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domingo, 16 de fevereiro de 2014

IMPERIALISMO AMERICANO EXPRESSA APOIO À INTERNET "LIVRE" NA CHINA





O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, expressou seu apoio à liberdade da Internet na China durante uma reunião em Pequim com blogueiros chineses preocupados com a repressão das autoridades na Internet.

No ano passado, o Partido Comunista da China renovou uma campanha rigorosa para controlar a interação na Internet, ameaçando ações legais contra pessoas cujos boatos, captados em microblogs como o Sina Weibo, sejam reenviados mais de 500 vezes ou vistos por mais de 5 mil pessoas.

Grupos de direitos humanos e dissidentes criticaram a repressão como mais uma ferramenta do partido para limitar as críticas e aumentar o controle sobre a liberdade de expressão.

O governo diz que tais medidas são necessárias por motivos de estabilidade social e que todos os países do mundo procuram regular a Internet.

Durante uma conversa de aproximadamente 40 minutos com os blogueiros, Kerry afirmou ter exortado os líderes chineses a apoiar a liberdade na Internet e abordou o tema da liberdade de imprensa no país com controles rígidos sobre o que a mídia pode dizer e que bloqueia sites estrangeiros de mídias sociais populares como Twitter e Facebook.

"Obviamente, achamos que a economia chinesa será mais forte com maior liberdade na Internet", disse Kerry.



Fonte: 247
Imagens: Google (colocadas por este blog)

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"OBVIAMENTE, também acho que ficará mais fácil para os EUA promover uma possível "PRIMAVERA CHINESA" com maior "liberdade" da internet". 

Principalmente depois que a China tornou-se no maior pólo comercial do mundo, com o peso da sua balança comercial ultrapassando o dos Estados Unidos. A soma de importações e exportações dos EUA, totalizou 3,82 bilhões de dólares (2,86 bilhões de euros), poucas semanas depois de as alfândegas chinesas terem anunciado uma subida da sua balança para 3,87 bilhões de dólares (2,9 bilhões de euros).
Enquanto a balança comercial chinesa é excedentária em 231,1 mil milhões de dólares, a norte-americana é deficitária em 727,9 mil milhões de dólares.

A China é o maior exportador mundial desde 2009.

E somente isso já é um grande motivo para os EUA querer promover Twitter e Facebook na China.

(Burgos Cãogrino)




sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O DESESPERO DA MEDICINA MERCANTIL



Sentindo-se ameaçado pelo desempenho dos cubanos no Brasil, CFM (Conselho Federal de Medicina) oferece empregos "administrativos" para cooptá-los



No mesmo momento em que os funcionários dos hospitais federais entram em greve no Rio de Janeiro contra o controle de suas frequências através do ponto eletrônico, o Conselho de Medicina assume sem qualquer constrangimento uma estranha cruzada para oferecer "vagas administrativas" aos cubanos que desertarem do programa Mais Médicos, que está levando saúde a lugares do país que jamais viram um jaleco.

Isso seria surpreendente se essa entidade que congrega compulsoriamente 400 mil profissionais formados em universidades públicas e faculdades privadas não tivesse deturpado suas funções para acrescentar, ainda que informalmente, mais um "M" em sua sigla, de forma a identificar-se com as congêneres na sustentação da saúde de mercado, independente do médico das universidades oficiais ter custado mais de R$ 1 milhão a todos os contribuintes, visto por quase todos eles como fregueses em potencial.

Essa nova agressão à sociedade do Conselho Federal de Medicina (de Mercado) está em sintonia com o Cuban Medical Profesional Parole, um milionário programa do Departamento de Estado norte-americano de caça e cooptação dos médicos cubanos que trabalham hoje em mais de 60 países, numa missão que teria merecido o Prêmio Nobel da Paz, se os titulares desta badalada comenda também não sofressem influência da máquina mortífera global, ao ponto de distinguirem o presidente Barack Obama no início de um mandato em que triplicou suas tropas no Afeganistão.

Numa sociedade inercial, em que suas proeminências em todos os campos degeneraram por completo, a elite mercantilista que disputa a saúde dos brasileiros com a mesma cobiça e a mesma volúpia dos vendedores de eletrônicos parece em palpos de aranha com a possibilidade da mudança de foco pela rápida alteração dos índices nas distantes cidades atendidas pelos vocacionados médicos formados com outra cabeça, longe dos caça-níqueis do sistema mercantil.

Como é do conhecimento de todo o mundo, inclusive das publicações científicas dos Estados Unidos e da Grã Bretanha, apesar do covarde bloqueio econômico de quase meio século, da pressão perversa que obriga toda uma população a uma vida franciscana, é exatamente naquela ilha que a saúde desponta com índices de vida admiráveis, desde a natalidade à velhice, em razão de que Cuba oferece ao mundo o oposto dessas potências ensandecidas:

enquanto estas vendem armas para a morte,  o pequeno país socialista salva milhares de vida em todos os quadrantes diariamente, isto pela aplicação de um princípio elementar, de que fogem os mercantilistas do CFM (M) como o diabo foge da cruz -  a ação preventiva exercida pelo médico de família consciente.

Essa escandalosa e suspeita posição da cúpula médica brasileira é por si uma agressão ao código de ética profissional, o primeiro e originalmente o único item da norma constante do decreto do general Eurico Dutra que criou a autarquia médica.

Como uma entidade médica pode oferecer serviços administrativos a colegas que têm graduação de alto nível? Das duas uma: ou está acenando com uma licença amiga na prova de revalidação do diploma ou está querendo mesmo desqualificar aqueles que estão indo para onde os nossos "doutores" se recusaram a ir e já estão conquistando os corações e mentes daquela gente sofrida, ao ponto do programa Mais Médicos se converter na peça que vai acabar com o reino do tucanato em São Paulo e dar embasamento e gordura para facilitar a reeleição da presidenta Dilma.  

Nesses últimos 4 anos, o assédio canalha do governo norte-americano já custou  os tubos para seduzir os missionários da saúde de Cuba. No entanto, apesar do envolvimento de bandidos e mercenários sem escrúpulos, de um total de 83 mil médicos e enfermeiros espalhados principalmente pelas regiões mais pobres de países sem condição de cuidar da saúde de quem não tem dinheiro, nesse período só foi possível subornar 1574 profissionais, ou seja, 1,89% dos cubanos dedicados de corpo e alma à mais sagrada das missões.

