quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Irã: "Tecnologia nuclear para todos, armas atômicas para ninguém”
O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, afirmou nesta quinta-feira (30) que ainda estão vivas as causas que originaram o Movimento dos Países Não Alinhados e fez um apelo para que acabe a colonização e o unilateralismo.
Ao pronunciar o discurso de abertura da 16ª Cúpula de chefes de Estado e de governo dos Países Não Alinhados, que se realiza nesta quinta e sexta-feira em Teerã, o guia espiritual da Revolução Islâmica defendeu a necessidade de acabar definitivamente com a colonização.
A independência política, econômica, social e cultural, a promoção da solidariedade entre os países membros e o fim do unilateralismo são imperativos do mundo, indicou Khamenei perante o plenário de chefes de Estado e de governo.
Na opinião do líder islâmico, "o mundo se encaminha para uma nova ordem internacional e o movimento dos Países Não Alinhados poderia e deveria desempenhar um papel novo nesse contexto", por isso demandou um "esforço global para superar as realidades".
Khamenei assinalou que a solidariedade entre os Estados-membros constitui uma das necessidades imperiosas da era atual para propiciar essa nova ordem. "Ainda estão vivas as causas da criação do Movimento dos Países Não Alinhados depois de seis décadas", asseverou.
A esse respeito, ele defendeu a participação conjunta e a igualdade de direitos de todos os Estados na arena internacional, e opinou que "essa mudança paulatina no poder permite aos Não Alinhados assumir um papel eficaz e digno no cenário mundial".
De igual modo, fez um apelo a preparar o terreno para uma "direção justa e verdadeiramente participativa no mundo", tomando em conta que, "apesar da diversidade de visões e tendências, temos podido conservar a solidariedade e os laços no interesse comum".
Khamenei insistiu em reclamar uma nova ordem "justa e humanitária", e afirmou que o mundo "não pode ser dirigido por umas quantas ditaduras ocidentais, países bandidos e hegemonistas".
Nesse sentido, qualificou de "ilógica, injusta e completamente antidemocrática" a estrutura do Conselho de Segurança da ONU, o qual definiu como "uma clara ditadura".
O líder iraniano denunciou que os Estados Unidos e seus aliados ocidentais têm abusado desse “mecanismo errôneo" para impor ao mundo seus "desejos ilegítimos encobertos por conceitos nobres, como direitos humanos, desarmamento, democracia e luta antiterrorista".
Falam de democracia, mas a substituem com intervenção militar em outros países, falam de luta contra o terrorismo, e transformam em alvo de suas bombas pessoas indefesas em cidades e povoados, contrastou.
"Não se pode continuar com esta situação penosa. Todos estamos cansados desta geometria equivocada do mundo", enfatizou, para prosseguir seu discurso com outros temas de impacto nacional, regional e internacional.
O líder iraniano condenou os esforços dos Estados Unidos e "uns poucos países aliados" do Ocidente para impedir que outros países alcancem sua independência em matéria energética nuclear.
Khamenei realçou que o desmantelamento das armas de destruição em massa é uma prioridade urgente do planeta.
Ao reprovar a atitude hipócrita dos países possuidores de arsenais atômicos que se recusam ao desarmamento, recordou que a segurança mundial é hoje "um fenômeno conjunto e não discriminatório".
"A arma nuclear não pode garantir nem a segurança nem a fortaleza do poder político de nenhum Estado, pelo contrário, é uma ameaça para os dois conceitos", sentenciou o guia espiritual e autoridade máxima da República Islâmica.
Ele ressaltou que o Irã considera "um grande e imperdoável pecado" o uso de armas nucleares e químicas, e defendeu o lema de um Oriente Médio livre de armas atômicas, tema com o qual continua comprometido.
Contudo, esclareceu que isso não significa que Teerã ignore seu direito à energia nuclear pacífica e à produção de combustível atômico, o qual considerou um direito de todos os países, de acordo com as normas internacionais.
"Qualquer um deve ter o direito a usar esta energia segura para vários propósitos vitais para seu país, e não deve depender de outros para pôr em prática esse direito", indicou ao retomar seu protesto contra o pretendido monopólio do Ocidente.
O dirigente criticou que as antigas potências coloniais equiparam Israel com armas nucleares e o converteram na maior ameaça à segurança no Oriente Médio Oriente, enquanto "sabem muito bem que estão mentindo sobre as intenções nucleares do Irã".
O líder da Revolução Islâmica insistiu em que Teerã tem propósitos humanitários e pacíficos, concretamente energéticos e médicos, com seu programa atômico, e seu lema tem sido "tecnologia nuclear para todos, armas atômicas para ninguém", uma "postura que, confio, será promovida pelo Movimento dos Países Não Alinhados", disse.
Segundo Khamenei, "o maior sarcasmo de nosso tempo é que os Estados Unidos, que têm o maior e mais letal arsenal nuclear e de outras armas de destruição em massa, e é o único que está comprometido a usá-las, deseja levantar a bandeira da oposição à proliferação nuclear".
Ademais um pequeno grupo de países ocidentais dotados desse tipo de armamento e envolvidos em ações ilegais (pela posse das armas) "tenta manter monopolizada, com toda a sua força, a capacidade de produzir combustível atômico no mundo".
Fonte: Vermelho
Imagem: Google (colocadas por este blog)
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Cuba, Índia e ONU elogiam Cúpula dos Não Alinhados em Teerã
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| José Ramon Machado Ventura |
Momentos depois de chegar a Teerã para participar na reunião de chefes de Estado e de governo que se inicia na quinta-feira (30), Machado assegurou que o encontro joga um papel significativo na complicada situação do Oriente Médio, pois abordará temas de alto impacto regional.
O vice-mandatário cubano disse à agência noticiosa oficial iraniana Irna que tem esperança em que os delegados à Cúpula de Teerã sejam capazes de adotar medidas efetivas e dar passos que ajudem a resolver crises regionais, das quais a mais complexa no momento é a da Síria.
