Irã News

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A Otan mata a liberdade de expressão



Por Thierry Meyssan 
 

"Os países da Otan estão a levar a cabo uma guerra de informação contra a Síria e, por vezes, eliminam fisicamente jornalistas sírios", afirmou à rádio Voz da Rússia o jornalista françês e diretor do portal de informação independente Rede Voltaire, Thierry Meyssen.

"Os EUA e a OTAN organizam sistematicamente a destruição da mídia indesejável. Eles são os piores inimigos da liberdade de expressão. Isso já aconteceu na Iugoslávia, no Afeganistão, no Iraque e na Líbia", destaca Meyssan na entrevista.

 Nos últimos meses, a CIA criou vários canais televisivos para substituir os canais nacionais sírios. Foram montadas cenas fictícias, filmadas em estúdios e que se destinavam a desmoralizar completamente a população do país.

 "O embuste foi descoberto e a informação sobre o sucedido circulou em centenas de sites de internet e na mídia". Como consequência, a empresa de telecomunicações por satélite MilSat se recusou a desligar o satélite dos canais sírios e a Liga dos Estados Árabes foi obrigada a se abster de agir em conjunto com o operador de satélites Arabsat.

 Entretanto, o ministro russo das Relações exteriores, Serguei Lavrov incluiu na agenda de trabalho do grupo de contato para a Síria um ponto sobre o abandono do recurso à guerra de informação pelas partes em confronto.

 A Otan decidiu retaliar e foi enviado um comando contra a estação de televisão síria, situada a vários quilômetros de Damasco.

 Só lá estavam quatro guardas e os comandos, equipados com aparelhos de visão noturna, introduziram-se no edifício, mataram os guardas e executaram no local três pivôs dos noticiários.


 Depois disso, eles fizeram explodir os edifícios. "Já há 20 anos que a Otan e os EUA utilizam essa tática. E são as mesmas pessoas que se apresentam como defensores da liberdade de expressão! O mundo está de pernas para o ar! Os jornalistas não podem trabalhar! Se um país não tem os meios de autodefesa adequados, qualquer um de nós está em perigo", denuncia Meyssan.

 Durante os primeiros seis meses de 2012, morreram 72 jornalistas no mundo, assinala o relatório da organização não-governamental Press Emblem Campaign com sede em Genebra.

 Esse número é superior em um terço aos indicadores do ano passado. O primeiro lugar nessa lista trágica é ocupado pela Síria, onde desde o início do ano foram mortos 20 jornalistas.


 


Fonte: Portal Vermelho, com informações da Voz da Rússia
Imagem: Google

As forças da natureza

"Escutei a música e me lembrei do guerrilheiro canino e seu canivete. Mais uma obra prima de Paulo César Pinheiro e seu parceiro João Nogueira. Versos magistrais na voz da maravilhosa Clara Nunes. Embora compostos na época da ditadura, são mais do que atuais, parecem narrar episódios que estão por vir."






Agradecimento: Ao amigo Walner

terça-feira, 3 de julho de 2012

EUA oferecem Boeing 747-800 novinho de presente para Dilma




EUA oferecem 'Air Force One' para levar licitação da FAB

Fonte da Aeronáutica disse que, para vencer concorrência francesa, americanos estão dispostos a incluir, sem acréscimos, um Boeing 747-800 novinho para Dilma, igual ao usado pelo presidente americano

A demora do governo para definir a compra de 36 aviões de combate e a forte concorrência dos franceses Rafale, fizeram os Estados Unidos melhorar a proposta para vender ao Brasil seus caças F/A-18 Super Hornet, da Boeing. Segundo informações de Claudio Hulberto, fonte da Aeronáutica disse que os americanos estão dispostos a incluir, sem acréscimos, um Boeing 747-800 novinho para uso da presidente Dilma.

Popularmente chamado de “Jumbo”, é igual ao "Air Force One" usado pelo presidente americano.

Segundo informações do colunista, o Boeing 747-800 voa a 913km/h e tem autonomia de 14.815 km, mais que a distância Brasília-Sydney (Austrália), que é de 14.127km.

Para substituir a frota da FAB em 2016, por US$ 10 bilhões, concorrem também o Rafale da francesa Dassault e o Gripen NG, da sueca Saab.