O Conselho Federal de Medicina (de Mercado) se animou a se expor nessa empreitada deprimente depois que a Associação Médica Brasileira (farinha do mesmo saco) ofereceu emprego à médica cubana Ramona Rodrigues,  de 51 anos, que se deu mal na primeira tentativa de entrar no programa norte-americano de cooptação, por que, na verdade, tudo o que ela queria era ir ao encontro de um namorado em Miami, conforme reportagem da FOLHA DE SÃO PAULO, o que transformou numa grande palhaçada a acolhida do ultra-latifundiário Ronaldo Caiado, que a hospedou com todas as pompas na liderança do moribundo DEM.

Isso tudo não deixa de fazer parte de uma ação orquestrada no desespero total e absoluto de uma oposição tão medíocre e tão comprometida com o que há de pior que, pela exposição de suas vísceras apodrecidas, vai garantir a vitória no primeiro turno da presidenta Dilma Rousseff, que cresce a cada babaquice explícita e recorrente dos seus adversários.

É claro que rola muito dinheiro nesse esforço concentrado para desestabilizar o programa Mais Médicos, indiferente à sorte das populações pobres atendidas, e tanta grana a alguns outros cubanos pode seduzir.

Mas essa oferta aberta de qualquer coisa para comprarem médicos que sabem que estão fazendo o bem em toda a sua latitude, enquanto contribuem para a formação dos futuros colegas e retribuindo em parte o investimento que o sacrificado Estado cubano fez para formá-los, é uma ignomínia que desmascara a verdadeira natureza da oposição a esse programa já vitorioso.

Essa mesma súcia mercantilista está vibrando com a greve dos médicos dos hospitais federais do Rio de Janeiro, que querem conciliar a baixa remuneração com a carga horária, como sempre aconteceu na prática, o que será difícil agora, com a determinação do Tribunal de Contas da União da instalação do  ponto eletrônico para uma jornada de 40 horas prevista em contrato.

Por que para a hidra privada da saúde o sucateamento da rede pública é mamão com açúcar. Já passam de 40 milhões os que pagam os planos e estes precisam de mais fregueses para sustentar seus lucros fabulosos, mesmo vendendo serviços tão precários como os do SUS - Sistema Único de Saúde. Mesmo contando com o carinho e afeto das elites mercantilistas que submetem a classe aos seus ditames mais mesquinhos.



Fonte: Blog do Porfírio


domingo, 9 de fevereiro de 2014

A verdade sobre o arsenal nuclear secreto de Israel





Enquanto a máquina midiática imperialista prossegue a barragem de desinformação e propaganda sobre o “armamento nuclear” do Irã e as “armas químicas” Sírias, faz silêncio sobre o único Estado do Oriente Médio que detêm um poderoso arsenal tanto de armas químicas como de ogivas nucleares, o Estado de Israel.

Por Julian Borger*, no The Guardian

Arsenal que foi criado secretamente com a activa cumplicidade dos EUA, da Grã-Bretanha, da França, da Alemanha e de outros países capitalistas possuidores dos materiais e da tecnologia necessária.

Na profundeza das areias do deserto, um acossado Estado no Oriente Médio construiu uma bomba nuclear secreta, utilizando tecnologia e materiais fornecidos por potências amigas ou roubados por uma rede clandestina de agentes. Eis o material das novelas baratas de suspense e o tipo de narrativa frequentemente utilizado para caracterizar os piores temores acerca do programa nuclear iraniano. Na realidade, entretanto, nem os serviços de inteligência estadunidenses ou britânicos crêem que Teerão tenha decidido construir uma bomba, e os projectos atômicos do Irã encontram-se sob constante acompanhamento internacional.

Todavia a exótica história da bomba oculta no deserto é verdadeira. Apenas se aplica a outro país. Por meio de um extraordinário conjunto de subterfúgios, Israel conseguiu juntar todo um arsenal nuclear subterrâneo – estimado agora em 80 ogivas, o que o coloca a par da India e Paquistão – e inclusivamente há quase meio século ensaiou uma bomba, perante um mínimo de protestos internacionais ou mesmo de muita percepção pública do que estava a fazer.

Apesar do facto de o programa nuclear de Israel se ter tornado um segredo de Polichinelo desde que um técnico descontente, Mordechai Vanunu, o revelou em 1986, a posição oficial de Israel continua a ser de nem confirmar nem negar a sua existência.

Quando o ex presidente do Knesset [parlamento israelita], Avraham Burg, terminou no mês passado com o tabu, declarando que Israel possui armas nucleares e químicas e descrevendo a política oficial de reserva absoluta como “obsoleta e infantil”, um grupo direitista solicitou formalmente uma investigação policial por traição.

Entretanto, governos ocidentais alinharam no jogo com a política de “opacidade” ao evitar qualquer menção do tema. Em 2009, quando uma veterana jornalista em Washington, Helen Thomas, perguntou no primeiro mês da sua presidência a Barack Obama se tinha conhecimento de algum país no Oriente Médio possuidor de armas nucleares, este esquivou-se ao tema dizendo apenas que não queria “especular”.

Os governos do Reino Unido têm actuado geralmente da mesma forma. Interrogada em Novembro na Câmara dos Lordes acerca das armas nucleares israelitas, a baronesa Warsi enveredou pela tangente: “Israel não declarou um programa de armas nucleares. Conversamos regularmente com o governo de Israel sobre uma serie de temas relacionados com o problema nuclear”, disse a ministra. “O governo de Israel não tem duvidas sobre os nossos pontos de vista. Incitamos Israel a converter-se num Estado parte do Tratado de Não Proliferação Nuclear [TNP].”

Mas através das fissuras deste muro de pedra continuam a emergir mais e mais pormenores sobre como Israel construiu as suas armas nucleares com componentes contrabandeados e tecnologia roubada.

A história fornece um contraponto histórico à actual e prolongada luta relativamente às ambições nucleares do Irã. O paralelo não é inteiramente exacto – Israel, ao contrário do Irã, nunca subscreveu o TNP de 1968, de modo que não poderia violá-lo. Mas é quase seguro que violou um tratado que proíbe ensaios nucleares, bem como inumeráveis leis nacionais e internacionais que restringem o tráfico de materiais e tecnologia nucleares.

A lista de nações que venderam em segredo a Israel o material e o know-how para construir ogivas nucleares, ou que fizeram vista grossa ao seu roubo, inclui os mais acérrimos inimigos da proliferação: EUA, França, Alemanha, Grã-Bretanha e inclusivamente a Noruega.

Entretanto, agentes israelitas encarregados de comprar material físsil e tecnologia avançada chegaram a integrar alguns dos estabelecimentos industriais mais impenetráveis do mundo. Este atrevido grupo de espias de notável êxito, conhecido como Lakam, o acrónimo hebreu para o Gabinete de Relação Científica (de ressonância inócua), incluía personagens tão pitorescos como Arnon Milchan, o multimilionário produtor de êxitos de Hollywood como Pretty Woman, LA Confidential, e 12 Years a Slave, que no mês passado admitiu o papel que desempenhou.