Perguntado sobre a presidência iraniana do Movimento dos Países Não Alinhados nos próximos três anos, Machado sublinhou a capacidade do país persa para desempenhar uma ação vital no estabelecimento da unidade e da convergência entre os Estados membros.
Igualmente, se mostrou confiante em que Teerã possa assumir uma liderança capaz de reduzir tensões regionais.
Machado é a mais alta autoridade de Cuba presente em Teerã para participar no segmento de chefes de Estado e de governo, na quinta e sexta-feira, que deverá aprovar documentos preparados por especialistas e chanceleres desde o último domingo (26).
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| Bruno Rodriguez |
Na terça-feira , o chanceler cubano, Bruno Rodriguez, tinha declarado que o Irã assume uma grande tarefa com a realização de uma conferência de tal magnitude e descreveu a Cúpula como um fato de grande prestígio mundial.
Ban Ki-moon
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| Ban Ki-moon |
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| Nabil El-Arabi |
Fontes diplomáticas adiantaram a possibilidade de um encontro entre o chefe da ONU e o secretário-general da Liga Árabe, o egípcio Nabil El-Arabi, para abordar o conflito na Síria e examinar uma proposta pacificadora de Teerã.
O porta-voz de Ban, Martin Nesirky, declarou na terça-feira em Nova York que o secretário-geral teria conversações com o líder supremo da Revolução Islâmica iraniana, aiatolá Alí Khamenei, o presidente Mahmoud Ahmadinejad e um grupo de deputados.
Meios locais de imprensa reproduziram artigos de jornais estadunidenses que consideraram a presença de Ban em Teerã como uma prova do fracasso da política de Washington pelo isolamento da República Islâmica, à qual sancionou economicamente por seu programa nuclear.
Um comunicado do gabinete do secretário-geral da ONU indicou que este valoriza a Cúpula dos Não Alinhados como "uma oportunidade de trabalhar com os chefes de Estado e de governo participantes, incluído o país anfitrião, na solução de temas que centralizam a agenda global".
Índia
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| Manmohan Singh |
Por sua vez, o premiê indiano, Manmohan Singh, que também se encontra em Teerã para participar da Cúpula, disse que o Movimento dos Países Não Alinhados representa “a voz da razão e da sensatez”.
A 16ª Cúpula do Movimento de Países Não Alinhados será inaugurada na quinta-feira (30) pelo líder supremo da Revolução Islâmica, aiatolá Ali Khamenei, e o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.
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Complemento:
O MNA é a segunda maior organização internacional do mundo, após as Nações Unidas. Com 120 membros plenos e 17 membros observadores, inclui a maior parte dos países e governos do mundo. Cerca de dois terços dos estados membros da ONU são membros plenos do MNA. A União Africana, a Organização de Solidariedade do Povo Afro-Asiático, a Commonwealth de Nações, o Movimento Independentista Nacional Hostosiano , a Frente de Libertação Socialista Nacional Kanak, a Liga Árabe, a Organização de Cooperação Islâmica, o South Center, as Nações Unidas e o Conselho Mundial da Paz também são observadores.
Os EUA e a NATO, que muito generosa e enganosamente utilizam a expressão "comunidade internacional" quando se referem a si próprios são realmente uma minoria global que se eclipsa em comparação com o agrupamento internacional formado pelo MNA. Quaisquer acordos ou consensos do MNA representam não só o grosso da comunidade internacional como também a maioria internacional não imperialista ou aqueles países que tradicionalmente têm sido encarados como os "pobres". Ao contrário da ONU, a "maioria silenciosa" terá a sua voz ouvida com pouca adulteração e perversão dos confederados da NATOstão.
Fonte: Redação do Vermelho com agência noticiosa cubana Prensa Latina
Imagem: Google (colocadas por este blog)
Complemento: Fada do Bosque do Blog Guerra Slilenciosa
terça-feira, 28 de agosto de 2012
O que você realmente sabe sobre o Pussy Riot?
Após condenação do grupo punk, imprensa internacional assumiu tom de defesa superficial e oportunista, assim como as redes sociais foram inundadas por mensagens de protesto.
Erica Prado, especial para o Gazeta Russa
Foi com espanto e desconfiança que assisti à notícia da condenação das ativistas do Pussy Riot ser transmitida pela BBC de Londres. Espanto diante da desproporcionalidade da pena e desconfiança em relação ao comentário veiculado na sequência, fruto não da análise de um especialista, mas do desarticulado balbuciar da cantora e celebridade local Kate Nash. Nos dias seguintes manifestações semelhantes inundariam redes sociais e imprensa e dariam o tom à defesa do Pussy Riot: superficial, oportunista ou retardatária.
Neta bastarda das blagues situacionistas dos anos 50 e 60, a pegadinha punk do Pussy Riot nada tem de novidade. Segundo o Situacionismo Internacional, a batalha contra a alienação deveria ser travada na mesma arena onde ela é criada, a do espetáculo. Para provar tal teoria, alguns membros do grupo, em 1950, invadiram a missa de Páscoa da igreja de Notre Dame, em Paris, e, diante de câmeras de TV que transmitiam a celebração em rede nacional, declamaram um antissermão sobre a morte de Deus.
Seus provocativos métodos viveriam para além do movimento, influenciando punks, cultural jammers e artistas de rua das décadas seguintes. Mas menos que a capacidade real de transformar a realidade, a principal herança do “artivismo” talvez tenha sido a qualidade das obras produzidas por gente feito Kalle Lasn, Anomie Belle, John Lydon, Jello Biafra e Mark LeVine, entre outros.
Caso tivessem sido capazes de criar algo à altura de seus predecessores, as integrantes do Pussy Riot teriam vencido meu ceticismo. Arte e protesto feitos com competência têm o fenomenal poder de, a um só tempo, atrair atenção e dispersar quaisquer alusões a possíveis golpes publicitários. Em vez disso, o Pussy Riot deu ao mundo canções medíocres e um ato público esnobe e egoísta, desses que não hesitam em pisotear a sensibilidade alheia em nome de se fazerem visíveis.
