Minha lista de blogs

segunda-feira, 18 de março de 2013

A suposta “turma socialista”



Por Cão Uivador



Recebi mais um texto daqueles que classifico como “correntes”. Só que este é diferente: mais bem escrito, elaborado, sem exalar aquele ódio comum aos que recebo mais frequentemente. Mas ainda assim, não podia ficar sem resposta.

Vamos a ele, então:

Um professor de economia em uma universidade americana disse que nunca havia reprovado um só aluno, até que certa vez reprovou uma classe inteira.

Esta classe em particular havia insistido que o socialismo realmente funcionava: com um governo assistencialista intermediando a riqueza ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e justo.

O professor então disse, “Ok, vamos fazer um experimento socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas nas provas.” Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e portanto seriam ‘justas’. Todos receberão as mesmas notas, o que significa que em teoria ninguém será reprovado, assim como também ninguém receberá um “A”.

Após calculada a média da primeira prova todos receberam “B”. Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado.

Quando a segunda prova foi aplicada, os preguiçosos estudaram ainda menos – eles esperavam tirar notas boas de qualquer forma. Já aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do trem da alegria das notas. Como um resultado, a segunda média das provas foi “D”. Ninguém gostou.

Depois da terceira prova, a média geral foi um “F”. As notas não voltaram a patamares mais altos mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe. A busca por ‘justiça’ dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela turma. No final das contas, ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos repetiram aquela disciplina… Para sua total surpresa.

O professor explicou: “o experimento socialista falhou porque quando a recompensa é grande o esforço pelo sucesso individual é grande. Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros para dar aos que não batalharam por elas, então ninguém mais vai tentar ou querer fazer seu melhor. Tão simples quanto isso.”

1. Você não pode levar o mais pobre à prosperidade apenas tirando a prosperidade do mais rico;
2. Para cada um recebendo sem ter de trabalhar, há uma pessoa trabalhando sem receber;
3. O governo não consegue dar nada a ninguém sem que tenha tomado de outra pessoa;
4. Ao contrário do conhecimento, é impossível multiplicar a riqueza tentando dividí-la;
5. Quando metade da população entende a idéia de que não precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação.


Em primeiro lugar, nos atenhamos ao “um professor de economia em uma universidade americana”. Qual é o nome do professor? De qual universidade ele é? O fato do texto não passar tais informações me faz pensar que muito provavelmente tal “experimento socialista” jamais aconteceu. Basta lembrar que o “experimento nazista” relatado no filme “A Onda” não foi ideia “de um professor de História em um colégio nos Estados Unidos”: o professor se chamava Ron Jones, e a escola era a Cubberley High School, em Palo Alto, Califórnia. Mas, vamos dar ao texto o benefício da dúvida e supor que o experimento realmente aconteceu – afinal, o mais importante é contra-argumentar.

Os alunos acreditavam, como o texto mostra, que basta o Estado redistribuir a riqueza e criar uma sociedade igualitária para que haja socialismo. Nada mais errado. Afinal de contas, socialismo não é simplesmente todos ganharem o mesmo: é preciso dar a todos as mesmas oportunidades de seguirem seus caminhos (o que, bem sabemos, não existe em uma sociedade como a nossa). Mas de nada adiantará todos termos “o mesmo ponto de partida”, se o individualismo continuar a ser mais importante que a solidariedade, como aconteceu na turma: as notas foram “coletivizadas”, mas os alunos continuaram a agir “cada um por si”, sem ajudarem uns aos outros, mesmo sabendo que tal atitude prejudicaria a todos – se todos tirassem “A”, a nota da turma seria “A”. (Daí a importância da educação, que jamais será neutra: o sonho dos reacinhas de plantão que reclamam da “partidarização” do ensino é que os professores apenas “preparem os alunos para o mercado” – ou seja, uma educação voltada para a manutenção do status quo.)

O professor (que, como já deu para perceber, não era socialista), em resposta aos alunos que acreditavam saber o que é socialismo, decidiu fazer o experimento com as notas das provas. Em primeiro lugar, sou da opinião que provas não medem o conhecimento de ninguém (quem nunca se ferrou numa prova para a qual tinha estudado um monte?). Em segundo lugar, lembro que já me aconteceu num final de ano no colégio de estar passado em uma matéria (provavelmente matemática) e um colega precisar de muita nota para passar: eu queria poder passar um pouco de meus pontos para ele não ter tanta dificuldade. Mas não podia, pois isso seria um estímulo para o cara “continuar não estudando” (quando na verdade eu é que quase não estudava, por ter menos dificuldade para compreender a matéria; já o colega “se matava” de tanto estudar e ainda assim ia mal).

O “experimento socialista” do professor demonstrou que “o socialismo não funciona”. O motivo foi muito simples: ele foi feito para isso. Pois como eu disse, socialismo não é simplesmente “redistribuir riqueza”, e foi apenas isso que o professor procurou fazer.

Sem contar que ele cometeu um erro crasso: usou um bem “infinito” (a soma da nota das provas) para demonstrar o “fracasso” da distribuição equitativa de bens finitos (recursos materiais). A riqueza de um país pode variar pelos mais diversos motivos (crises econômicas, aumento ou redução de importações e exportações etc.), mas é finita. E se pensarmos em termos globais (ou seja, na riqueza do mundo), fica ainda mais fácil entender, visto que não temos relações comerciais com outros planetas.