“Sabes o que significa ser um jovem de vinte e tal anos [e] o seu país encarregá-lo de ser James Bond? Caramba! A ação! Foi excitante”, disse num documentário israelita.

A história da vida de Milchan é pitoresca, e é bastante improvável que sirva de tema de um dos êxitos que financia. No documentário Robert de Niro recorda ter discutido o papel de Milchan na compra ilícita de detonadores para ogivas nucleares. “Em certa ocasião tê-lo-ei interrogado a esse respeito, como amigo dele, não em termos de uma acusação. Só queria saber,” disse de Niro. “E ele disse-me: sim, fi-lo. Israel é o meu país.”

Milchan não se mostra tímido no que diz respeito à utilização de ligações em Hollywood para apoiar a sua tenebrosa segunda carreira. Num determinado momento, admite no documentário, utilizou uma visita a casa do actor Richard Dreyfuss como isco para conseguir que um importante cientista nuclear estadunidense, Arthur Biehl, integrasse no conselho de administração de uma das suas companhias.

Segundo a biografia de Milchan, dos jornalistas israelitas Meir Doron e Joseph Gelman, foi recrutado em 1965 pelo actual presidente de Israel, Shimon Peres, que encontrou num clube nocturno de Tel Aviv (chamado Mandy’s, baptizado pela anfitriã e esposa do proprietário, Mandy Rice-Davies, célebre pelo seu papel no escândalo sexual Profumo). Milchan, que então dirigia a companhia familiar de fertilizantes, nunca se arrependeu, desempenhando um papel central no programa clandestino de aquisições de Israel.

Foi responsável por conseguir tecnologia vital de enriquecimento de uranio, fotografar planos de centrifugadoras “abandonados” temporariamente na sua cozinha por um executivo alemão subornado para o fazer. Esses mesmos planos, pertencentes ao consórcio de enriquecimento de uranio europeu Urenco, foram roubados uma segunda vez por um empregado paquistanês, Abdul Qadeer Khan, que os utilizou para fundar o programa de enriquecimento de uranio do seu país e estabelecer um negócio global de contrabando nuclear vendendo o projecto à Líbia, à Coreia do Norte e ao Irã.
Por esse motivo, as centrifugadoras de Israel são quase idênticas às do Irã, uma convergência que permitiu que os israelitas experimentassem um vírus informático, conhecido como Stuxnet, nas suas próprias centrifugadoras antes de o introduzir no Irã em 2010.

Possivelmente as façanhas de Lakam terão sido ainda mais arriscadas que as de Khan. Em 1968 organizou a desaparição no meio do Mediterrâneo de um cargueiro inteiro cheio de mineral de uranio. No que chegou a ser conhecido como o affaire Plumbat, os israelitas utilizaram uma rede de companhias de fachada para comprar uma remessa de óxido de uranio, conhecido como “torta amarela” (yellowcake) ou urania, em Amberes. A torta amarela estava oculta em tambores com a etiqueta “plumbat”, um derivado do chumbo, e foi carregada num cargueiro fretado por uma suposta companhia liberiana. A venda foi camuflada como uma transacção entre companhias alemãs e italianas com ajuda de funcionários alemães, segundo se diz em troca da oferta israelita de ajudar os alemães com tecnologia de centrifugadoras.

Quando o navio, o Scheersberg A, atracou em Rotterdam, toda a tripulação foi despedida usando o pretexto de que a embarcação tinha sido vendida e uma tripulação israelita tomou o seu lugar. O navio partiu para o Mediterrâneo onde, sob escolta naval israelita, a carga foi transferida para outra embarcação.

Documentos estadunidenses e britânicos desclassificados no ano passado revelaram também uma compra israelita previamente desconhecida de umas 100 toneladas de torta amarela da Argentina em 1963 ou 1964, sem as salvaguardas tipicamente utilizadas em transacções nucleares para impedir que o material seja utilizado em armas.

Israel teve poucos escrúpulos em promover a proliferação de know-how e materiais para armas nucleares, e ajudou o regime do apartheid na África do Sul no desenvolvimento da sua própria bomba nos anos setenta, em troca de 600 toneladas de torta amarela.

O reactor nuclear de Israel também necessitava de óxido de deutério, também conhecido como água pesada, para moderar a reacção físsil. Para tal fim, Israel voltou-se para a Noruega e a Grã-Bretanha. Em 1959 Israel conseguiu comprar 20 toneladas de água pesada que a Noruega tinha vendido ao Reino Unido mas que era excedentária em relação às necessidades do programa nuclear britânico. Ambos os governos suspeitavam que o material seria utilizado para fabricar armas, mas decidiram fazer vista grossa. Em documentos vistos pela BBC em 2005 funcionários britânicos argumentaram que impor salvaguardas constituiria “excesso de zelo”. Pela sua parte a Noruega realizou apenas uma visita de inspecção, em 1961.

Entretanto, o projecto de armas nucleares de Israel nunca teria podido começar a funcionar sem uma enorme contribuição da França. O país que, quando se tratou do Irã, adoptou a linha mais dura na contra proliferação ajudou a criar os fundamentos do programa de armas nucleares de Israel, impelido por um sentimento de culpa por não ter apoiado Israel no conflito do Suez de 1956, pela simpatia de cientistas franco-judaicos, pelo intercambio de inteligência sobre a Argélia e pelo impulso de vender no estrangeiro a especialização francesa.

“Existia uma tendência no sentido de exportar e um sentimento geral de apoio a Israel”, disse a Avner Cohen, historiador nuclear israelo-estadounidense, Andre Finkelstein, ex vice-comissário do Comissariado de Energia Atómica de França e vice-director geral do Organismo Internacional de Energia Atómica.

O primeiro reator de França fora posto em marcha em 1948 mas a decisão de produzir armas nucleares parece ter sido tomada em 1954, depois de Pierre Mendès France ter feito a sua primeira viagem a Washington como presidente do conselho de ministros da caótica Quarta República. No regresso a casa disse a um assessor: “É exatamente como uma reunião de gângsteres. Cada qual coloca a sua pistola sobre a mesa, e se não tens uma pistola não és ninguém. Portanto devemos ter um programa nuclear.”

Mendès France deu a ordem de começar a produzir bombas em Dezembro de 1954. E ao construir o seu arsenal, Paris vendeu ajuda material a outros Estados aspirantes a ter armas, não apenas a Israel.