Fonte: brasil247

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Depois do golpe em Honduras e agora no Paraguai, os imperialistas oferecerem um presente desse a presidente Dilma, é motivo suficiente para desconfiar.

Será um avião mesmo, ou um cavalo de tróia??? 

(Burgos Cãogrino)





Excelente estatística sobre o Irã x EUA

Para os que ainda colocam tapetes vermelhos à determinadas visitas que chegam em nosso país, (inclusive com bandinha de música), e se organizam para repudiar outras, aqui está uma breve estatística que não só o Brasil, mas que o mundo deveria melhor conhecer e investigar.

Afinal, o que acontece hoje em dia, com a lavagem cerebral que a mídia do pentágono faz, é justamente a inversão de valores, ou pelo menos, não dão o devido valor a quem de direito!

 

 
Fonte: navalbrasil

É possível controlar a corrida armamentista?




Por Christiane Marcondes

Sabe-se que o comércio de armas é um setor blindado às crises. Os fabricantes de armamento ganham bilhões de dólares por ano com a venda de tanques de guerra, revólveres, balas e aviões de caça. O próspero setor possui regras próprias já há centenas de anos, consolidadas durante o século 20 e as suas inúmeras guerras, principalmente as mundiais.

Nesse contexto, a negociação pró-contenção armamentista dos países-membros da ONU, que teve início nesta segunda-feira (02/07), em Nova York, parece infrutífera. O encontro objetiva definir as metas de um tratado de controle do comércio armamentista no mundo. Seus pontos mais relevantes são: suspensão de fornecimento de armas a regiões de crise ou em conflito; proibição de exportação de armas quando as mesmas forem usadas para violar os direitos humanos ou quando o fornecimento coloca em risco o combate à pobreza e o desenvolvimento econômico.

 Sem dúvida, os conflitos armados que ocorrem ao redor do mundo precisam de um freio, já que são os civis, principalmente, que pagam a conta desses ataques com a própria vida e o imperialismo faz, assim, a sua escalada com essas mortes encomendadas. Sob essa ótica, o projeto é bem-vindo.

 O que lhe tira o mérito é a sua justificativa míope e parcial. A ONU alega que o mercado fornece “a ditadores e seus opositores o que eles precisam para oprimir populações ou fazer guerras. Um exemplo atual é a Síria: o regime Assad só consegue continuar reprimindo seus opositores graças às importações de armas da Rússia”, enfatiza.


 Tendo-se em conta que quem maneja essas armas contra os “ditadores” – na verdade, chefes de estado, segundo a população sob sua régia – são mercenários pagos por governos desenvolvidos para invadirem e assumirem o comando de países do seu interesse político ou econômico, por exemplo, os do Oriente e os da América Latina, quem se beneficiará com essas medidas de contenção serão os países imperialistas.

 Sem dúvida, o tema que a ONU colocou na berlinda merece atenção, mas em uma abrangência de discussão muito mais ampla, afinal, nas situações bélicas os “mocinhos e bandidos” não são vistos do mesmo modo pelos diferentes tipos de governos. Principalmente, os conflitos recebem diferentes avaliações de correntes políticas imperialistas e antiimperialistas.

Critérios

 Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU -- EUA, Rússia, China, França e Reino Unido – são todos grandes exportadores de armas. Esses pedem que os critérios para o controle sejam “humanitários”.


 A China opõe-se a decisões baseadas nos “direitos humanos", explica Simone Wisotzki, da ONU. Justificável: trata-se de critérios vagos e facilmente manipulados.
 

Já os EUA, segundo Wisotzki, exercem "um papel ambivalente" neste contexto, principalmente no que diz respeito à submissão do controle de munições e armas de pequeno porte às Nações Unidas.

 Katharina Spiess, da Anistia Internacional, acredita que os grandes exportadores de armas têm interesse em regras internacionais para o setor. "Já temos regras de controle do comércio de armas em âmbito regional. Na União Europeia, por exemplo, há desde 2008 uma 'cláusula comum' que proíbe a transferência de armas quando há violações de direitos humanos. Os EUA também conhecem tais regras", completa Spiess.