Um exemplo simples: um hipotético grupo de dez pessoas, isolado do resto do mundo, possui um total de cem pedras (não sendo possível encontrar mais) e elas foram distribuídas de forma igualitária (ou seja, dez para cada pessoa); é impossível que todos os membros do grupo possam ter mais pedras ao mesmo tempo, pois para que um deles tenha, digamos, doze pedras, a “riqueza” somada dos nove restantes deverá diminuir em duas pedras; e para que uma das pessoas tenha o máximo (ou seja, cem pedras), o restante terá de ficar sem nada. Bem diferente das notas das provas: uma grande quantidade de notas baixas em uma sala não necessariamente significa que uma minoria tire notas absurdamente altas; sem contar que o próprio texto indica que o professor “jamais havia reprovado nenhum aluno”, sinal de que é perfeitamente possível que todos tirem boas notas ao mesmo tempo, o que não acontece com a riqueza.


Agora, vou responder aos cinco tópicos que estão no final do texto.


Tirar a prosperidade do mais rico não significa levar o pobre à prosperidade, fato. Afinal, ela pode ser repassada ao segundo mais rico… Mas é impossível os pobres serem menos pobres sem os ricos serem menos ricos, justamente porque a riqueza é finita;


Para cada um recebendo sem trabalhar, há alguém trabalhando sem receber – ou recebendo muito pouco. Exato: quem compra ações que se valorizam na Bolsa de Valores ou ganha na loteria, recebe (muito) dinheiro sem derramar uma gota de suor;


O governo não consegue dar nada a ninguém sem que tenha tomado de outra pessoa. E é exatamente o que tem de fazer: tirar de quem tem muito e repassar aos que têm pouco, para reduzir a desigualdade;


Ao contrário do conhecimento, é impossível multiplicar a riqueza tentando dividi-la – prova do erro crasso cometido pelo professor. O conhecimento não tem limites e precisa ser multiplicado, enquanto que a riqueza é finita e por isso, tem de ser dividida;


Me digam algum país onde metade da população possa se dar ao luxo de não trabalhar. Brasil? Só se quiserem fazer com que eu tenha um ataque de riso: o Bolsa Família, por exemplo, é apenas ajuda, muito abaixo do salário mínimo – se ouvirem falar de alguém que largou o emprego para “viver” do Bolsa Família, podem ter certeza de que tal pessoa trabalhava por um salário de fome.


Por fim: o “socialismo” do professor falhou, como ele queria. Também falharam os socialismos da União Soviética e vários outros inspirados nela, pelos mais variados erros – autoritarismo, burocratização excessiva etc. Porém, isso não quer dizer que o socialismo esteja fadado a jamais dar certo: em “Era dos Extremos”, Eric Hobsbawm diz que “o fracasso do socialismo soviético não se reflete sobre a possibilidade de outros tipos de socialismo”. Ou seja, para usar um ditado bem popular, podemos dizer que o professor calçou “salto alto”: talvez não leve um tombo em vida, mas isso poderá acontecer com quem o imitar.



Fonte: Sul21
Imagem: Google (colocada por este blog)

sábado, 16 de março de 2013

OS SEGREDOS DO SANTO PADRE



Por Carlos Alberto Lungarzo

Não é um segredo para ninguém o fato de que a totalidade das hierarquias católicas são inimigas da homossexualidade (alheia), condenam o aborto até de fetos anencefálicos (o aborto voluntário é admitido por todos os países Europeus, salvo Espanha), advogam pelo celibato sacerdotal, proíbem o sexo por prazer, consideram a mulher um ser inferior, etc. 

Inclusive o aborto e o homoerotismo são criticados pela assim chamada “Teologia da Libertação”, tida como minoria progressista da Igreja.


Tampouco é novidade a histórica aliança de 1700 anos entre a Igreja e as grandes ordens de Cavalheiros e, depois, dos exércitos regulares, o que culminou no século XX com o apoio ao fascismo e a sua versão mais truculenta, o sangrento franquismo espanhol.


Dizer que o novo papa, Francisco, compartilha esses valores seria uma redundância.


Mas há alguns “segredos” na vida do pontífice que nem todos conhecem fora de seu país de origem. De fato, quando ele foi proclamado Papa, milhões de pessoas no mundo devem ter comprado um mapa para saber onde tinha nascido aquele homem de aspecto simpático e humilde, e biótipo de italiano do Norte. É natural que alguns desses detalhes não se conheçam.


Para os que desejem informar-se, há numerosos artigos na Internet, e até alguns livros, cujo conteúdo o próprio Francisco tentou rebater num contra-livro, só em 2010, quando sua condição de um dos grandes favoritos (já insinuada em 2005, quando ganhou o segundo lugar após Ratzinger) se tornou mais concreta.


Os interessados podem ver, entre outros muitos, os seguintes links:


http://www.redebrasilatual.com.br/temas/internacional/2013/03/novo-papa-e-associado-a-sequestros-de-jesuitas-e-de-bebe-durante-ditadura
http://www.cbsnews.com/8301-202_162-57574147/jorge-bergoglio-who-is-the-new-pope/
http://www.advivo.com.br/blog/antonio-ateu/vaticanao-o-papa-da-ditadura-militar-argentina


O leitor encontrará também outros textos, alguns escritos por organizações que assinam como católicas. Eventualmente, como em todos os casos, alguns textos podem não ser 100% verídicos, mas eu não estou fazendo uma acusação. Estou apenas informando de acusações feitas por outros, e cabe ao leitor se perguntar: “Qual seria o interesse dessas pessoas em criticar um humilde servidor de Deus?”