“Isto continuou durante muitos, muitos anos até que fizemos algumas exportações estúpidas, incluindo ao Iraque e a instalação de reprocessamento no Paquistão, o que foi uma loucura”, recordou Finkelstein em entrevista que agora pode ser lida numa colecção de documentos de Cohen no think-tank Wilson Centre em Washington. “Fomos o país mais irresponsável no que diz respeito à não-proliferação”.

Em Dimona chegaram em massa engenheiros franceses para ajudar a construir un reactor nuclear para Israel e uma instalação muito mais secreta de reprocessamento, capaz de separar plutónio de combustível de reactor consumido. Esta foi a verdadeira revelação involuntária de que o programa nuclear de Israel apontava para a produção de armas.

No final dos anos cinquenta havia 2.500 cidadãos franceses vivendo em Dimona, transformando-a de uma aldeia numa cidade cosmopolita, completa com liceus franceses e ruas repletas de Renaults, mas apesar disso todo o projecto foi realizado sob um denso manto de secretismo. O jornalista de investigação estadunidense Seymour Hersh escreveu no seu livro The Samson Option: “Aos trabalhadores franceses em Dimona era proibido escrever directamente a parentes e amigos em França e outros lugares, o seu correio era enviado para uma caixa postal falsa na América Latina”.

Os britânicos foram mantidos fora da operação, e em diferentes ocasiões foi-lhes dito que a imensa construção era um instituto de investigação de terra desértica não arável e uma instalação de processamento de manganésio. Os estadunidenses, igualmente não informados por Israel e França, sobrevoaram Dimona com aviões espião U2 na tentativa de descobrir o que estava a ser feito.

Os israelitas admitiram que possuíam um reactor mas insistiram que era para fins inteiramente pacíficos. Afirmaram que o combustível consumido era enviado para França, para ser reprocessado, e forneceram inclusivamente gravações filmadas da sua carga em cargueiros franceses. Durante todos os anos sessenta negaram directamente a existência da instalação subterrânea de reprocessamento em Dimona, que produzia plutónio para bombas.

Israel negou-se a autorizar visitas por parte do Organismo Internacional de Energia Atómica (OIEA), de modo que no princípio dos anos sessenta o presidente Kennedy exigiu que aceitasse inspectores estadunidenses. Físicos estadunidenses foram enviados a Dimona mas foram-lhes trocadas as voltas desde o início. As visitas nunca tiveram lugar duas vezes por ano como tinha sido acordado com Kennedy e foram objecto de repetidos adiamentos. Os físicos estadunidenses enviados a Dimona não foram autorizados a trazer o seu próprio equipamento ou a recolher amostras. O principal inspector estadunidense, Floyd Culler, perito em extracção de plutónio, assinalou nos seus relatórios que em um dos edifícios existiam paredes recém rebocadas e pintadas. O que acontecia é que antes de cada visita estadunidense os israelitas tinham construído paredes falsas em volta de uma serie de ascensores que baixavam seis pisos até à instalação subterrânea de reprocessamento.

À medida que mais e mais provas do programa de armas de Israel emergiam, o papel dos EUA evoluiu de pateta involuntário a cúmplice renitente. Em 1968, o director da CIA Richard Helms disse ao presidente Johnson que Israel certamente tinha conseguido produzir armas nucleares e que a sua força aérea tinha realizado voos para praticar o seu lançamento.

A oportunidade não podia ter sido pior. O TNP, previsto para impedir que demasiados génios nucleares escapassem das suas garrafas, acabava de ser redigido e se viesse a público a noticia de que um dos supostos Estados sem armas nucleares tinha produzido em segredo a sua própria bomba, converter-se-ia em letra morta que muitos países, especialmente Estados árabes, se recusariam a assinar.

A Casa Branca de Johnson decidiu nada dizer, e a decisão foi formalizada numa reunião em 1969 entre Richard Nixon e Golda Meir, na qual o presidente dos EUA aceitou não pressionar Israel a que assinasse o TNP, enquanto a primeira ministro de Israel aceitou que o seu país não seria o primeiro a “introduzir” armas nucleares no Oriente Médio e que não faria nada para que a sua existência fosse publicamente conhecida.

Na realidade a participação dos EUA foi mais além do que o simples silencio. Numa reunião em 1976 que chegou recentemente ao conhecimento público, o director adjunto da CIA, Carl Duckett, informou uma dezena de funcionários da Comissão Reguladora Nuclear dos EUA que a agencia suspeitava que parte do combustível físsil nas bombas de Israel era uranio de grau utilizável em armamento roubado debaixo do nariz dos EUA de uma instalação de processamento na Pensilvânia.

Não apenas faltava uma quantidade alarmante de material físsil na companhia, a Nuclear Materials and Equipment Corporation (Numec), como tinha sido visitada por um verdadeiro grupo de eminencias da inteligência israelita, incluindo Rafal Eitan, descrito pela firma como um “químico” do ministério da defesa israelita mas que era, de facto, um alto agente da Mossad a quem posteriormente coube a direcção de Lakam.

“Foi um choque. Ficaram todos de boca aberta”, recorda Victor Gilinsky, que foi um dos funcionários nucleares estadunidenses informados por Duckett. “Foi um dos casos mais evidentes de material nuclear desviado, mas as consequências pareceram tão terríveis aos directamente envolvidos e para os EUA que ninguém queria realmente investigar o que estava a suceder”.

A investigação foi arquivada e ninguém foi acusado.

Poucos anos depois, em 22 de Setembro de 1979, um satélite dos EUA, Vela 6911, detectou o clarão duplo típico de um teste de arma nuclear ao largo da costa da África do Sul. Leonard Weiss, matemático e perito em proliferação nuclear que trabalhava como assessor do Senado, depois de ser informado do incidente por agencias de inteligência dos EUA e pelos laboratórios de armas nucleares do país convenceu-se de que tinha tido lugar um ensaio nuclear, em contravenção do Tratado de Proibição de Ensaios Nucleares.

Só depois de o governo de Carter e depois o de Reagan terem tentado silenciar o incidente e branqueá-lo através da investigação de um pouco convincente painel, ocorreu a Weiss que tinham sido os israelitas, e não os sul-africanos, quem realizara a detonação.

“Foi-me dito que criaria un problema de política exterior muito serio para os EUA se dissesse que se tratara de um ensaio. Alguém tinha revelado algo que os EUA não queriam que ninguém soubesse”, diz Weiss.

Fontes israelitas disseram a Hersh que o clarão registado pelo satélite Vela foi na realidade o terceiro de uma serie de ensaios nucleares no Oceano Índico que Israel realizou em cooperação com a África do Sul.

“Foi uma trapalhada”, disse-lhe uma fonte. “Houve uma tempestade e pensámos que bloquearia Vela, mas houve uma brecha atmosférica – uma janela – e Vela foi cegado pelo clarão”.