 Consenso

 Os 193 países-membros da ONU estão reunidos em Nova York para negociar sobre o assunto, embora o prazo de quatro semanas seja muito curto para se chegar a um acordo, observa Simone Wisotzki. Na opinião dela, é possível que o documento fique cada vez menos consistente devido à necessidade de chegar a qualquer custo a um consenso.


Para quem observa criticamente e à distância, consenso, nesse debate, assemelha-se muito mais a um horizonte inatingível do que a real possibilidade de trilhar os primeiros passos na direção da paz possível e desejada por movimentos humanitários e sociais.




Fonte: Vermelho
Imagem Google

Império Americano começa a desmoronar - Parte II



Oito mil trabalhadores do setor energético são suspensos nos EUA

O consórcio energético nova-iorquino Consolidated Edison suspendeu hoje oito mil trabalhadores em meio a um conflito sindical e quando uma forte onda de calor açoita o norte dos Estados Unidos.
 

A mais importante empresa de fornecimento de energia elétrica no estado de Nova York, com uma planilha de 15 mil funcionários e 3,2 milhões de clientes, ativou uma equipe profissional de emergência para atender as mais urgentes necessidades dos usuários.

  
O conflito chegou a seu clímax neste domingo quando a junta diretora da corporação não conseguiu um acordo com a Utility Workers Union relacionado às demandas de pagamento por horas extras e renovação de contratos semanais.

 A maioria dos trabalhadores suspensos são funcionários que realizam leitura de relógios digitais e, embora não estejam formalmente demitidos, não poderão reivindicar salários adicionais nem regressar ao trabalho até que se atinja um novo acordo empresarial.

 Autoridades de Maryland, Virgínia Ocidental, Ohio, Virgínia e Washington reconheceram que poderiam levar vários dias para restabelecer a eletricidade em zonas açoitadas por violentas tempestades no final da semana passado.

 Os tornados, combinados com altas temperaturas extremas, mataram pelo menos 16 pessoas nos últimos seis dias e deixaram na escuridão três milhões de usuários principalmente na região nordeste do país.

 Na sexta-feira passada, uma faixa de ventos de até 128 quilômetros por hora derrubou dezenas de árvores que bloquearam estradas e deixaram sem energia, serviços de Internet e telefonia celular milhares de estadunidenses nos mencionados estados.



Fonte: Prensa Latina

Militar israelense agride criança palestina



Nesta segunda-feira (2), o jornal israelense Haaretz publicou em seu site o vídeo de um policial de fronteira israelense chutando um garoto palestino em Hebron.

De acordo com o jornal, o incidente ocorreu na última sexta-feira (29) na cidade palestina, vizinha de Jerusalém. O garoto que aparece nas imagens, de nove anos, foi identificado pelo Haaretz como Abed a-Rahman. Veja o vídeo:






As imagens foram feitas pela ONG B’Tselem. De acordo com a organização, o vídeo foi feito por um voluntário em Hebron. Dois militares são vistos no local, armados e uniformizados. Eles esperam pelo garoto, que sai de um beco perto da casa dele. Em seguida, um dos homens segura o menino, o atira ao chão e pergunta: “Por que você está causando problemas?”

A criança começa a chorar. Na sequência, um segundo militar se aproxima e chuta o menino, que depois é visto saindo do local. A ONG disse, segundo o Haaretz, que vai denunciar os militares.




Fonte: Vermelho



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Assassínos e agressores de um povo que se diz  escolhido por DEUS???



Que DEUS é esse que permite que seu "escolhido" povo  maltrate  crianças???



Até quando o mundo vai permitir isso???












domingo, 1 de julho de 2012

Império Americano começa a desmoronar





Cidade da Califórnia entra em bancarrota: o mundo já não é o que era


Depois de três meses de tentativas infrutíferas para obter um acordo financeiro com os seus credores, a cidade de Stockton (foto), do Estado da Califórnia (a 96 quilómetros a leste de São Francisco, ver mapa), solicitou dia 27/06 formalmente a entrada em falência para evitar uma situação de caos incontrolável.