Paradoxalmente, seria fácil excusar-me de questionar a sinceridade do coletivo. Tenho algumas possíveis razões para identificar-me com suas integrantes: sou mulher, branca, classe média, politicamente de esquerda e culturalmente predisposta a admirar os subgêneros mais incendiários do rock.
No entanto, na identificação imediatista esconde-se o maior inimigo do pensamento livre: a ausência de autocrítica. Criticar os setores do sistema que nos repelem e prestar solidariedade aos que nos espelham dispensa o exercício da crítica. Desafio mesmo é fazer o oposto, mirando, em primeiro lugar, nossas próprias idiossincrasias e zonas de conforto. Ou, em outras palavras, “familiarizando o estranho e estranhando o familiar”, processo, segundo Geertz, essencial ao verdadeiro autoconhecimento.
Em um cenário que privilegia opinião acima de conhecimento e glorifica alianças baseadas em subculturas, a tentativa de levantar questões acerca do Pussy Riot frequentemente encalha no preguiçoso desdém com que sociedade e indivíduos defendem suas convicções, especialmente as mais frágeis.
Aos que, sem piscar, repetem “Free Pussy Riot” mundo afora, sugiro perguntar: que tal defenderem a liberdade de expressão em geral em vez da de um grupo em particular? Os princípios que necessitam defesa na Rússia ganham força ou se esvaziam na manisfestação deste coletivo punk? E se esses princípios fossem defendidos por um grupo menos fotogênico, sem as mesmas guitarras ou as mesmas genitálias, eles ainda teriam seu respeito?
A quem conseguir se libertar do fundamentalismo etnocultural e, no lugar do apoio acrítico oferecer questionamento construtivo, talvez incomode o fato de que, na imprensa ocidental, Maria Aliokhina, Ekaterina Samutsevitch e Nadejda Tolokonnikova são uma trindade na qual não há individualidade ou passado e da qual, portanto, não se cobra caráter e coerência.
Curiosamente, uma rápida pesquisa sobre Tolokonnikova no Google é o suficiente para projetar sombra nesses territórios. Casada com Piotr Verzilov, ambos foram expulsos do Voiná, supostamente após delação de alguns de seus membros para a polícia russa. Ainda segundo integrantes do grupo, o casal teria roubado computadores dos membros encarcerados e continuado a se apresentar como Voiná até 2011, quando a fraude foi exposta.
Apelidado pela agência de notícias RIA Nóvosti de “a face barbada do Pussy Riot”, Verzilov talvez tenha percebido as vantagens de permanecer temporariamente nos bastidores de uma cena na qual diversidade é contraproducente. Na era em que cromossomos estreitam mais laços que valores é mais fácil gerar empatia se cor, gênero, orientação sexual e gosto musical forem limitados.
Se os passos do Pussy Riot foram, de fato, calculados, há que se admirar a estratégia do rapaz. Bastou que ao gás de um protesto inane fosse adicionada a fagulha de um regime intolerante e – voilá! - antes que se conseguisse soletrar O-S-I-P-O-V-A, crédulos e espertalhões, Bjorks e Madonnas, já haviam se juntado no culto ao pussyriotismo.
Enquanto isso, os membros do verdadeiro Voiná continuam ameaçados, foragidos, semidesconhecidos pelo mundo ocidental. A heterogeneidade do grupo dificulta rótulos: eles são homens e mulheres, velhos e jovens, heterossexuais e gays. Seus membros talvez nem partilhem as mesmas opiniões sobre o Pussy Riot, embora, conhecendo seus integrantes, não é descabido especular que eles defendam o direito do grupo à manifestação livre do ônus da repressão estatal.
Caso sejam capazes dessa lucidez, os integrantes do Voiná terão colocado em prática o aspecto mais desafiador da liberdade de expressão: aquele que reconhece o direito de existência até do que nos incomoda. Do mesmo jeito, o princípio que reconhece o direito de se criticar o regime Pútin precisa permitir críticas ao Pussy Riot. Sem pontos de interrogação nossas convicções não passam de pequenos totalitarismos, não importa que sejam acompanhados de um riff de guitarra ou embalados em balaclavas coloridas.
Fonte: Vermelho
Imagem: Google (colocadas por este blog)
Porque a Síria não cairá?
Ghaleb Kandil: Porque a Síria não cairá?
Os desenvolvimentos recentes na Síria revelaram uma série de sinais importantes, os quais terão repercussões decisivas no curso da guerra global conduzida pelos Estados Unidos para destruir este país.
Ao contrário das informações e impressões dos estrategas americanos e seus aliados europeus, assim como dos seus cúmplices árabes – tal como transmitido por centenas de meios empenhados na batalha – os esquadrões da morte, mercenários e grupos Takfiri introduzidos na Síria a partir de todas as partes do mundo sofreram uma derrota esmagadora ao nível das batalhas.
No entanto, os responsáveis turcos e seus aliados qataris e sauditas prometeram – como já haviam feito no ano passado durante o mesmo período – que o mês do Ramadã testemunhará a queda do regime resistente na Síria. Estas ilusões entraram novamente em colapso no campo de batalha onde os bandos armados sofreram baixas de milhares de mortos, feridos e detidos.
Na verdade, o ataque abrangente lançado pelos extremistas contra Damasco acabou – mesmo com o reconhecimento da mídia ocidental – com perdas maciças. Portanto, a força que incluía mercenários locais e jihadistas de todas as partes do mundo foi aniquilada completamente pelo exército sírio que está a perseguir os remanescentes nos arredores da capital. Em consequência, foram confiscadas toneladas de armas e a pesada infraestrutura dos grupos armados foi desmantelada e destruída, o que exigirá meses para reconstruir se os grupos armados alguma vez forem capazes de fazê-lo.