A Argentina voltou à normalidade democrática em 1983 quando o então padre Bergoglio estava com 47 anos. Nessa época, o atual papa era reitor do Colégio Máximo San José (da cidade de San Miguel), o maior seminário de formação de sacerdotes da Argentina (1980-1986) após ter sido, entre 1973 e 1979, o principal chefe (dito, na gíria eclesial, provincial) da poderosa e influente ordem dos jesuítas.


Sendo Argentina um país absolutamente católico, sem qualquer miscigenação com religiões nativas como no resto das Américas, e tendo como exceção apenas uma comunidade judia que sempre padeceu perseguição (e alguns evangélicos e islâmicos), tudo o que faz a Igreja foi sempre claramente percebido pelo resto da sociedade. Aliás, ainda hoje, Argentina talvez seja o único país (não sei o que acontece atualmente na Polônia, mas eventualmente poderia ser um de dois casos), em que a Igreja não está separada do Estado. Por exemplo, o Estado paga um salário aos bispos (não sei se Bergoglio o aceita ou o doa), mas já houve um conflito com o Vaticano quando Nestor Kirchner quis tirar a mensalidade de uns 3.000 dólares a um bispo que propôs que o ministro Gines, defensor da camisinha, devia ser linchado.


Em 1983, Jorge Bergoglio, uma figura austera, silenciosa, alheia a chamar a atenção, não tinha nenhuma influência política evidente, mas acumulava muita influência invisível. Ele utilizou essa influência para tentar mostrar um rosto “moderno” da Igreja, modificando a imagem desta como cúmplice qualificado e ativo dos genocídios e torturas generalizadas, que foram comuns na Argentina muitas vezes.


Por que fez isto? Muito simples. Apesar de ter mais de 90% de católicos e da mística medieval que impregna quase todas as instituições da Argentina (pelo menos, até a última vez que eu estive em meu país de origem), a Igreja ganhou um enorme número de inimigos combatentes, muitos dos quais, de maneira paradoxal, continuavam se considerando católicos.


Esses inimigos formavam um grande grupo de pessoas que eram parentes, amigos ou conhecidos qualificados dos desaparecidos pela ditadura de 1976. O número de mortos em tortura e depois desaparecidos foi tradicionalmente fixado em 30.000 no ano de 1978, mas eu acredito que o número total deve ser muito maior, provavelmente entre 35.000 e 42.000, tendo em conta que a ditadura continuou até 1983.


(Não é este o lugar para justificar esta afirmação que surge de documentação dispersa, e de documentos internacionais parcialmente desclassificados.)


Unidos aos parentes dos 1.200.000 exilados, refugiados e asilados pelo mundo (ou seja, 3% dos habitantes do país nesse momento), os familiares e amigos dos desaparecidos deviam somar algo como 6 milhões, o que significa 20% da população. Calculo que, embora muitas pessoas não tivessem parentes nem amigos, é razoável considerar que a média de afetos por cada exilado ou desaparecido seja de 5 pessoas.


Como é bem conhecido, a Igreja Católica apoiou intensa e devotadamente os crimes da ditadura, não apenas encobrindo ou justificando-os, mas também dando apoio psicológico e propagandístico, colocando a seu serviço seu aparato internacional (incluída a máfia italiana e o grupo P2), abençoando as máquinas de choque e os instrumentos usados para mutilação, e até, em vários casos, aplicando tortura com suas próprias mãos.


Há pelo menos 40 livros em espanhol e pelo menos 15 em inglês, dedicados de maneira total ou parcial à cumplicidade da Igreja Católica com os crimes de Estado na Argentina nos anos 1976-1983, e milhares de páginas de Internet.


Padre Christian Wernich
De todos os casos de católicos aliados da ditadura, o mais espantoso é o do padre Christian Wernich, condenado em 2007 a prisão perpétua. Os que sobreviveram a seu sacerdócio afirmam que, de todos os torturadores civis e militares, ninguém era tão temido como o santo confessor. Ele chamava “fazer a barba” a passar a máquina elétrica, mas esta não era a máquina de barbear, mas de aplicar choque. 


Bergoglio
Com seu estilo discreto, Bergoglio tentou jogar um manto de esquecimento nos fatos protagonizados por uma das mais poderosas e compactas igrejas do planeta, num dos países mais católicos do mundo, junto com a Polônia e a Irlanda. Não sabemos se ele conseguiu refrear a saída de fieis da Igreja, já que no ano 2000, menos de 10% do país assistia regularmente a missa. Mas, ele fez grandes esforços e até permitiu a jornalistas estrangeiros que redigissem biografias sobre ele, e escreveu sua própria versão de sua vida, tentando refutar algumas dúzias de testemunhos que o acusavam de ter participado ativamente na ditadura. Ele fez um trabalho similar ao de Pio XII, quando, depois da guerra, tentou disfarçar, sem nenhum sucesso, a estreita colaboração do Vaticano com o nazismo.