As negociações para chegar a um acordo financeiro fracassaram e de nada serviram os cortes draconianos de mais de 90 milhões de dólares aplicados nos últimos três anos para conseguir desejado equilíbrio orçamental.Fica um buraco de 26 milhões de dólares impossível de reverter e uma cratera na saúde de 400 milhões. É por isso que para Bob Deis, o administrador da cidade, a declaração de bancarrota é equivalente a pressionar a tecla "pausa", para manter intactos os serviços e proporcionar uma estrutura "de resgate". O Estado da Califórnia, a oitava economia do planeta, começa a sofrer os efeitos da crise.

Com pouco mais de 300 mil habitantes, Stockton é a maior cidade dos Estados Unidos a declarar-se falida. Tem a taxa mais alta de desemprego da Califórnia (20%) e ocupa o segundo lugar nas execuções hipotecárias do país, como se pode constatar por estas imagens do flickr com habitações à venda. Apesar de Stockton ter sido uma das cidades mais pujantes da Califórnia nos anos 60, após o estalar da crise do subprime em 2007 e o abandono das habitações pelos seus moradores endividados, conta com bairros esvaziados de habitantes nos quais prospera a lei da rua e o crime. Não se pode esperar outra coisa quando se cortou um terço da polícia, um terço dos bombeiros e cerca de 40% dos funcionários dado que não podem ser pagos.

O colapso dos ativos imobiliários traduziu-se por uma importante queda das receitas públicas respeitantes às receitas da propriedade e a situação é tão calamitosa que a revista Forbes concedeu-lhe o prémio da cidade mais terrível dos Estados Unidos durante dois anos consecutivos.

O que ocorreu em Stockton?

Para conseguir captar o que se passou nesta cidade próxima de São Francisco, Sillicon Valley e Sacramento, é interessante constatar que no começo do milénio era uma zona agrícola sem pretensões que foi invadida por uma especulação com os solos sem precedentes. Desde projetos imobiliários gigantescos à construção de enormes edifícios que transformaram a vida aprazível de uma cidade que vivia da agricultura, Stockton foi invadida por sonhos fantásticos de grande luxo que acabaram no pântano.

Apesar do brilhantismo de alguns projetos, não se conseguiu atrair as multidões que se esperavam e a cidade foi-se afundando na espera. Um espera que desespera dado que após dois, três, quatro anos as vendas não tomaram o ritmo apontado pela teoria da oferta. E enquanto o tempo passa, como canta Mercedes Sosa, os interesses continuam a crescer. Se alguém ainda tem dúvidas, faço este link para o drama de Pioz, onde as casas sem ser vendidas e o custo dos juros para a localidade pode levar a localidade a estar mais de sete mil anos a pagar a dívida. Está bem escrito: sete mil anos a pagar a dívida.

Tudo isto mostra a doença de um modelo económico que apostou sempre em ganhar baseando-se num pseudo, raquítico e hoje desprezível otimismo organizado pela via do consumo, sem ter em conta a necessidade do emprego para manter esse nível de consumo, e sem ter em conta, ainda menos, da necessidade de que esse nível de emprego seja sustentável no tempo.

Que não fiquem dúvidas de que o que agora vemos em Stockton, e que a imprensa não informa, continuará noutras cidades dos Estados Unidos e também em muitas outras cidades onde a bolha imobiliária permitiu o enriquecimento de um punhado e o empobrecimento da grande maioria. Agora que é preciso pagar a conta, e os milhares que acreditaram e compraram as delícias do modelo económico imperante. Os primeiros pecaram por intenção e os segundos por omissão. Mas estes últimos terão maiores penitências. A ignorância paga-se. É a primeira lição econômica que será marcada a fogo: a ignorância paga-se. E paga-se caro.




Tradução: Carlos Santos/esquerda.net
Imagem: Google

Comércio de carbono e o mecanismo REDD+ ameaçam a produção alimentar e a soberania dos povos africanos



 Camponeses de Moçambique “cultivam” carbono para os poluidores  



Camponês cuida de floresta em Nhambita - Foto: Africa News
 A produção alimentar e a soberania dos povos africanos correm o risco de estar seriamente comprometidas devido a implementação de projetos de plantio e conservação de árvores para a captura de carbono e a chamada Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal Plus (REDD+). Tais projetos poderão conduzir o continente a graves situações de insegurança alimentar e resultar na perda da posse de terra e do controle de recursos florestais por parte de camponeses de África.