O resultado da batalha de Alepo, por outro lado, já pode ser antecipado pois os extremistas estão a cair aos milhares face ao progresso metódico do exército que foi capaz de cortar completamente as linhas de abastecimento dos mercenários que vinham dos campos de treino dirigidos pela CIA na Turquia. Consequentemente, os bandos armados já não podem mais receber reforços sem terem de pagar um pesado preço. Pois os seus comboios 4×4, que estão esquipados com artilharia pesada e lhes foram oferecidos pelos seus patrocinadores regionais, estão a mover-se sob o fogo dos helicópteros e aviões do exército e a caírem nas emboscadas montadas pela forças de elite que infiltraram linhas inimigas.
Segundo peritos, um terço dos grupos extremistas são compostos por jihadistas que vieram do Magrebe árabe, da Líbia, do Golfo, Afeganistão, Paquistão e Chechênia. Neste nível, o chefe de nacionalidade francesa da European Union Intelligence, Patrice Bergamini, reconheceu numa entrevista ao diário libanês Al-Akhabar, na sexta-feira 17 de agosto, o papel importante desempenhado pelos jihadistas no conflito sírio, enfatizando que o público ocidental agora estava consciente da ameaça que representavam. É claro que a limpeza pelo Exército sírio da cidade de Alepo e sua zona rural é agora uma mera questão de tempo.
A derrota esmagadora sofrida pelos bandos armados por toda a Síria revela que o Exército Árabe Sírio, que foi construído sobre sólidas bases ideológicas, retirou rapidamente as lições da guerra e desenvolveu estratégias de contra-guerrilha urbana e rural, as quais lhe permitiram atingir os extremistas apesar dos maciços meios militares, materiais, financeiros e de media que lhes foram generosamente oferecidos pela coligação de dúzias de países, sem esquecer as sanções adotadas contra o povo e o estado sírio fora do contexto das Nações Unidas.
A fim de entender os desenvolvimentos da situação, é importante também analisar o estado de espírito do povo sírio. Sem apoio popular real – o que naturalmente é ignorado pela mídia ocidental – o presidente Bashar al-Assad e seu exército não teriam sido capazes de resistir e deter este ataque. Este apoio popular deve-se a três fatores.
- Em primeiro lugar, a maioria dos sírios está consciente do fato de que o seu país é alvejado por uma trama que pretende subjugar a Síria e incluí-la no campo imperialista ocidental e consequentemente removê-la de todas as equações regionais, pois sabe que durante estas últimas quatro décadas a Síria esteve no cerne dos equilíbrios de poder que nada podia ser feito no Médio Oriente sem o seu conhecimento e participação. Estes amplos segmentos populares são apegados à autonomia política do seu país e estão desejosos de defendê-la, o que explicaria porque milhares de jovens estão voluntariamente a aderir às fileiras do Exército.
Por outro lado, os peritos acreditam que vinte por cento da população – aqueles que em algum momento simpatizaram com a oposição – descobriram a cara real dos extremistas que multiplicam as suas selvajarias nas regiões sob o seu controle (violações, execuções, massacres, pilhagens, …). À luz desta transformação que afeta o estado de espírito popular, especialmente nas áreas rurais onde o povo está farto, o estado sírio estabeleceu meios de comunicação discretos que permitem à população informar o exército acerca da presença de terroristas, o que explicaria como e porque durante estas últimas semanas as unidades especiais e a sua força aérea foram capazes de executar com êxito ataques bem concebidos contra as bases dos bandos armados.
Paralelamente a todos os desenvolvimentos no terreno, os aliados regionais e internacionais de Damasco estão a mostrar contenção e a desenvolver iniciativas políticas e diplomáticas a fim de evitar deixar a arena aberta diante dos ocidentais. A este nível, o êxito da reunião em Teerã entre trinta países, incluindo China, Índia, Rússia, nove países árabes e estados da América da Latina e África do Sul, transmite este novo equilíbrio de poder. A formação deste grupo constituiu uma forte mensagem aos ocidentais e põe seriamente em perigo o seu projeto de estabelecer – fora do contexto das Nações Unidas – uma zona de interdição de voo na parte Norte da Síria. Os últimos meses de 2012 serão decisivos ao nível da emergência de novos equilíbrios regionais e internacionais e na formulação de uma nova imagem a partir de Damasco, graças à vitória do estado nacional sírio na guerra global contra ele conduzida.
Desenvolvimentos rápidos
Até as eleições presidenciais americanas, as quais serão no princípio de novembro, os desenvolvimentos sírios internos, regionais e internacionais tornar-se-ão mais rápidos do que antes. Obviamente, a intervenção militar estrangeira, quer de dentro ou de fora do Conselho de Segurança, está fora de cogitação, se bem que as sanções tenham atingido os seus níveis mais altos enquanto o Capítulo VII está a ser impedido pelo direito de veto. A seguir às eleições presidenciais americanas, veremos a materialização das linhas políticas principais que afetarão a máquina militar utilizada do outro lado da fronteira e de dentro do território sírio.
Portanto, nessa altura deveria haver ou um reconhecimento da impossibilidade de introduzir mudança ao nível da geografia e do papel da Síria o que deveria induzir preparações para negociações sérias e para soluções políticas – que são rejeitadas pelos americanos, os quais recusam-se a responder ao convite enviado pela Rússia para encontrarem-se – ou sustentar a aliança guerreira e a mobilização do estado de hostilidade a partir de todas as direcções, isto é, desde a conferência de Meca até a visita do ministro dos Estrangeiros francês a estados vizinhos da Síria para reunir tantas cartas de pressão quanto possível.
Não haverá zonas tampão (buffer zones) nem embargos aéreos, antes esforços para isolar completamente certas regiões fronteiriças do controle do estado a fim de testar as oportunidades para estabelecer mini-estados, semelhantes àqueles estabelecidos por Saad Haddad e Antoine Lahd sob tutela israelense no Sul do Líbano. A este nível, a aposta está na zona rural de Alepo na qual todos aqueles que vendem a sua honra entre os dissidentes serão introduzidos a seguir aos preparativos em Doha, Riyadh e Aman para dar legitimidade formal ao projecto de divisão.