Mas, antes de 1983, como era a relação de Francisco com a ditadura? 

Jesuítas e Crianças

Como em muitos outros países, uma minoria de padres apoiou a causa dos direitos humanos e teve certa militância no que foi chamado “Teologia da Libertação”.


Dois deles foram os jesuítas Orlando Dorio e Francisco Jalic que propagavam uma visão social do cristianismo em favelas e bairros populares. Estes padres foram capturados pelos esquadrões da morte dos militares e submetidos a tortura, mas conseguiram sobreviver. Enquanto Jalic se fechou num mosteiro alemão e nunca mais falou de seu passado (e possivelmente, nunca voltou a Argentina), Dorio acusou explicitamente a Bergoglio, que era a máxima autoridade de jesuítas, de ter negado proteção, e ter permitido que ele fosse capturado.


Em vários dos links citados, especialmente no editado pela UNISINOS, há numerosos detalhes que descrevem, em total, uma quantidade apreciável de testemunhas. Embora a mídia brasileira tenha ignorado estas afirmações e diga que são simples conjecturas, um número tal de testemunhas seria possivelmente aceito por um tribunal penal.
Bergoglio usou por duas vezes os privilégios de não acatar as decisões da justiça, privilégio que a Argentina concede aos bispos, que têm um fórum privilegiado equivalente ao dos deputados, senadores e presidentes. Em função disso, recusou dar depoimento aos tribunais que julgaram os crimes contra a humanidade na época da ditadura.
Bergoglio aceitou, porém, comparecer a uma terceira intimação, quando a pressão dos milhares de vítimas se tornou muito intensa.


Segundo a advogada Myriam Bregman que trabalha em direitos humanos, as afirmações de Bergoglio, quando aceitou ir aos tribunais, mostram que ele e outros padres eram coniventes com os atos praticados pela ditadura. Ele, porém, não foi indiciado, também com base na “falta” de provas.


Em 1977, a família De la Cuadra - formada por ativos defensores do direitos humanos (cuja matriarca Licha, 1915-2008, foi condecorada pelos governos democráticos posteriores à ditadura) - teve sequestrados cinco de seus membros, dos quais apenas um reapareceu muito depois.


O padre Bergoglio se recusou a indagar onde eles estavam e até a ajudar a procurar uma criança recém nascida, filha de uma das mulheres desaparecidas.
Em algumas ocasiões, o Santo Padre não pode refutar que a ditadura argentina tinha feito numerosas atrocidades, mas argumentou que isso foi uma resposta provocada pela esquerda, que, segundo ele, também teria usado o terror. Este infame argumento, como todos sabem, foi fortemente repudiado em todos os países que tiveram ditaduras recentemente.


Durante o governo de Néstor Kirchner e, após, o de sua esposa, Cristina Fernández, o atual papa, mantendo seu estilo “sutil” aproveitou para criticar muitas vezes ao governo (que, como o governo brasileiro, subiu ao poder pelo voto popular), o acusando de ditatorial, de gerar o caos, de defender pessoas de vida sexual “abominável”, etc.


Bergoglio,  Néstor e Cristina Kirchner

Com seu estilo aparentemente moderado, Bergoglio teve certo sucesso onde outros padres, que pregaram abertamente a tortura e o genocídio dos ateus e marxistas, fracassaram. Com efeito, apesar de ser unanimemente repudiado pelos defensores de direitos humanos, inclusive os católicos, ele nunca foi processado, como aconteceu com o padre Wernich, e até conseguiu forjar uma máscara de tolerância.





Fonte: A Luz Protegida

Imagens: Google

quinta-feira, 14 de março de 2013

"Democratas" e ditadores






Democratas e ditadores

O que, os que se dizem “democratas”, gostariam de merecer:





"Chávez, você é a alma e a esperança dos povos oprimidos da América".
(Piedad Córdoba)







“Hugo Chávez é a alma de nossos povos, é a própria poesia, é a própria revolução. Saiu das entranhas do povo e das Forças Armadas venezuelanas para dar início à luta libertária por seu país, pela América e pela humanidade. A revolução bolivariana que o comandante Chávez semeou já é colhida na Venezuela e em toda a América Latina. Já não existe retrocesso possível”.  (Daniel Ortega)



“Trata-se de um ditador raríssimo, porque ganhou 12 eleições e é muito raro que um ditador ganhe 12 eleições de maneira limpa”.
(Eduardo Galeano)




“Não deve ter presidente na América Latina e no mundo que tenha passado por tantas eleições e as tenha ganhado como Chávez. Não acredito que alguém possa ser antidemocrático tendo ganhado tantas eleições”.
(Cristina Kirchner)


“Sob o governo de Chávez, o governo venezuelano teve conquistas extraordinárias. As classes populares jamais foram tratadas com tanto respeito, carinho e dignidade. Estas conquistas precisam ser preservadas e consolidadas. Obrigado, companheiro, por tudo que fez pela América Latina”. (Fidel Castro)


“Chávez mudou a história da Venezuela e creio que de grande parte da América Latina. É um extraordinário ser humano. Foi incrível o que ele conseguiu. Seu país tem sido um exemplo para toda a América Latina. O admiramos muito”. (Rafael Correa)


“Sem dúvida Chávez é o melhor presidente que a Venezuela teve nos últimos cem anos. E ainda assim não exerce nem remotamente a influência que atribuem a ele. A Europa não precisa ter medo da esquerda latino-americana”.
(Luiz Inácio Lula da Silva).