A política de silencio dos EUA continua até hoje, apesar de Israel parecer continuar a comerciar no mercado negro nuclear, embora em volumes muito reduzidos. Num documento sobre o comercio ilegal em material e tecnologia nuclear publicado em Outubro, o Institute for Science and International Security (ISIS) com base em Washington assinalou: “Sob a pressão dos EUA nos anos oitenta e princípios dos noventa, Israel… decidiu deter em grande parte a obtenção ilícita de matérias para o seu programa de armas nucleares. Hoje em dia existe evidencia de que Israel pode ter continuado a fazer aquisições ilícitas – operações policiais de surpresa estadunidenses e processos judiciais instaurados provam-no.”

Avner Cohen, autor de dois livros sobre a bomba de Israel, assinalou que uma política de opacidade em Israel e Washington é mantida agora sobretudo por inercia. “No âmbito político, ninguém quer encarar o caso por temor a abrir uma caixa de Pandora. Converteu-se de muitas formas num fardo para os EUA mas as pessoas em Washington, a todos os níveis até Obama, não lhe tocam por temerem que poderia comprometer a própria base do entendimento Israel-EUA.”

No mundo árabe e mais além ainda existe uma crescente impaciência com este enviesado status quo. O Egipto em particular ameaçou retirar-se do TNP a menos que haja progresso no sentido da criação de uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio. As potencias ocidentais prometeram realizar uma conferencia sobre a proposta em 2012, mas foi cancelada, em grande parte a pedido dos EUA, para reduzir a pressão no sentido da participação de Israel e da declaração do seu arsenal nuclear.

“De alguma forma o teatro kabuki continua”, diz Weiss. “Se se admite que Israel tem armas nucleares pelo menos pode ter-se uma discussão honesta. Parece-me muito difícil que se venha a obter uma solução do tema do Irã sem ser honesto a esse respeito.”



*Julian Borger é editor diplomático do Guardian. Antes foi correspondente nos EUA, Oriente Médio, Europa Oriental e nos Balcãs. Reproduzido a partir do Diário.Info





Fonte: Vermelho
Imagens: Google (colocadas por este blog)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Conselho Mundial da Paz divulga declaração sobre a presença da Otan na Palestina




O Conselho Mundial da Paz (CMP) expressa sua grave preocupação e reservas sobre a recente discussão relativa à possível presença das tropas da Otan (sob a liderança dos Estados Unidos) no futuro, na Palestina, para “garantir” e “monitorar” a implementação do “plano de paz” entre a Palestina e Israel.

As entrevistas do presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP) e da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Mahmoud Abbas, aos meios de comunicação israelenses e estadunidenses sobre este assunto levanta diversas questões para as forças amantes da paz e os povos em todo o mundo.

No ano em que a Otan completa 65 anos de crimes e agressões contra a humanidade e 15 anos após a sua agressão assassina contra os povos da Iugoslávia, assim como com a criação do seu protetorado na província sérvia de Kosovo; no ano em que a presença militar e a ocupação da Otan são mantidas no Afeganistão e no Iraque e novos crimes, mais recentes, têm sido cometidos contra os povos da Líbia e do Mali, consideramos que a Otan nunca serviu ou servirá a paz, no futuro, em qualquer região do mundo, especialmente no Oriente Médio, onde os planos imperialistas para um “Novo Oriente Médio”, adotados pelos EUA, pela Otan e por seus aliados são abertamente aplicados. A presença da Otan no Oriente Médio serviria apenas aos planos dos EUA e de seus aliados para garantir a sua influência e a dominação sobre a região.

O Conselho Mundial da Paz expressa o seu apoio e a sua solidariedade ao povo palestino, pelo fim da ocupação por Israel e pela criação de um Estado da Palestina independente, dentro das fronteiras de 1967, com Jerusalém Leste como a sua capital. A “solução de dois Estados” não pode e não será garantida pela Otan, que constitui o braço armado do imperialismo e respalda a ocupação israelense há décadas.



O CMP apoia os esforços do povo palestino e da sua liderança para reivindicar o reconhecimento legítimo como membro integral da Organização das Nações Unidas (ONU) e dos seus órgãos e não concorda, de forma alguma, com a substituição da ONU pela Otan.

O CMP reafirma suas posições pela remoção do “Muro de Separação” na Cisjordânia palestina, o fim do bloqueio a Gaza, o fim da ocupação sobre as Colinas de Golã sírias e das Fazendas Shebaa libanesas, assim como o desmantelamento das colônias israelenses em território palestino. O CMP exige a libertação de todos os prisioneiros palestinos dos cárceres israelenses e o direito dos refugiados palestinos de retornarem a seus lares, com base na Resolução 194 da ONU.

Um possível envolvimento direto da Otan na região apenas deterioraria as tensões e os conflitos existentes, criando ainda mais consequências negativas para os povos do Oriente Médio e da própria Palestina.

Otan, inimiga dos povos e da paz! Fora do Oriente Médio!

O secretariado do CMP,

6 de fevereiro de 2014.





Fonte: Cebrapaz
Imagem: Google (colocada por este blog), Cebrapaz


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Netanyahu ataca Irã e Síria no Fórum Econômico Mundial






Por Moara Crivelente

Netanyahu fez o seu discurso, nesta quinta-feira (23), depois da fala do presidente iraniano, Hassan Rohani, e aproveitou a deixa para criticar novamente o governo persa, acusando-o de desenvolver armas nucleares.

As declarações de Netanyahu sobre a sua posição como “uma ilha de democracia” em meio a um mar “de extremismo” são frequentes, apesar das denúncias constantes sobre as violações do direito internacional, já institucionalizadas por suas políticas e ações tanto contra os palestinos quanto contra seus vizinhos, principalmente libaneses e sírios.

Ainda assim, Netanyahu repetiu seu rechaço ao processo diplomático que o Irã e o Grupo 5+1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China, membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, mais a Alemanha) vêm impulsionando sobre o programa nuclear persa.

“Eles dizem que se opõem às armas nucleares. Por que eles insistem em manter mísseis balísticos e plutônio, e as centrífugas avançadas que só são usadas para a produção de armas nucleares?”, perguntou Netanyahu. 

Há meses, as convocatórias inflamadas do seu governo a um ataque aéreo contra instalações nucleares do Irã e as posturas históricas de agressividade de Israel parecem fornecer alguma especulação sobre a “insistência” do Irã em manter recursos para a sua autodefesa, embora o presidente Rohani tenha ressaltado que a violência não faz parte da sua política de segurança, como faz da política israelense.