Por outro lado, Lakhdar Brahimi foi nomeado enviado e mediador para a solução política e a missão de observadores foi finalizada a fim de preparar a arena para todas as possibilidades. Brahimi portanto passará tempo em excursões antes de ser adotada uma decisão, enquanto a Síria fortalece-se com o seu exército e o povo, preparando – a começar por Alepo e sua zona rural – o rumo da mudança futura.
Ghaleb Kandil, em Resistir.info
Fonte: NavalBrasil
França: uso de armas químicas na Síria causaria intervenção
O presidente francês, François Hollande: "Conheço a dificuldade da tarefa, meço os riscos, mas o que está em jogo vai mais além da Síria"
Paris – O uso de armas químicas pelo regime sírio seria uma "causa legítima de intervenção direta" da comunidade internacional, declarou o presidente francês, François Hollande.
"Digo isso com a importância que corresponde: nos mantemos muito vigilantes com nossos aliados para prevenir o uso de armas químicas pelo regime (sírio), que seria para a comunidade internacional uma causa legítima da intervenção direta", disse o chefe do Estado, durante a abertura em Paris de uma conferência anual que reúne cerca de 200 embaixadores franceses.
"Conheço a dificuldade da tarefa, meço os riscos, mas o que está em jogo vai mais além da Síria. Afeta toda a segurança do Oriente Médio, em particular a independência e a estabilidade do Líbano", acrescentou o chefe do Estado francês.
Na semana passada, o presidente americano, Barack Obama, alertou o regime de Bashar al-Assad que, ao recorrer a armas químicas, o governo sírio cruzará uma "linha vermelha", e ameaçou intervir militarmente caso isso aconteça.
Nota da Redação:
Semelhante ameaça Obama fez há dias passado, como a mensagem de guerra não pegou, agora é Hollande quem a faz. Espera-se que não sejam partes de uma preparação de uma outra farsa, para justificar um ataque à Síria.
Fonte: NavalBrasil
John Pilger: A perseguição a Assange é um insulto ao jornalismo
A perseguição a Assange é um assalto à liberdade e um insulto ao jornalismo
por John Pilger, em seu blog
A ameaça do governo britânico de invadir a embaixada equatoriana em Londres e ali capturar Julian Assange tem significado histórico. David Cameron, o antigo homem de relações públicas de um camelô da indústria de televisão e vendedor de armas para xeques, está bem colocado para desonrar convenções internacionais que têm protegido cidadãos britânicos em lugares sublevados. Assim como a invasão do Iraque cometida por Tony Blair levou diretamente aos atos de terrorismo de Londres em 7 de julho de 2005, da mesma forma Cameron e o secretário do Exterior William Hague comprometeram a segurança de representantes britânicos em todo o mundo.
Ao ameaçar abusar de uma lei concebida para expulsar assassinos de embaixadas estrangeiras, enquanto difama um homem inocente como “alegado criminoso”, Hague fez pouco caso dos britânicos em todo o mundo, embora esta visão seja quase sempre ocultada na Grã-Bretanha. Os mesmos bravos jornalistas e radialistas que defenderam a atuação britânica em crimes sangrentos brutais, desde o genocídio na Indonésia até as invasões do Iraque e Afeganistão, agora atacam o “a história de direitos humanos” do Equador, cujo crime real é enfrentar os tiranos em Londres e Washington.
É como se os felizes aplausos olímpicos houvessem sido subvertidos da noite para o dia por uma exibição reveladora de selvageria colonial. Testemunha disso é o oficial do Exército britânico-repórter da BBC Mark Urban ao “entrevistar” um vociferante Sir Christopher Meyer, antigo apologista de Blair em Washington, do lado de fora da embaixada equatoriana, ambos a explodirem com indignação ultra-conservadora porque o arredio Assange e o insubmisso Rafael Correa estariam a desmascarar o sistema ocidental de poder. Afronta semelhante é vivida nas páginas do Guardian, o qual aconselhou Hague a ser “paciente” e disse que assaltar a embaixada traria “mais perturbação do que o assunto vale”. Assange, segundo declarou o Guardian, não era um refugiado político porque “nem a Suécia nem o Reino Unido em caso algum deportariam alguém que pode enfrentar tortura ou pena de morte”.
A irresponsabilidade desta declaração vai a par com o pérfido papel do Guardian em todo o caso Assange. O jornal sabe muito bem que documentos divulgados pelo WikiLeaks indicam que a Suécia tem-se submetido sistematicamente à pressão dos Estados Unidos em matéria de direitos civis. Em dezembro de 2001, o governo sueco revogou abruptamente o estatuto de refugiados políticos de dois egípcios, Ahmed Agiza e Mohammedel-Zari, que foram entregues a um esquadrão de sequestro da CIA no aeroporto de Estocolmo e levados (“rendered”) para o Egito, onde foram torturados. Uma investigação do defensor sueco para a Justiça (ombudsman) descobriu que o governo havia “violado gravemente” os direitos humanos dos dois homens.
Num telegrama de 2009 de embaixada dos EUA obtido pela WikiLeaks, intitulado “WikiLeaks coloca neutralidade na lata de lixo da história”, a louvada reputação de neutralidade da elite sueca é desmascarada como uma impostura. Um outro telegrama estadunidense revela que “a extensão da cooperação [militar e de inteligência da Suécia com a OTAN] não é amplamente conhecida” e se o segredo não for mantido “submeteria o governo à crítica interna”.