"Hugo Chávez é um demônio. Por quê? Porque alfabetizou dois milhões de venezuelanos que não sabiam ler nem escrever, ainda que vivessem em um país que tem a riqueza natural mais importante do mundo, que é o petróleo. Eu vivi neste país alguns anos e conheci bem o que era. Lá havia dois milhões de crianças que não podiam ir para as escolas porque não tinham documentos. Então chegou um governo, este governo diabólico, demoníaco, que faz essas coisas elementares, como dizer ‘as crianças devem ser aceitas nas escolas com ou sem documentos’. E então o mundo caiu. Isso é uma prova de que Chávez é um malvado, muito malvado".
(Eduardo Galeano)




Fonte: C de ...

quinta-feira, 7 de março de 2013

El Comandante deixou o prédio [1]




6/3/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online



Parece filme, a história de um homem do povo que cresce, contra todas as probabilidades até se tornar o Elvis político da América Latina. Muito maior que Elvis, na verdade, presidente que venceu 13 de 14 eleições nacionais democráticas. Chance zero de alguém ver esse filme premiado com algum Óscar – nem, jamais, de ser produzido em Hollywood. A menos, é claro, que Oliver Stone convença a HBO a fazer um especial para a televisão a cabo e DVD.

José Mujica
Que inspirador, que iluminador assistir às reações dos líderes mundiais à morte de El Comandante Hugo Chávez da Venezuela. O presidente do Uruguai Jose Mujica – homem que rejeita 90% do salário, porque insiste que precisa de muito menos para atender às suas necessidades básicas – mais uma vez lembrou que, para ele, Chávez sempre foi “o líder mais generoso que jamais conheci”; e elogiou a “fortaleza da democracia” da qual Chávez foi grande construtor. 

Compare-se isso com o presidente dos EUA Barack Obama – no que parece ser requentamento, tipo corta-cola, de circular interna da Casa Branca – reafirmando o apoio dos EUA “ao povo venezuelano”.



Estaria apoiando o mesmo “povo venezuelano” que elegeu e reelegeu Chávez, sem interrupção, desde o final dos anos 1990s? Ou é apoio só ao “povo venezuelano” que vive a entornar Martinis em Miami, enquanto demoniza Chávez como perigoso comunista do mal?

 
El Comandante pode até já ter deixado o prédio – o corpo derrotado pelo câncer –, mas a demonização post mortem prosseguirá para sempre. Uma das razões disso salta aos olhos. A Venezuela é dona da maior reserva de petróleo do mundo. Washington e aquela cidadela kafkiana, em ruínas, também conhecida como União Europeia vivem a cantar All You Need is Love, sem parar, aos pés daqueles fantasmagóricos, espectrais, feudais petromonarcas do Golfo Persa (nunca, claro, para “o povo”), em troca do petróleo deles. Mas, diferente disso, na Venezuela, El Comandante Chávez apareceu lá com a ideia subversiva de usar a riqueza do petróleo para, pelo menos, minorar o sofrimento dos venezuelanos. O turbocapitalismo ocidental, como é bem sabido, não faz redistribuição de riqueza nem dá força e poder a valores comunitários. 

Odeio você, cabron

Segundo o Ministro de Relações Externas, o vice-presidente Nicolas Maduro – e não o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, íntimo dos chefes militares – assumirá a presidência até as próximas eleições, a serem realizadas dentro de 30 dias. Tudo autoriza a prever que Maduro será eleito. A oposição política na Venezuela é uma piada em formato de colcha de retalhos. Pode-se começar a pensar em chavismo sem Chávez – para imenso desgosto e ira infinita da vasta indústria pan-americana e pan-europeia de odiadores de Chávez.

Não aconteceu por acaso, que El Comandante tenha-se tornado imensamente popular entre “o povo”, não só em vastas regiões da América Latina mas, também, em todo o Sul Global. Esse “o povo” – e não é o mesmo “o povo” de que Barack Obama fala – viu claramente a correlação direta que há entre o neoliberalismo e a expansão da miséria (hoje, milhões de europeus estão duramente conhecendo o mesmo gosto amargo). Especialmente na América do Sul, foi a reação popular contra o neoliberalismo que desencadeou – mediante eleições democráticas – uma onda de governos de esquerda na última década, da Venezuela à Bolívia, Equador e Uruguai.

O governo Bush detestou tudo isso – para dizer o mínimo. Nada pôde fazer contra Lula no Brasil – operador inteligente que vestiu terno neoliberal (Wall Street o adorava), mas manteve o coração progressista. Washington – incapaz de pensar fora da caixa dos vícios dos golpes e mais golpes dos anos 1960s e 1970s – supôs que Chávez seria o elo fraco. Assim aconteceu, em abril de 2002, o golpe chefiado por uma facção de militares, que pôs no poder (digamos!) um rico empresário venezuelano. O golpe, apoiado pelos EUA, durou menos de 48 horas; Chávez foi devidamente reimpossado, apoiado pelo “o povo” (o verdadeiro) e grande parte do Exército.