Netanyahu acusa o Irã também de financiar “grupos terroristas”, onde enquadra o partido e movimento de resistência libanês Hezbolá, atuante e determinante para a proteção do território libanês contra as suas violações frequentes e nas últimas grandes guerras lançadas por Israel contra o país. 

O premiê sionista – a ideologia colonizadora e hegemonista, ou imperialista, importada da Europa – também acusou o governo persa de envolvimento direto na violência que assola a Síria há três anos, cenário em que a participação de Israel, de outros vizinhos (como a Turquia e a Arábia Saudita) e dos EUA já tem sido denunciada desde que a brutalidade se instalou.

Ilha de democracia ou mar de opressão

Para Netanyahu, estas questões são apenas de uma luta pela hegemonia sobre a região, posição que o seu governo reivindica, como a “ilha de democracia” que diz representar. 

Além das seis décadas de opressão e ocupação do povo e das terras palestinas, diversas denúncias recentes como a criminalização dos imigrantes africanos - muitos dos quais, requerentes de asilo que já refugiaram-se de outras situações de violência ou perseguição -, a segregação contra árabes-israelenses e diversas outras questões patentes na repressiva ideologia sionista têm revelado a face nem tão democrática de Israel.

Netanyahu também questionou as sugestões do Irã sobre a realização das eleições livres e democráticas na Síria – assim como afirmado pelo governo árabe, já que "é o povo sírio quem deve decidir o seu destino" – ao dizer que o “governo xiita iraniano e o seu apoio financeiro são centrais para o controle do poder pelo presidente Bashar al-Assad.” 

Enquanto isso, o envolvimento das forças militares e de inteligência israelenses, em cooperação com as sauditas, turcas e estadunidenses, principalmente, são cruciais para o avanço e a manutenção da violência protagonizada pelos grupos armados.

Netanyahu é apresentado na página do Fórum Econômico Mundial como um intelectual formado na Universidade de Harvard (EUA) e no Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT) e com a carreira militar inaugurada na Guerra dos Seis Dias, de 1967, com seu cargo devidamente descrito: “serviu as Forças de Defesa de Israel em uma unidade de comando de elite e participou em várias missões durante a Guerra de Atrito”, também conhecida como um episódio sanguinário e de avanço agressivo da ocupação de territórios árabes, em grande parte ainda hoje capturados.




Fonte: Vermelho
Imagem: Google

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O novo mapa da pobreza na Europa





Medidas de ajuste para equilibrar os mais de 4 trilhões de euros gastos no resgate de bancos e estados estão provocando uma explosão dos números da pobreza

Marcelo Justo/Carta Maior

Londres - A mais de cinco anos do estouro financeiro de 2008 e do início da grande recessão mundial do século XXI, a Europa exibe um novo mapa da pobreza que, segundo a organização humanitária Oxfam International, pode levar 25 anos para ser revertido. As medidas de ajuste para equilibrar os mais de quatro trilhões de euros gastos no resgate de bancos e estados estão provocando uma explosão dos números da pobreza tanto no centro como na periferia.

Em Portugal, 18% da população vivem abaixo da linha de pobreza. Na Espanha, cerca de três milhões sobrevivem com menos de 307 euros por mês. Na Itália, duplicou o número de pobres nos últimos seis anos e, no mais rico dos europeus, a Alemanha, quase oito milhões de pessoas sobrevivem com 450 euros mensais graças aos pequenos trabalhos oriundos da flexibilização da legislação trabalhista.

A Carta Maior conversou com a diretora internacional da Oxfam, Natalia Alonso, sobre este novo panorama europeu.



Olhando desde a América Latina às vezes é difícil imaginar a pobreza em uma Europa desenvolvida e com sistemas de seguridade social de longa data. Qual é o panorama concreto que se vive hoje?

Natalia Alonso: Há um novo mapa da pobreza na Europa provocado pelas medidas de austeridade que aumentaram não só a pobreza, mas também os níveis de desigualdade. O cálculo que fazemos é que se os governos continuarem aplicando essas medidas haverá entre 15 e 25 milhões de europeus a mais em risco de pobreza em 2025. Se somamos esse número com a população que já enfrenta este risco de pobreza hoje, segundo as cifras oficiais do Escritório de Estatísticas Europeu (Eurostat), em 2025 teremos cerca de 146 milhões de europeus (mais de um quarto da população) enfrentando esse risco.

Isso significa um aumento considerável em termos do que se chama pobreza relativa, medida em relação à renda média de um país, mas também em termos da pobreza absoluta, onde a própria sobrevivência está em jogo. Com a perda do emprego, perde-se a moradia, a fonte de renda, os direitos sociais. Se a isso acrescentamos o desmantelamento dos sistemas de proteção social pelas medidas de ajuste, o resultado é um enorme aumento do número de pessoas vulneráveis. E longe de resolver o problema da dívida ou de estimular o crescimento, estas medidas de ajuste estão piorando a situação em ambas as frentes.

É evidente que esta crise teve um impacto especialmente forte na chamada periferia da zona do Euro, em países como Grécia, Portugal e Espanha.

Natalia Alonso: Estes países, por pressão externa ou da própria União Europeia, adotaram medidas muito drásticas e, portanto, estão experimentando um importante salto nos níveis de pobreza. Estes níveis são vistos não só no aumento do desemprego, como também no desemprego de mais de dois anos, o que significa em muitos países europeus a perda da cobertura social e o aprofundamento de uma espiral de pobreza.

Cada país tem sua dinâmica particular. Na Espanha e na Irlanda vimos o fenômeno dos despejos de moradias que impactam ainda mais a situação de extrema vulnerabilidade do desemprego gerando párias virtuais e marginalizados sociais.

Em um determinado momento, na Espanha, chegou a se despejar 115 famílias por dia de suas casas. Essas pessoas não só foram expulsas de suas casas, como mantiveram a dívida porque não se admitiu o valor dos imóveis como pagamento.

Essa situação afetou também os fiadores desses imóveis que, com frequência, são os pais ou familiares dos desalojados.

O empobrecimento também atingiu países centrais como a Alemanha, no interior da zona do euro, ou como o Reino Unido, fora dessa zona.

Natalia Alonso: No caso do Reino Unido as medidas de austeridade adotadas pelo governo impactaram muito mais duramente os 10% mais pobres que os mais ricos. Estes 10% mais pobres viram uma redução de 38% em sua receita líquida desde 2007. É o impacto que tiveram os programas de ajuste no aumento da desigualdade na Europa em geral. Na Grécia, Irlanda, Itália, Portugal, Espanha e Reino Unido houve um crescimento dos níveis de desigualdade comparáveis com os 16% de aumento que experimentou a Bolívia nos seis anos que se seguiram ao programa de ajuste dos anos 90. Nestes países europeus ou os 10% mais ricos ganham mais ou os 10% mais pobres ganham menos ou ambas as coisas. Hoje, o Reino Unido tem níveis de desigualdade maiores que os Estados Unidos. Se não se reverter a atual situação e se seguir com a atual política o coeficiente Gini de desigualdade do Reino Unido e da Espanha ficará muito parecido com o do Paraguai.