O ministro dos Negócios Estrangeiros sueco, Carl Bildt, desempenhou um notório papel de proa no Comitê para a Libertação do Iraque de George W. Bush e mantém laços estreitos com a extrema-direita do Partido Republicano. Segundo o antigo diretor sueco de processo públicos, Sven-Erik Alhem, a decisão sueca de pedir a extradição de Assange por alegações de má conduta sexual não é “razoável e profissional, bem como injusta e desproporcionada”. Tendo-se oferecido ele próprio para interrogatório, foi dada permissão a Assange para deixar a Suécia com destino a Londres onde, mais uma vez, ele se ofereceu para ser interrogado. Em maio, num julgamento de recurso final sobre a extradição, o Tribunal Supremo britânico introduziu mais farsa ao referir-se a “acusações” não existentes.
Além disso, tem havido uma campanha pessoal injuriosa contra Assange. Grande parte dela emanou do Guardian, o qual, como um amante rejeitado, voltou-se [contra] a sua antiga fonte, depois de ter aproveitado enormemente das revelações do WikiLeaks. Sem dar nem um centavo a Assange ou à WikiLeaks, um livro do Guardian levou a um lucrativo acordo cinematográfico com Hollywood. Os autores, David Leigh e Luke Harding, atacaram Assange gratuitamente como “personalidade defeituosa” e “insensível”.
Eles também revelaram a senha secreta que foi dada ao jornal em confiança, a qual era destinada a proteger um arquivo digital contendo os telegramas de embaixadas dos EUA. Em 20 de agosto, Harding estava do lado de fora da embaixada equatoriana, manifestando no seu blog o desejo de que “a Scotland Yard possa rir por último”. É irônico, ainda que inteiramente adequado, que um editorial do Guardian a pisotear Assange tenha dado origem a uma semelhança incomum com a imprensa de Murdoch, com o seu previsível fanatismo sobre o mesmo assunto. Como a glória de Leveson, o Hackgate e o jornalismo honrado e independente desvanecem-se.
Os seus atormentadores chamam a atenção para a perseguição de Assange. Não acusado de qualquer crime, ele não é um fugitivo da justiça. Documentos do processo sueco, incluindo as mensagens textuais das mulheres envolvidas, demonstram para qualquer pessoa de mente razoável o absurdo das alegações sexuais – alegações quase inteiramente afastadas de imediato pelo promotor sênior em Estocolmo, Eva Finne, antes da intervenção de um político, Claes Borgstr. No pré julgamento de Bradley Manning, um investigador do Exército dos EUA confirmou que o FBI estava secretamente a investigar os “fundadores, proprietários ou administradores da WikiLeaks” por espionagem.
Quatro anos atrás, um pouco noticiado documento do Pentágono, revelado pela WikiLeaks, descrevia como a WikiLeaks e Assange seriam destruídos com uma campanha de difamação (smear campaign) que levaria a “processo criminal”. Em 18 de agosto, o Sydney Morning Herald revelou, numa divulgação de arquivos oficiais no âmbito da [lei de] liberdade de informação, que o governo australiano havia reiteradamente recebido confirmação de que os EUA estavam a conduzir uma perseguição “sem precedentes” a Assange e não havia levantado objeções. Dentre as razões do Equador para conceder asilo está o abandono de Assange “pelo estado do qual ele é cidadão”.
Em 2010, uma investigação da Polícia Federal Australiana descobriu que Assange e a WikiLeaks não haviam cometido crime.A sua perseguição é um assalto a todos nós e à liberdade.
Fonte: Viomundo
Imagem: Google (colocada por este blog)
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Vietnã: O horror não termina
Hanói
(PrensaLatina)
Talvez foi há pouco que Vo Duc deixou de culpar à fatalidade divina da diabetes que padece, o câncer que devora a sua mulher e os numerosos abortos espontâneos da filha de ambos.
Ainda que já se sabe que proviram de outro modo do céu, o que os aviões estadunidenses usaram para descarregar o veneno que hoje, décadas depois, permanece no sofrimento da família.
O hoje idoso viveu em suas juventude a apenas um quilômetro de distância do aeroporto de Danang, uma antiga base militar dos Estados Unidos, onde se armazenava em enormes quantidades o arrasador tóxico conhecido como agente laranja para lançá-lo sistematicamente durante 10 anos consecutivos sobre zonas rurais.
Igualmente, como seu compatriota Duc, Nguyen Thi Binh, de 78 anos, deixou de achar que os pecados cometidos em uma vida passada sejam os responsáveis pelas graves deficiências físicas e mentais de três de seus cinco filhos.
E agora que conhecem que ao fim de tanto tempo decorrido e estrago causado, a grande potência responsável os sofrimentos inicia um projeto de descontaminação daquela base, sem reconhecer sua responsabilidade nem oferecer desculpas, um legítimo sentimento de dolorosa indignação deve estremecê-los.
Reticente e tardia chega tal assistência, apenas uma parte do que no Vietnã se reclamou como justa indenização, enquanto que as empresas fornecedoras do produto químico, Dow Chemical e Monsanto, também não receberam sanção alguma. Nem do governo nem os fabricantes de mortes se escutou uma só palavra de perdão.
Vale sempre recordar que a aviação estadunidense aspergiu uns 80 milhões de litros do defoliante que continham 370 kilogramos de dioxina, em um quarto da superfície sul do Vietnã, segundo bem fundamentadas estatísticas independentes.
Uns quatro milhões 800 mil vietnamitas estiveram expostos ao que se considera um dos piores tóxicos conhecidos pelo homem e três milhões se transformaram em suas vítimas, por várias gerações.
Quase no extremo meridional do país, na província Dong Nai, encontra-se o aeroporto de Ben Hoa, onde se armazenavam 98 mil tanques de agente laranja para dispersar em áreas próximas, na tentativa de submeter a resistência nacional liberadora.
Ali Ho Minh Quang costumava ir para brincar na inocência da infância, sem imaginar que se expunha a uma contaminação, que só soube depois quando seus dois filhos nasceram com deformidades.
As consequências continuam sendo aterradoras, com o nascimento de criaturas sem espinha bífida, mutiladas e deformadas, e segundo um informe recente da presidenta da associação de vítimas, Dao Nguyen o número tem aumentado na cidade de Ben Hoa e seus arredores desde 2009, e quatro em cada 10 afetados são menores de 16 anos de idade.