Em Moçambique, esse cenário não vai demorar a se concretizar, uma vez que o país ofereceu seu território para servir de “modelo” para projetos de captura de carbono e para a REDD +.

Ao cair da tarde, Albertina Francisco*, camponesa da comunidade de Nhambita, na província de Sofala, em Moçambique, regressa à sua casa, cansada, depois de mais um dia de atividade em sua machamba [palavra usada em Moçambique para dizer roça]. Além de tomar conta do milho, mapira (uma espécie de sorgo) e mandioca que cultiva, Albertina passou a ter uma tarefa a mais: cuidar das árvores que plantou há alguns anos atrás para garantir que no final do ano não seja penalizada pela Envirotrade, a empresa com a qual tem um contrato de provisão de carbono. É que Albertina deve, por obrigação, evitar a morte das plantas e garantir um bom desenvolvimento delas de modo que, pelo menos 85% sobrevivam.

 “Além do milho e da mapira, agora tenho também que ver as árvores, para não morrerem. Plantei muitas árvores e não é fácil controlar todas”, disse Albertina que visita a sua roça duas vezes ao dia.

Como Albertina, outros 1.400 camponeses de Nhambita e outras comunidades do posto administrativo de Púngue, em Sofala, foram contratados para plantar e cuidar de árvores em suas terras. “Quando chegaram, disseram que o projeto era bom, porque ao plantar as árvores receberíamos dinheiro para combater a pobreza e seríamos donos [das árvores] mesmo depois do projeto terminar”, conta um camponês de Nhambita.

O projeto chama-se “Nhambita Community Carbon Project”. O objetivo da Envirotrade é capturar carbono a partir do agroflorestamento, comercializar os créditos de carbono no mercado voluntário - neste momento, Europa e Estados Unidos. Comprando créditos de carbono, as empresas de países industrializados podem “vender” uma boa imagem aos seus clientes, limpar sua consciência e continuar a contaminação do planeta. Com a implementação do REDD+ e a compra dos créditos de carbono pretende-se que países ricos continuem a emitir gases do efeito estufa, desde que financiem projetos de captura de carbono em outros lugares, geralmente em países do sul.

Supervisor técnico da Envirotrade mostra área protegida
Foto: Africa News
 Com esse projeto, a Envirotrade diz estar também contribuindo para diminuir a pobreza das populações.

Para além do uso de terras para o plantio de árvores (gliricidia, faidherbia, cajueiros, mangueiras, espécies madeireiras), as comunidades são igualmente chamadas a proteger e patrulhar uma demarcada área de pouco mais de 10 mil hectares, dos quais a Envirotrade também comercializa créditos de carbono através do mecanismo REDD+.

Os serviços de plantio, conservação e proteção das florestas são regidos por um contrato entre a Envirotrade e os camponeses. O contrato é por tempo determinado e tem a duração de apenas sete anos. Contudo, de acordo com as cláusulas do contrato, o produtor [camponês] tem a obrigação de plantar e cuidar das árvores e receberá um valor anual que varia em função do sistema escolhido e da extensão da terra usada. Após sete anos o pagamento cessa, mas a obrigação de cuidar permanece. “É obrigação do camponês continuar a cuidar das plantas que lhe pertencem, mesmo depois dos sete anos da vigência deste contrato”, determina uma das alíneas da cláusula sobre as obrigações do produtor.

De acordo com a Envirotrade, uma árvore captura carbono por um período de entre 50 a 100 anos. A obrigação de cuidar das plantas e florestas pelos camponeses passa, automaticamente, a ser multigeracional. “Se um camponês perde a vida dentro do período de vigência do contrato, este passa para os legítimos/legais herdeiros [filhos] com todos os direitos, mas também obrigações”, esclarece António Serra, Diretor Nacional da Envirotrade.

Destaque-se que os contratos que regem a atividade não trazem capítulo sobre direitos dos camponeses.