Exatamente por isso, nada há de surpreendente em Maduro ter anunciado, algumas horas antes da morte de El Comandante, que dois empregados da embaixada dos EUA estavam sendo expulsos do país: o adido David Delmonaco e o adido-assistente Devlin Costal. Delmonaco foi acusado de fomentar – e o que mais essa gente “fomenta”?! – um golpe, com alguns grupos de militares venezuelanos. Esses gringos não aprendem!

Há entre os chavistas imensíssima suspeita de que El Comandante tenha sido envenenado – e bem se pode prever algum tipo de replay talvez um pouco mais complexo do que aconteceu a Yasser Arafat em 2004. Pode ter sido envenenado por Polônio-210 radiativo, como no caso de Arafat. A CIA, menina dos olhos de Hollywood, talvez tenha também algumas ideias sobre mais esse assassinato.

Estou todo mexido... [2]

Está aberto o veredicto sobre que exato tipo de revolucionário foi Chávez. Sempre elogiou todos, de Mao a Che, no Pantheon revolucionário. Sem dúvida foi líder popular muito habilidoso, com fino olhar geopolítico para identificar os padrões centenários de subjugação da América Latina. Daí suas repetidas referência à tradição revolucionária hispânica, de Bolívar a Martí.

O mantra de Chávez era que a única saída para melhor futuro na América Latina teria de ser a integração; daí os muitos e muitos mecanismos que criou e impulsionou, da ALBA (Aliança Bolivariana) a Petrocaribe, do Banco do Sul à UNASUL (União dos países latino-americanos).

Quanto ao seu “socialismo do século 21”, que escapava de todas as camisas-de-força ideológicas, fez mais para explorar o verdadeiro espírito dos valores comuns e partilhados – como um antídoto contra a putrefação do capitalismo financeiros super turbinado – que toneladas de análises acadêmicas neomarxistas.



Não surpreende que, para a gangue e asseclas de Goldman Sachs, Chávez pareça mais perigoso que a Peste Negra. A Venezuela comprou jatos Sukhoi de combate; criou e aprofundou laços estratégicos com dois grandes BRICS, Rússia e China – além de outros atores em todo o Sul Global; mantém mais de 30 mil médicos cubanos em treinamento de medicina preventiva, vivendo em comunidades pobres –, o que gerou uma explosão de jovens venezuelanos estudando medicina. 

Números impressionantes contam grande parte da história que tem de ser conhecida. O déficit público na Venezuela não passa de meros 7,4% do PIB. A dívida pública alcança apenas 51,3% do PIB – muito abaixo da média da União Europeia. O setor público – ao contrário do que pretendem as apocalípticas acusações de “comunismo!” – equivale a apenas 18,4% da economia, menos que a estatizada França e que toda a Escandinávia. Em termos de geopolítica do petróleo, as quotas são estabelecidas pela OPEC; assim, o fato de que a Venezuela esteja exportando menos para os EUA implica que está diversificando seu portfólio de clientes (e exportando mais e mais para a China, parceira estratégica).

E eis o grande trunfo: a pobreza desgraçava 71% dos cidadãos venezuelanos em 1996. Em 2010, a porcentagem já fora reduzida para 21%. Para análise séria da economia venezuelana na era Chávez,

vide http://venezuelanalysis.com/analysis/7513.

Anos atrás, foi preciso que aparecesse um romancista soberbo, como Garcia Marquez, para ver e explicar que o segredo de El Comandante estava em ele ser o grande Comunicador; era um deles (do seu “povo”, não no sentido de Barack Obama); da aparência física às atitudes e maneirismos, à cordialidade, ao palavreado (o mesmo se aplicava a Lula, em relação a muitos brasileiros).

Assim sendo, enquanto Oliver Stone sonda o mercado cinematográfico, temos de esperar por algum Garcia Marquez, que eleve Chávez ao Walhalla literário. Uma coisa é certa: em termos da narrativa do Sul Global, a história recordará que El Comandante, sim, deixou o prédio. Mas, depois dele, o prédio nunca mais foi o mesmo.







[1] A expressão tradicional, já idiomática, é Elvis has just left the building [Elvis deixou o prédio], expressão que se usava, ao final dos concertos de Elvis Presley, para que a multidão se dispersasse. Frank Zappa usou a expressão como título da trilha de abertura do álbum “Broadway the Hard Way” (ouve-se em http://www.youtube.com/watch?v=mvNV5IxxB4A) [NTs]. 
[2] Orig. All shook up, rock and roll que Elvis Presley gravou em 1957, que se ouve em http://letras.mus.br/elvis-presley/31545/ (mais sobre a canção em http://en.wikipedia.org/wiki/All_Shook_Up ) [NTs].



da Vila Vudu


Fonte: Grupo Beatrice
Imagens: Google (colocadas por este blog)


terça-feira, 5 de março de 2013

Hugo Chávez - Comandante da Revolução Bolivariana





O VALOR DA CORAGEM ESTÁ EM ENFRENTAR OS PROBLEMAS, SEM MEDO
SEGUIR EM FRENTE, DE CABEÇA ERGUIDA
SENTIR, QUE HÁ ALGO DE BOM NA VIDA...


HUGO CHÁVEZ LUTOU POR ISSO...
HUGO CHÁVEZ DERRUBOU TODOS OS OBSTÁCULOS
EMPURROU BARREIRAS...
FEZ DA VIDA UMA COMPETIÇÃO
EM QUE TODOS OS DIAS, O POVO VENEZUELANO FORAM OS VENCEDORES!