Eles esperam que a mais nova tecnologia de descontaminação tão publicitada por suas fornecedoras em Danang também lhes chegue.
Há pouco o cineasta estadunidense de origem vietnamita, John Trinh, voltou de novo ao seu país de origem para repor seu impactante e revelador curta-metragem "Agente laranja: 30 anos depois", o primeiro que declarou aos meios que o governo dos Estados Unidos deve admitir seu erro e recompensar todas as vítimas.
O último se converteu em uma batalha que desde 2004 trava um grupo de 100 demandantes vietnamitas que levaram seu caso contra Dow Chemical e Monsanto para a Corte Suprema de Justiça dos Estados Unidos. Mas depois de um processo cheio de delongas, o alto tribunal opinou que não havia se estabelecido um vínculo entre a dioxina e as malformações genéticas dos afetados.
Tal foi a conclusão encobridora às que seguiram outras de forma similar em corpos de justiça em Nova York, pese a que conhecidos relatórios científicos estabeleceram que o defoliante empregado na guerra no Vietnã apresentava elevados conteúdos de um subproduto cancerígeno.
As empresas envolvidas se defendem alegando que tudo justifica o esforço bélico e sua obrigação de acatar as ordens do governo que lhe encarrega o produto, inclusive até a admitida negligência na purificação de seus componentes herbicidas hormonais, como a pressa em engolir os bombardeiros da carga.
Aceita-se em troca que deixou terríveis sequelas nos próprios soldados norte-americanos e principalmente em seus descendentes, de quem aceitaram uma ação judicial apresentada por veteranos de guerra em 1984 que desembocou em um acordo de 93 milhões de dólares em indenizações.
Assim funciona a justiça ali: seletiva discriminadora, arrogante e insensível à dor humana onde quer que se inflija.
O Vietnã, sem todos os recursos que se requerem, tem tido que encarar a atenção hospitalar, os tratamentos, a reabilitação e a reinserção social e no trabalho, a ajuda aos familiares e o consolo possível. Junto aos limitados orçamentos destinados, em um denodado esforço estatal, e eventuais doações internacionais, diferentes setores da sociedade contribuem ao empenho, e geram iniciativas de todo tipo para remendar o que nunca termina de bastar. Por isso as ações de descontaminação que ao fim são adotadas em Washington em uns 73 quilômetros quadrados em Da Nang, e que grandes meios caracterizam suspeitamente como fim da história, não pode deixar de ver por sua vez com similar suspicácia, se com isso se pretende o esquecimento.
O plano de descontaminação iniciado em conjunto pelos Estados Unidos e o Vietnã finalizará dentro de quatro anos, mas as feridas causadas pela guerra química demorarão bem mais para cicatrizar. A substância tóxica acabou com a vida de 400.000 pessoas e tem afetado gravemente a umas três milhões.
Para o Vietnã o horror não termina, e a desonra dos culpados permanecerá por sempre, na consciência da humanidade.
*Correspondente da Prensa Latina no Vietnã.
Fonte: IrãNews
Ex-soldados de israel expõem violência contra crianças palestinas
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| Crianças palestinas passam por corredor na cidade de Hebron, localizada na Cisjordânia, vigiadas por soldados israelenses em 13/06/12 / Foto: ActiveStills.org |
Durante uma madrugada em 2009, todas as casas da cidade palestina de Salfit, localizada na Cisjordânia, foram invadidas por soldados israelenses. A ordem do Comando Central era prender todos que tivessem de 15 a 50 anos e levá-los para uma escola que havia se tornado provisoriamente um centro de detenção.
Isso porque a Agência de Segurança de Israel, que realiza o serviço de segurança interna, queria coletar informações sobre as pedras que eram jogadas contra jipes militares nas estradas e ruas ao redor da cidade.
Os militares colocaram vendas e algemas de plástico, muitas vezes apertando-as, nos jovens e adultos. Por sete horas, os palestinos permaneceram sentados sem poder nem se mexer, sem acesso à água e comida, em um sol escaldante. Eles não sabiam por que estavam lá e nem o que seria feito pelos militares -- um dos jovens urinou nas calças. Muitos ficaram com as mãos roxas pela falta de circulação sanguínea e outros com os braços dormentes por causa das algemas. Um dos garotos, de apenas 15 anos, pediu para ir ao banheiro e, antes de ser levado por um soldado, foi espancado ainda no chão.
Essa é apenas uma das muitas histórias publicadas neste domingo (26/08) pela Breaking the Silence (Quebrando o Silêncio em tradução livre), uma organização de antigos oficiais do Exército de Israel dedicada à divulgação das ações militares nos territórios palestinos ocupados. Mais de 30 ex-soldados revelaram como trataram crianças e jovens palestinos durante as operações militares e prisões de 2005 a 2011, revelando um padrão de abuso.
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| Militares israelenses detêm jovem, por supostamente atirar pedras, durante manifestação em Ramallah em 21/02/12 / Foto: ActiveStills.org |
O argumento central da maioria das histórias é que, com as prisões e agressões, esses jovens aprenderiam que não podem jogar pedras contra os militares ou se manifestar de alguma forma entendida pelos israelenses como violenta. “Muitos dizem que os palestinos devem ser espancados, porque esta é a única forma que podem aprender”, conta um antigo militar não identificado.
Apesar de alguns ex-soldados repetirem essa justificativa, a maioria admite que as ações não tiveram resultados. Pedras continuaram a ser atiradas, pneus foram queimados e protestos realizados, mas as ações militares permaneceram as mesmas. “Muitas vezes me senti muito ambivalente, incerta do que estava fazendo e em que lado eu estava nisso tudo”, diz uma sargenta.