Apoio da Comissão Europeia ao projeto da Envirotrade
Foto: Africa News
 Nhambita é uma comunidade do distrito de Gorongosa, no posto administrativo de Púngue, centro de Moçambique. É rico em biodiversidade e ostenta uma vegetação e riqueza florestal de se cobiçar. A Comissão Europeia financiou a Envirotrade do início do projeto, em 2003, até 2008 com cerca de 1500 mil euros para atividades de pesquisa e experimentação em Nhambita. A Comissão Europeia cortou o financiamento e uma das razões foi por ter constatado irregularidades na metodologia proposta para a medição do carbono.

O que o camponês ganha no negócio

 De acordo com a Envirotrade, os seus projetos têm por objetivo aliviar a pobreza das comunidades, proporcionar desenvolvimento sustentável e conservar a biodiversidade. “É uma nova forma de fazer negócio”, afirma a empresa no seu website, que acredita oferecer um novo modo de vida para indivíduos e comunidades.

Um contrato de um camponês que tivemos acesso estabelece que, a título de prestação de serviço, ele faça o plantio de árvores numa área total de 0,22 hectares (22 metros por 22), no seu quintal, para receber um valor total de 3.215 meticais [moeda oficial de Moçambique], o que corresponde a 128 dólares, para os sete anos de duração do contrato. Para ganhar dinheiro suficiente e aliviar a pobreza, este camponês precisaria de muito mais hectares, diversificação de sistemas e plantar muito mais árvores. O que se verifica praticamente impossível.

O sistema mais pago pela Envirotrade denomina-se “plantação florestal” e pode pagar ao produtor cerca de 17.500 Meticais ( 670 dólares) divididos por sete anos.

 Estes valores são referentes a um hectare, ou seja, o valor pode ser mais alto ou mais baixo dependendo do tamanho da área. Os camponeses em Nhambita têm uma área média de um hectare por família. “Um camponês que tenha 1 hectare pode, em um ano, assinar um contrato com o sistema de bordadura válido por sete anos, no ano seguinte, na mesma área, assinar um contrato de coassociação para sete anos e, no terceiro, assinar um contrato de sete anos para o sistema de quintal. Assim, esse produtor ficará ligado ao projeto por muito tempo”, explicou Antônio Serra, Diretor Nacional da Envirotrade em Moçambique.

Mas não se engane quem pensar que com REDD+ e o plantio de árvores vai ficar rico: “O negócio de carbono não é para tornar ninguém (camponeses) rico. O próprio mercado mostra que tem muitos custos. Não vai tornar as comunidades ricas. As pessoas precisam ter outras formas de rendimento”, disse em entrevista Aristides Muhate, gestor de carbono da Envirotrade. A empresa parou de emitir novos contratos há três anos, devido a problemas financeiros.

Soberania alimentar em perigo

  É importante destacar que a dedicação por esses serviços poderá aumentar a insegurança alimentar da comunidade e das famílias, se olharmos para o tempo e a dimensão da área que o camponês precisa para plantar uma quantidade de árvores que lhe possibilite ganhar mais dinheiro. Isso levará o camponês a “cultivar carbono” no lugar de culturas alimentares.

Por outro lado, “o enfoque nos valores econômicos da conservação das florestas comunitárias, promovida pela Envirotrade, poderá tornar os valores culturais, espirituais e biológicos menos importantes, uma vez que as comunidades sempre souberam conservar as florestas por gerações e gerações”, diz um estudo de Jovanka Spiric, que investigou os impactos socioeconômicos do esquema REDD implementado em Nhambita.

Existe um número considerável de camponeses que abandonaram a roça e se dedicam em tempo integral ao aceiro e patrulha as florestas da área REDD+.

Gabriel Langa*, pai de quatro filhos e com duas esposas, é chefe do grupo que aceira e patrulha o bloco dois, uma área de REDD+ “protegida” na zona de Bué Maria, em Púngue. Antes cultivava para alimentar a família.

 “Agora a atividade principal é o aceiro. Não tenho tempo para ir à machamba”, disse Langa.

Langa vai ganhar 8.845 Meticais (340 dólares) pela fase do aceiro da área “conservada” e dividi-los pelo o grupo (de quatro membros) que chefia.

 As florestas nunca estiveram em risco de desaparecer...