A imagem da Europa na América Latina é de uma seguridade social que neutraliza os perigos da pobreza. Essa imagem segue sendo válida?

Natalia Alonso: A ação restauradora do equilíbrio que tinha a seguridade social já não está funcionando da mesma maneira porque se retiraram ou se reduziram os apoios que existiam para pessoas descapacitadas ou desempregadas. Isso cria maior desigualdade, pobreza e crise social. E estão aumentando outras desigualdades como a de gênero. As mulheres são as primeiras que perdem os postos de trabalho.

O modelo econômico europeu tinha como um de seus pilares um equilíbrio social que favorecia um forte consumo interno. Estamos diante de um novo modelo econômico?

Natalia Alonso: Estamos ante um modelo cada vez mais desequilibrado no qual poucos têm muito e gozam de uma extraordinária proximidade ao poder político o que gera problemas de legitimidade. Segundo as projeções, se prevê que haverá crescimento econômico em 2014 e 2015 na União Europeia, mas em caso dele efetivamente ocorrer, será muito desigual. A austeridade está assentando as bases de uma Europa de profundas divisões sociais e nacionais.




Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
Fonte: Carta Maior

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Curdistão: do Apoio ao Desprezo Imperialista






Por André Dutra*



“É o fim da injustiça, infortúnio e sofrimento.
Somos os seus melhores amigos e irmãos.
Todos os que estão contra nós, são nossos inimigos.
Nós faremos deste país um paraíso.
Estamos aqui para acabar com suas tristezas.
Nós somos os melhores do mundo”


Esse trecho citado acima, de acordo com a tradução do personagem Satélite do filme Tartarugas podem Voar (2004), do diretor curdo Bahman Ghabadi, nos mostra de forma clara e precisa, as ilusões passadas ou, melhor dizendo, as mentiras contadas do império estadunidense para com os povos oprimidos. Prometem o céu e entregam o inferno. Aliás, assistir a essa obra cinematográfica é de fundamental importância para se compreender, ou tentar fazê-lo, o caos e sofrimento no cotidiano dos refugiados curdos, principalmente das crianças, que trabalham nos territórios minados e que, inclusive, vivem da renda das vendas dessas minas.



Somente no século XX, já foram mais de vinte intervenções e participações em guerras pelos EUA. Mas com qual propósito? Porque manter esse intervencionismo político e militar em praticamente todas as partes do mundo e, com muito mais frequência, no Oriente Médio?

A resposta é simples e de conhecimento de todos: o Petróleo e suas variáveis, esse é o principal agente motivador de tanta catástrofe, pobreza e dor, além da convicção presunçosa de que os EUA é a hegemonia mundial e que assim deve se portar. Vale lembrar a chamada “Operação Libertação do Iraque”, em que a sigla em inglês OIL, remete, obviamente, ao ouro negro.

O povo curdo é a maior etnia sem Estado do mundo. São mais de 30 milhões de pessoas, divididas e espalhadas pelo planeta. Como parâmetro, podemos citar a população do Canadá com 32 milhões, a Venezuela com 28 milhões e a Arábia Saudita com 27 milhões de pessoas. Porém, a maioria de sua população está no epicentro das revoluções árabes, em países como a Turquia, a Síria, o Irã e o Iraque, no qual analisaremos nesse artigo.

A zona norte do Iraque, considerado o Curdistão iraquiano, conta com uma população de aproximadamente 5 milhões de habitantes e uma área de 40.000 km2, sendo quatro vezes a área do Líbano e maior que a Holanda. A capital e sede do governo regional do Curdistão iraquiano é Arbil.


Região do Curdistão Iraquiano (Síria a oeste, Turquia ao norte, Irã a leste e Iraque ao sul)

Em reportagem publicada no sítio do The New York Times do último mês, intitulada “Kurds´ Oil Deals with Turkey Raise Fears of Fissures in Iraq”, fica muito evidente essa afirmativa dos interesses norte-americanos sobre a região e quão importante é o Curdistão Iraquiano. Segundo a matéria, curdos iraquianos estão vendendo petróleo e gás natural diretamente para a Turquia, sem passar pelo crivo de Washington ou Bagdá. De fato, desde 2012 o governo curdo está comercializando petróleo de forma independente.

O medo dos EUA, além, obviamente, da perda dos petrodólares e do seu crucial produto, é a possível independência e autonomia dos curdos, o que levaria a mais um governo a ser derrubado. Porém abriria também um enorme precedente aos curdos que vivem no Irã, Turquia e, principalmente, aos que vivem na Síria, onde facções curdas declararam recentemente uma administração autônoma no nordeste do país.

“O acordo com a Turquia é uma enorme violação contra a Constituição do Iraque, pois não compactua com a coordenação do governo central”, disse Ali Dhari, vice-presidente do comitê de petróleo e gás do parlamento iraquiano. “Isso significa roubo das riquezas do Iraque, e isso nós não vamos permitir.”

Ainda segundo a reportagem, Qasim Mishkhati, membro curdo do comitê de petróleo e gás do parlamento, insistiu que a riqueza das ofertas será compartilhada com o resto do Iraque, e que era da responsabilidade do governo regional no norte em encontrar mercados internacionais para os recursos do petróleo. “Estamos trabalhando para aumentar a renda nacional, de modo que todos os iraquianos possam desfrutar de melhores serviços e mais riqueza”, disse ele.

Existe também uma divergência sobre a região de Kirkuk, cidade que possui mais de 700 mil habitantes, que é rica em petróleo e que os curdos querem incorporar ao seu território.


Mapa com os campos de petróleo no Iraque.

Porém, em se tratando de EUA, o que já aconteceu no passado, pode voltar a acontecer novamente. Relembramos dos atos de amparo e posterior desconsideração por parte do império norte-americano para com os curdos.

Nos anos 70 e 80, com a ajuda do Irã, os americanos recrutaram os curdos para tentar tirar Saddam Hussein do governo iraquiano e, em troca, dariam a independência curda, contudo, mais tarde, quando Irã e Iraque assinaram um acordo de paz, numa completa fúria e vingança por parte de Hussein, foi executada a Anfal, uma campanha de genocídio contra o povo curdo no norte do Iraque, em que bombardeios, destruição de aldeias, pelotões de fuzilamento e armas químicas foram utilizadas, resultando, segundo fontes independentes, em mais de 150 mil vítimas fatais. E os EUA? Fingiram que nem viram.