O VALOR DA CORAGEM DE HUGO CHÁVEZ ESTAVA EM NÃO DESISTIR NUNCA!


O VALOR DA CORAGEM DE HUGO CHÁVEZ, ESTAVA EM SUPERAR OS MEDOS
SUPERAR OS MOMENTOS DE DESILUSÃO DO POVO VENEZUELANO
SE ARMOU DA FORÇA E DA CORAGEM
SEGUIU EM FRENTE
E NÃO SE AMEDRONTOU COM OS PERIGOS...


OS OBSTÁCULOS QUE FORAM POSTOS NO SEU CAMINHO
FORAM POR ELE ULTRAPASSADOS...
FEZ DISSO, SEU LEMA
E NADA TEMEU!


ARMOU-SE DE CORAGEM
PARA ULTRAPASSAR, TUDO QUE A VIDA LHE PROPÔS
DURANTE ANOS A FIO


TEVE CORAGEM PARA ULTRAPASSAR 
AS BARREIRAS E PEDRAS NO SEU CAMINHO...
CONTINUOU CORAJOSO


GUERREIRO, VALENTE


LUTOU PELO POVO VENEZUELANO,
LUTOU CONTRA O IMPERIALISMO
LUTOU PELA VIDA!



CORAGEM,


ESSE É O TEU NOME COMANDANTE


HUGO CORAGEM CHÁVEZ!!!









Fonte: Google (adaptado por este blog)

domingo, 3 de março de 2013

Quanto algumas ONGs ganham com a miséria?




(Para quem ainda não assistiu)



"Quanto vale ou é por quilo?" é um filme dirigido por Sérgio Bianchi. ONGs e entidades desonestas são acusadas de lucrarem com a miséria, usando dinheiro público. E ainda mostra como a miséria tem cor e endereço certos. É negra e favelada.

Infelizmente o filme não vai chegar ao grande público. Mas é bastante didático e coloca o dedo na ferida da "indústria da solidariedade". Deveria ser visto em escolas, cursinhos populares, associações comunitárias. Mas sempre seguido de debates. Até para que ONGs e entidades sérias possam se defender.

O filme começa com a história de uma escrava que conseguiu comprar sua liberdade, no final do século 18. Trabalhando e poupando, ela conseguiu ter uma pequena propriedade e alguns escravos. Mas, eis que aparecem alguns capitães-do-mato em seu rancho. São caçadores de escravos fugitivos. Eles prendem um de seus cativos. Ela protesta, mas não adianta.

Seguindo os caçadores, ela vê que eles entregam o negro na casa de um senhor branco. A negra bate à porta do dito cujo. Mostra os papéis que provam ser ela a proprietária do escravo. O senhor branco fecha a porta na cara dela. Revoltada, ela grita: "lugar de ladrão é na cadeia". Resultado: é processada e condenada por perturbação da ordem pública. Trata-se de um caso verdadeiro. Ao longo do filme, eles se repetirão, com os devidos registros e datas.

Esta cena mostra que ser proprietário no Brasil não basta. É preciso ser branco também. Mesmo hoje, ter um automóvel novo e ser negro é motivo suficiente para ser vítima de batidas policiais ou coisa pior. Mas o caso revela outra coisa, também. É o mecanismo de repasse da dominação. A negra liberta também tem seus escravos. É natural, diz o narrador do filme. É assim que funcionava o sistema na época. Só que esse mecanismo continua a funcionar, diz o filme.

Para ilustrar isso há uma cena nos tempos de hoje. Uma Kombi chega na madrugada para ajudar mendigos. Distribuir cobertas, sopa e café. Logo em seguida, um outro grupo chega em outra perua. É expulso pela líder do primeiro veículo. Ela quase diz "esses mendigos são meus. Caiam fora". É a remediada ajudando os esfarrapados, para continuar recolhendo donativos e fazendo seu pé-de-meia.

Voltando ao passado escravista, o filme conta a história de uma escrava idosa que tenta juntar o dinheiro suficiente para se libertar. Conhece uma senhora branca que não é rica, mas é esperta. Paga a liberdade da velha escrava em troca do trabalho dela por mais um ano, pago com juros. O investimento dá resultado. A velhinha acaba tendo que trabalhar por mais 3 anos antes de se ver livre de sua "benfeitora".

O paralelo é claro. Tanto no tempo da escravidão, como na época atual, há um espaço para fazer jogadas. Num caso, são os brancos pobres explorando negros cativos. No outro, são empreendedores espertos da solidariedade transformando a miséria em fonte de riqueza. De um lado, continuam sendo quase todos brancos. De outro, quase todos são negros.

Multiplicar o número de criminosos e crianças pobres para criar empregos

Os paralelos vão se multiplicando. Mais um caso antigo aparece. Fala sobre os capitães-do-mato da época da escravidão. A maioria era formada por negros. Viviam de caçar escravos fugidos. É o caso de um deles, que captura uma negra fugida. Ela está grávida e aborta no momento em que é entregue a seu dono. A negra sangra ao lado dos dois, enquanto o narrador explica que o dinheiro ganho pelo caçador servirá para que o filho tenha uma vida melhor que a dele.