Para a Envirotrade, a zona tampão do parque Nacional de Gorongosa], onde se encontra a comunidade de Nhambita, estava em risco de desaparecer devido ao abate massivo de árvores para carvão e queimadas descontroladas.
O comitê de Gestão dos Recursos Naturais  da localidade de Púngue, que funciona a partir de Nhambita, em Gorongosa, estabelecido antes da chegada da Envirotrade, junto com os líderes comunitários, desmente essa teoria e afirma que sempre soube cuidar e conservar as florestas e a terra na localidade.

 “A comunidade não tinha nenhum problema e sempre soube gerir os recursos. O estabelecimento do Comitê de Gestão, em 2011, veio a reforçar essa capacidade, porque tivemos treinamento para isso”, diz Francisco Samajo, presidente do referido comitê, que acrescenta que “isso é o que provavelmente trouxe a Envirotrade para cá”.

Aristides Muhate, da Envirotrade, reage: “Às vezes, as pessoas querem impor o seu mérito acima de tudo. Todo mundo sabe que essa zona seria hoje de licenciamento para corte ilegal de madeira. Ele [o chefe do comitê de gestão dos recursos] não teria dinheiro para fazer o patrulhamento que ele faz”.

 A Envirotrade financia o comitê de gestão dos recursos naturais para esta, por sua vez, pagar fiscais para patrulhar as florestas e “defendê-las” contra membros da mesma comunidade.

Embora os camponeses afirmem ter benefícios de alguma forma com o projeto da Envirotrade (árvores de fruta, algum dinheiro anualmente, posto de saúde, transporte em caso de doença), parece não haver consenso em admitir que as comunidades eram muito pobres e que a gestão de suas florestas e terras era deficiente.

Outro camponês de Nhambita, Raimundo Eduardo, afirmou que nunca se considerou pobre, porque, segundo ele “tenho machamba e sempre trabalhei”.

 Abandono do plantio de árvores: nem todos consideram a atividade divertida 

Juvenal Francisco, 31, camponês de Nhambita, abandonou o plantio de árvores em 2010 por considerar os serviços sem rendimento. “Parece que eu só trabalhava para eles e não via benefícios para mim”, conta Francisco, que por iniciativa própria dirigiu-se à Envirotrade para manifestar interesse de abandonar a atividade.
O que desmotivou Francisco a rescindir o contrato foi o fato de, a partir do quarto ano, não ter sido pago o valor anual estipulado, por supostamente não ter cuidado devidamente das plantas como a Envirotrade determinou. Juvenal Francisco considera que houve falta de satisfação de uma das obrigações com que a Envirotrade se comprometeu : a de pagar-lhe durante sete anos. “A partir do quarto ano não me pagaram mais e nunca me explicaram o porquê”, disse.

Juvenal conta que tinha plantado mais de 900 unidades de plantas madeireiras e de fruta desde 2007. Agora, dedica o seu tempo para produzir milho, batata doce, mapira e mandioca.

 Este tem sido um grande conflito entre a Envirotrade e muitos camponeses. Um elevado número de “contratados” é descontado por não atingir os 85% da taxa de sobrevivência determinada no contrato. A nossa equipe de reportagem também constatou que, nos últimos três anos, tem-se verificado atrasos nos pagamentos dos serviços ambientais, devido a problemas financeiros.

Camponeses não sabem o que estão fazendo

As comunidades de Nhambita desconhecem o conceito REDD+ e, apesar de alguns camponeses saberem que plantam árvores e conservam as florestas “para vender carbono”, demonstram desconhecer o conceito e os seus mecanismos em sua profundidade.

O Gestor Nacional de Carbono dos projetos da Envirotrade, o engenheiro florestal Aristides Muhate, justifica este fato nos seguintes termos: “há diferentes níveis de informação. Não temos porque perder tempo explicando esses conceitos complicados para os camponeses”. Aristides faz a declaração baseando-se nos baixos níveis de escolarização que a maioria da população de Nhambita e arredores possui.

No entanto, isso pode ser considerado uma violação do direito à informação prévia e ao consentimento livre antes do início das atividades em sua terra. “Sabemos que o rendimento de plantar árvores vem do carbono. No fundo eu não sei mais nada sobre isso”, confessou Elias Manesa, da comunidade de Mutabamba, que mostrou não compreender o que é carbono.