Arrependimento
A imagem de crianças espancadas, feridas por tiros de bala de borracha e de pólvora, humilhadas e apavoradas, marcou muitos dos militares envolvidos nas ações e hoje, eles decidiram relatar a indiferença adquirida dentro do Exército. “Ele cagou nas calças, eu escutei, presenciei a humilhação. Eu também senti o cheiro. Mas, eu não me importava”, lembra um ex-sargento sobre a detenção de uma criança.
“O que nós fazíamos não era nada em comparação com o que eles faziam”, conta um militar, em referência ao batalhão de patrulha das fronteiras. “Eles não davam a mínima. Saíam quebrando o joelho das pessoas como se não fosse nada. Sem piedade”, lembra, indignado.
"Você nunca sabe os seus nomes, você nunca fala com eles, eles sempre choram, cagam em suas próprias calças ... Há aqueles momentos incômodos, quando você está em uma missão de prisão, e não há espaço na delegacia de polícia, então você pega a criança de volta, coloca uma venda nela, joga ela em uma sala e espera a polícia para vir buscá-lo na parte da manhã. Ele fica ali como um cachorro", descreve um ex-militar.
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| Detido em manifestação, jovem é espancado por soldados israelenses e aparece com feridas na cabeça em Ramallah em 15/05/12/ Foto: ActiveStills.org |
Ódio
Apesar de os soldados possuírem remorso e arrependimento, eles contam que muitos de seus companheiros e eles próprios odiavam os árabes e estavam convictos do que faziam. “Eles eram vermes e em algum ponto, eu lembro que eu os odiava [palestinos]. Eu era um racista. Estava tão zangado com eles pela sua sujeira, sua miséria, a porra toda”, afirma um sargento de Hebron.
O relatório revela que os militares tinham que seguir regras de procedimento em suas ações, mas que na experiência cotidiana isso não funcionava. Para prender um palestino, tinham que vendá-lo e algemá-lo; para conter uma manifestação ou impedir um palestino de fugir, deveriam atirar contra suas pernas a uma distância de 20 metros; para bater em um palestino com o cassetete, não podiam atingir a cabeça.
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| Jovens palestinos atiram pedras contra militares israelenses em Ramallah (15/05/12); soldados responderam com tiros de bala de borracha / Foto: ActiveStills.org |
As declarações foram reunidas para mostrar a realidade do cotidiano dos soldados israelenses em relação ao povo palestino. “Lamentavelmente esta é a consequência moral de tantos anos de ocupação dos territórios palestinos”, explica Yehud Shaul da Breaking the Silence.
Para acessar o relatório, clique aqui.
Fonte: Opera Mundi
domingo, 26 de agosto de 2012
Militarismo; Alemanha sob vigilância
O tribunal constitucional federal alemão determinou que as forças armadas alemãs – Bundeswehr – poderão, face à uma "situação excepcional de natureza catastrófica" e sob determinadas condições, intervir com o seu armamento em território alemão, o que não se verificava desde os tempos do nazismo.
Por Pedro Guerreiro
Trata-se de uma decisão que contraria outras anteriormente adotadas pelo mesmo tribunal – nomeadamente em 2006 –, que salvaguardavam que apenas as forças policiais poderiam intervir no território alemão, separando claramente o conceito e as operações no âmbito da defesa nacional (da competência das forças armadas) do conceito e das operações no âmbito da segurança interna.
Esta decisão é ilustrativa do incremento do militarismo alemão, que – colocando em causa princípios consagrados na sua Constituição, após a derrota do nazismo, em 1945 –, abriu caminho à participação do Bundeswehr nas agressões da OTAN nos Balcãs, na década de 90, e ao Afeganistão (1), em 2001, e, agora, à possibilidade da sua intervenção (armada) na própria Alemanha.
Uma decisão em linha com as orientações da OTAN e da União Europeia que preconizam a aproximação e junção da defesa e da segurança interna (subvertendo, entre outros importantes aspectos, os objetivos e missões das forças armadas) – orientações que procuram padronizar entre os seus diversos membros conceitos de «segurança» (e decorrentes aplicações) à semelhança dos que foram adotados pelos EUA .
Tal como os EUA/OTAN/UE manipulam e instrumentalizam o terrorismo e a dita “luta contra o terrorismo” como “cavalo de Troia” para promover a militarização das relações internacionais, a criação e o exacerbar de tensões e de conflitos, a ingerência e a ameaça ou uso da força contra a integridade territorial e a independência de outros estados, também no que se refere à segurança interna dos estados o “terrorismo” serve de pretexto para a implementação de medidas que, em nome da “segurança”, colocam em causa liberdades, garantias e direitos dos cidadãos e promovem a sua crescente militarização.
A militarização da segurança interna levada a cabo pelos EUA/OTAN/UE é expressão de um processo de militarização mais lato, que abrange igualmente outras dimensões, nomeadamente no quadro das relações internacionais, de que são exemplo a militarização da “ajuda humanitária”, da “cooperação para o desenvolvimento” ou a tentativa de militarização da própria ONU (com a subversão da sua Carta através da dita “responsabilidade de proteger”, isto é, da ingerência dita “humanitária”, eufemismo para a agressão e a guerra).
Com o agravamento da situação econômica e social nos principais centros do capitalismo, quem detém o poder econômico necessita de reforçar os seus instrumentos de controlo e de coação.
O militarismo é intrínseco ao capitalismo e uma das respostas (designadamente dos seus principais pólos – EUA, Alemanha/UE e Japão) ao aprofundamento da sua crise, com o qual, e perante o piorar das contradições e a consequente e legítima resistência dos povos, procuram salvaguardar os seus interesses e impor o seu domínio (dentro e fora das suas fronteiras…).
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(1) Afeganistão, onde segundo uma inadvertida mas genuína declaração de um presidente alemão as forças armadas alemãs estão presentes para defender os interesses econômicos da Alemanha (entenda-se, do seu grande capital), formando para tal o terceiro maior contingente de tropas, após os EUA e o Reino Unido.
Fonte: Jornal Avante!
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