No começo dos anos 90, quando o Iraque foi derrotado na Guerra do Golfo pelos EUA e seus aliados, foi solicitado, mais uma vez, aos curdos do norte iraquiano, que se rebelasse contra Saddam. Eles iniciaram a revolta, porém Hussein reagiu e os EUA nada fizeram.

Como disse um oficial curdo anti-iraquiano anos atrás a um repórter americano “os americanos só estão interessados em ficar lá, sem luta. Eles não querem nem a guerra nem a paz – e sim manter-nos no limbo, como sempre estivemos.” Embora as diversidades religiosas, ideológicas e culturais existentes nos quatro principais territórios ocupados sejam um atravanco, o povo curdo, por muito tempo, busca sua tão sonhada soberania como Estado único, e dificilmente serão impedidos de alcançar tal objetivo.

Em entrevista concedida à AFP, o presidente do Curdistão iraquiano, Massud Barzani, também se referiu ao futuro do povo curdo, um objetivo que, segundo ele, pode ser alcançado através do diálogo. “Ter seu próprio Estado é um direito natural do povo curdo, mas isto não pode ser alcançado através da violência”, disse. “Encorajamos o diálogo entre os curdos e os Estados que dividem o Curdistão”, acrescentou.

Resta saber quantas vezes mais o Curdistão será uma mera peça no jogo dos interesses imperialistas. Mas isso, só o futuro nos mostrará.


*André Dutra é administrador, graduando em relações internacionais, graduando em teologia, membro do Núcleo de Estudos Latino Americanos (NELAM), membro do Projeto Solidariedade Internacional – Observatório de Conflitos (PSI-OC) e colaborador do Oriente Mídia.


Referências:

- Filme Tartarugas podem Voar; direção de Bahman Ghabadi, Irã, 2004.

- Sítio The New York Times, acessado em 02/01/2014.

- Relatório de SWANSON, David. “Iraq´s war among the world´s worst events” acessado em 02/01/2014.

- Livro de OCALAN, Abdullah. “Guerra e Paz no Curdistão: perspectivas para uma solução política da questão curda”

- Sítio The Other Iraq acessado em 03/01/2014.

- Sítio HRW acessado em 05/01/2014.

- Sítio Wikipédia, acessado em 05/01/2014.


Fonte: Oriente Mídia
Vídeo: Youtube (colocado por este blog)
Imagens: Oriente Mídia, Google

domingo, 5 de janeiro de 2014

O desembargador, o garçom e o Brasil



Numa nota sobre o caso, Alexandre citou Darcy Ribeiro.
 “Ele dizia que só há duas opções na vida:
Se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.”



*Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo


A miséria e a grandeza humana se encontraram numa padaria de Natal neste final de ano.

A miséria foi representada pelo desembargador Dilermando Motta, e a grandeza pelo cidadão Alexandre Azevedo.

Um garçom foi o palco involuntário do combate entre a grandeza e a miséria.

Segundo os relatos, o desembargador pegou o garçom pelos ombros aos gritos e o mandou tratá-lo como “excelência”. Ameaçou “quebrar a cara” do garçom.

O motivo: o garçom não colocara gelo em seu copo.

Alexandre reagiu, e isto está registrado num vídeo que está sendo intensamente visto e compartilhado na internet.

Numa nota sobre o caso, Alexandre citou Darcy Ribeiro. “Ele dizia que só há duas opções na vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.”

O desembargador chamou a polícia na padaria, depois de dizer que Alexandre seria preso imediatamente. Quatro viaturas logo acudiram. Mas, feitas perguntas aos presentes, ninguém foi preso. Evangélico fervoroso, Motta, como você pode observar no vídeo, berrava palavras como “endemoniado” e “endiabrado” ao bom samaritano que tomara a defesa do garçom.

“Bando de cagão”, disse o desembargador aos policiais segundo Alexandre. Um novo vídeo capta o momento em que Motta ofende os policiais. Nele, a voz de uma mulher corrobora a versão de Alexandre. “Todo mundo é testemunha”, diz ela à polícia.

Numa entrevista posterior ao caso, Alexandre disse que Motta estava armado, e manifestou preocupação com eventuais de um “homem poderoso”.

Num mundo menos imperfeito, uma prisão teria sido feita: a do desembargador, por abuso de autoridade.

Num mundo menos imperfeito, o caso teria conquistado repercussão nacional na mídia. Mas a mídia brasileira não dá voz aos desvalidos, aos humilhados e ofendidos. Eles são nossos irmãos invisíveis.

Na Inglaterra, em 2012, ocorreu um episódio de certa forma assemelhado. Um alto funcionário da equipe do premiê Cameron foi acusado de chamar de “plebeus” os policiais que não o deixaram sair de bicicleta pelo portão principal de Downing Street, a sede do governo. Os policiais pediram que ele usasse a saída dos pedestres.

Foi uma comoção nacional. A mídia chamou o caso de “Plebgate”. Em pouco tempo, o acusado perdera o emprego depois de já haver perdido a reputação.

Na Escandinávia vigora um código - a Janteloven, leis de Jante, cidade fictícia que moldou a cultura igualitária da região - segundo o qual ninguém é melhor - nem pior - que ninguém por força de cargo e dinheiro. O infame comentário de Boris Casoy sobre os lixeiros o teria transformado imediatamente num pária social se tivesse sido proferido na Escandinávia.

No Brasil, a reação ao comportamento do desembargador se restringiu essencialmente às redes sociais, o que mostra o divórcio entre a mídia e a realidade dos brasileiros.

No começo deste ano, a única vítima do episódio era o garçom. Ele foi afastado por estar com problemas psicológicos, segundo a padaria. Foi colocado em “férias”.

O desembargador, numa nota, afirmou que está tomando as “providências cabíveis”. Ora, o mínimo “cabível” era um pedido honesto de desculpas ao garçom e às pessoas da padaria que tiveram que aturar sua arrogância violenta.

Não poderia haver retrato melhor da justiça brasileira e nem da mídia, que só dá voz a quem já a tem em alta escala.

A internet faz seu papel: reage ao abuso e, como Alexandre, defende vigorosamente o garçom.

No momento em que escrevo, nem um único repórter fora convocado para ouvir a história do garçom. Ninguém fora à sua casa, que podemos bem imaginar como seja.

Nenhuma autoridade – federal, estadual, municipal – se pronunciara em favor dele.

E o desembargador viverá em 2014 como sempre viveu, sabedor dos poderes que o cargo lhe dá.


*O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.



Fonte: Diário do Centro do Mundo
Imagem: Google
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