O não fornecimento de toda informação sobre o negócio de carbono da Envirotrade com os recursos da comunidade coloca em xeque os níveis de transparência no processo. A fraca ou inexistente compreensão dos conceitos ligados à REDD+ e aos mercados de carbono por parte dos camponeses faz com que eles disponibilizem os seus recursos e se envolvam em um negócio sem saber as suas implicações: permitir que poluidores do norte continuem com as emissões de carbono na atmosfera, o que coloca em risco o bem estar dos mesmos camponeses, se levar em conta que essas emissões trarão impactos negativos em Moçambique, como a seca e inundações.

Uma mulher camponesa que não tem contrato pessoal com a Envirotrade, mas plantou e cuida das árvores porque seu parceiro decidiu por ambos fazê-lo, também mostra desconhecer a finalidade da atividade.“Só sei que meu marido recebe dinheiro [anualmente] por causa das árvores que plantamos. Não sei de mais detalhes”, contou. De fato, mais da metade dos contratados pela Envirotrade são do sexo masculino. Poucas mulheres detêm posse de terra em Moçambique, embora seja a camada que mais esforço empreende na atividade de produção alimentar e em outros trabalhos com a terra.

 Eminente conflito social

Começam a se instalar sinais de conflitos sociais relacionados com os Pagamentos dos Serviços Ambientais (PSA) entre os membros da comunidade de Nhambita. No futuro o cenário poderá vir a piorar.

Camponeses que não estão contemplados nos PSA manifestam uma espécie de ressentimento por não receber o dinheiro da Envirotrade.

Em outros projetos REDD, em países como Indonésia, os pagamentos por serviços ambientais criam desigualdades devido à diferença na renda e isso tende a criar divisões na comunidade e a comprometer a unidade organizativa, social e cultural.

Por exemplo, o jornal francês Le Monde Diplomatique publicou recentemente um caso de expulsão de camponeses devido à implementação de REDD no México.

Jossias Jairosse é recém-chegado em Nhambita e trabalha na carpintaria comunitária na sua localidade. Quando se instalou na comunidade, a Envirotrade tinha parado com as contratações. Sente-se ressentido e inferior em relação aos demais vizinhos, uma vez que possuem uma renda anual que ele não tem nenhuma possibilidade de obter.

 Território moçambicano cobiçado por outros para REDD+ 

Cerca de 15 milhões de hectares [19% do território nacional] estão sendo pretendidos por uma companhia de capital britânico para REDD+. Os casos de usurpação de terras relacionados com a Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal poderão acrescer esta cifra se incluirmos produção de agrocombustíveis e plantações de monoculturas diversas, porque podem converter-se também em REDD+, já que inclui cultivos e solos para os bônus de carbono, e não somente florestas. Segundo o inventário florestal nacional de 2008, cerca de 70% do país (54,8 milhões de hectares) é predominantemente coberto de florestas e outras formações lenhosas. Essas áreas correm o risco de ser usadas para a captura de carbono.

Moçambique encontra-se em posição de privilégio entre os países mais “cobiçados” para a implementação dos chamados projetos de desenvolvimento, com investimento estrangeiro, na África. Por exemplo, o Banco Mundial considera Moçambique como um destino certo para projetos de REDD, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo e Agricultura Industrial.

Empresas do norte têm adquirido terras em Moçambique para a produção, exportação, agrocombustíveis e, agora, REDD+. Atualmente, até os chamados países emergentes, a Índia e o Brasil, estão adquirindo terra para o agronegócio e extração mineral.

Na maioria desses casos, comunidades locais, em particular camponeses e populações indígenas, são fortemente afetados e muitos dos seus direitos são violados. Para o caso do REDD+, há um eminente risco de camponeses servirem de empregados a companhias que vão usar recursos florestais e os solos locais para recorrer aos créditos de carbono internacionalmente e maximizar seus lucros, sem necessariamente contribuir para eliminar a pobreza das comunidades.

Na Uganda, 22 mil camponeses foram desalojados de suas terras por conta de um projeto de compensação de carbono florestal em 2011.




Fonte: Brasil de Fato 
Imagem: Google

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