De volta ao mundo atual, um desempregado é pressionado pela mulher grávida e pela tia a trazer dinheiro para casa. Desesperado, ele vira matador-de-aluguel. Suas vítimas são negras e pobres como ele. Não seria mais do que um capitão-do-mato moderno, e também procura um futuro melhor para seu filho. Apesar disso, a tia do matador explica que serviços como o que ele faz conta com gente muito mais profissional e treinada. Enquanto ela fala, aparece a cena mais corajosa do filme. Um camburão invade o calçadão da Praça da Sé no meio da madrugada. Os policiais arrancam crianças-de-rua de seu sono, ao pé de uma árvore. Jogam-nas dentro do compartimento dos presos. Tudo indica que o destino delas será o extermínio.

Continuam os casos registrados. Na época do império, um negro é alugado para fazer a contabilidade de uma empresa. Acusado de roubo, foge. É preso e violentamente espancado. Seu proprietário processa o dono da empresa que o alugou. Prova que o escravo não roubara nada. Exige indenização, dizendo que seu patrimônio foi danificado. Ganha a causa e recupera com lucros o investimento perdido na recuperação do escravo.

É desse jeito que nasceu o capitalismo. Seres humanos eram mercadorias. Depois no capitalismo maduro, tornaram-se menos do que isso. Apenas objetos de exploração. Mas hoje, também há os que nem isso são mais. São os desempregados, mendigos, presidiários, crianças abandonadas.

Nem por isso deixam de ser fonte de lucros, acusa o filme de Bianchi. Mas também sobram ataques aos governos. Há, por exemplo, uma propaganda governamental que conta as maravilhas envolvidas com a criação de empregos através da construção de presídios. Um outro comercial cita o dinamismo da ação solidária. Um entusiasmado locutor diz que cada criança desamparada gera 5 empregos. A lógica é óbvia. Multiplicar o número de criminosos e crianças pobres para criar empregos!

Mas tudo isso tem uma galinha dos ovos de ouro. É o acesso aos fundos públicos. Seminários e cursos ensinam como agarrar essa galinha sem ficar só com as penas nas mãos. O caminho passa por conhecer a pessoa certa na hora certa e no lugar adequado. A taxa de acesso varia entre 15% e 20%, claro.

Uma conta muito didática é exposta. Diz o filme que são cerca de 10 mil crianças de rua no Brasil. As verbas públicas reservadas para dar conta do problema seriam de, mais ou menos, 1 milhão de reais. Este milhão dividido pelas 10 mil crianças seria suficiente para lhes pagar escola particular do primário até a faculdade, por exemplo. Mas esse dinheiro precisa passar por ONGs, entidades assistenciais e empresas "solidárias". Tal como no caso da senhora escrava e da branca esperta a liberdade tem intermediários prontos a lucrar com isso.

Entidades "pilantrópicas" seqüestram o dinheiro público usando os pobres como reféns

O que parece ser uma alternativa a tudo isso surge com o personagem do presidiário negro. Numa cela superlotada ele olha para a câmera e explica "Quando éramos escravos, éramos máquinas. Investimentos de capital. Tínhamos que ser mantidos alimentados e saudáveis. Agora, somos escravos sem senhor". E conclui: "Na democracia, só existe liberdade para quem pode consumir".

Esse mesmo personagem foge da cadeia. Pagou para isso e, agora, quer recuperar o investimento. Seqüestra um dos sócios de uma ONG. Consegue receber o resgate, depois de enviar uma orelha e outros pedaços do refém à sua esposa. Chama a isso de redistribuição de renda.

Enquanto isso, a negra Arminda descobre o superfaturamento na compra dos computadores feita por uma ONG para sua comunidade. Consegue provas da maracutaia. Exige que a entidade use o dinheiro que desviou para comprar computadores decentes. Sem conseguir ser atendida, ela invade uma festa da entidade e grita: "Lugar de ladrão é na cadeia".

Diante disso, os pilantras e seus amigos políticos decidem resolver o problema. O matador-de-aluguel é convocado. Vai atrás de Arminda, tal como o capitão-do-mato fizera com a escrava fugida. Arminda morre com um tiro. O filme acaba. A sensação é de que não há saída. Mas, há um final alternativo.

Depois de iniciados os letreiros finais, a cena se repete. Dessa vez, Arminda convence o matador a poupar sua vida. Propõe formar um grupo para seqüestrar todos "os filhos da puta que roubam dinheiro do Estado". Agora sim, o filme acaba.

O problema é que o final alternativo também não aponta soluções. Claro que a vontade é concordar com Arminda e sair fazendo justiça com as próprias mãos. Mas, justiça será feita mesmo é coletivamente. A partir da organização dos de baixo para exigir políticas públicas reais. ONGs desonestas e entidades "pilantrópicas" devem ser condenadas. Elas seqüestram o dinheiro público usando os pobres como reféns. Mas, seqüestrar os seqüestradores não resolve. Eles só existem porque se beneficiam do esquema maior do poder. Da terrível distribuição de renda e da secular dominação racista.

Além disso, há o risco de valorizar demais as relações de dominação e exploração entre pobres e menos pobres. O principal é fazer mira nos poderosos, nos governos ou fora deles. O resto é conseqüência. De qualquer maneira, é um filme corajoso.







Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...