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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

JOSÉ DIRCEU - 'CARTA AO POVO BRASILEIRO'



"Fui condenado sem ato de oficio ou provas, num julgamento transmitido dia e noite pela TV, sob pressão da grande imprensa", escreve o ex-ministro, em carta que foi divulgada logo depois da ordem de prisão determinada pelo presidente do Supremo, Joaquim Barbosa; ele afirma que foram ignoradas "provas categóricas de que não houve qualquer desvio de dinheiro público" e garante que "continuará lutando" para provar sua inocência e anular esta "sentença espúria"



CARTA AO POVO BRASILEIRO


O julgamento da AP 470 caminha para o fim como começou: inovando - e violando - garantias individuais asseguradas pela Constituição e pela Convenção Americana dos Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário.

A Suprema Corte do meu país mandou fatiar o cumprimento das penas. O julgamento começou sob o signo da exceção e assim permanece. No início, não desmembraram o processo para a primeira instância, violando o direito ao duplo grau de jurisdição, garantia expressa no artigo 8 do Pacto de San Jose. Ficamos nós, os réus, com um suposto foro privilegiado, direito que eu não tinha, o que fez do caso um julgamento de exceção e político.

Como sempre, vou cumprir o que manda a Constituição e a lei, mas não sem protestar e denunciar o caráter injusto da condenação que recebi. A pior das injustiças é aquela cometida pela própria Justiça.

É público e consta dos autos que fui condenado sem provas. Sou inocente e fui apenado a 10 anos e 10 meses por corrupção ativa e formação de quadrilha - contra a qual ainda cabe recurso - com base na teoria do domínio do fato, aplicada erroneamente pelo STF.

Fui condenado sem ato de oficio ou provas, num julgamento transmitido dia e noite pela TV, sob pressão da grande imprensa, que durante esses oito anos me submeteu a um pré-julgamento e linchamento.

Ignoraram-se provas categóricas de que não houve qualquer desvio de dinheiro público. Provas que ratificavam que os pagamentos realizados pela Visanet, via Banco do Brasil, tiveram a devida contrapartida em serviços prestados por agência de publicidade contratada.

Chancelou-se a acusação de que votos foram comprados em votações parlamentares sem quaisquer evidências concretas, estabelecendo essa interpretação para atos que guardam relação apenas com o pagamento de despesas ou acordos eleitorais.

Durante o julgamento inédito que paralisou a Suprema Corte por mais de um ano, a cobertura da imprensa foi estimulada e estimulou votos e condenações, acobertou violações dos direitos e garantais individuais, do direito de defesa e das prerrogativas dos advogados - violadas mais uma vez na sessão de quarta-feira, quando lhes foi negado o contraditório ao pedido da Procuradoria-Geral da República.

Não me condenaram pelos meus atos nos quase 50 anos de vida política dedicada integralmente ao Brasil, à democracia e ao povo brasileiro. Nunca fui sequer investigado em minha vida pública, como deputado, como militante social e dirigente político, como profissional e cidadão, como ministro de Estado do governo Lula. Minha condenação foi e é uma tentativa de julgar nossa luta e nossa história, da esquerda e do PT, nossos governos e nosso projeto político.

Esta é a segunda vez em minha vida que pagarei com a prisão por cumprir meu papel no combate por uma sociedade mais justa e fraterna. Fui preso político durante a ditadura militar. Serei preso político de uma democracia sob pressão das elites.

Mesmo nas piores circunstâncias, minha geração sempre demonstrou que não se verga e não se quebra. Peço aos amigos e companheiros que mantenham a serenidade e a firmeza. O povo brasileiro segue apoiando as mudanças iniciadas pelo presidente Lula e incrementadas pela presidente Dilma.

Ainda que preso, permanecerei lutando para provar minha inocência e anular esta sentença espúria, através da revisão criminal e do apelo às cortes internacionais. Não importa que me tenham roubado a liberdade: continuarei a defender por todos os meios ao meu alcance as grandes causas da nossa gente, ao lado do povo brasileiro, combatendo por sua emancipação e soberania.





quinta-feira, 14 de novembro de 2013

E quem disse que o Planeta quer ser salvo?





Uma ecologia da imanência de onde?


por Bruno Cava


Não tenho como compartilhar o sentimento de que o planeta deva ser salvo. Essa angústia nunca me afetou. Já costumo torcer o nariz quando ouço apelos por salvação, tão rapidamente condutor a escatologias várias e suas indigestões características, mas nesse caso me parece mais grave. 

Quem é o planeta, essa entidade quase mística? E quem disse que o Planeta quer ser salvo? E quem disse que estaria condenado, em primeiro lugar?

Expressões consternadas e declarações sentenciosas, com o que se apresentam os juízes dessa corte, apenas me convencem de uma moral deprimida pelo terror e a paralisia. Teríamos de parar tudo e nos concentrarmos na “big picture”, no grande quadro do fim termodinâmico. Impõem com o selo da mais alta ciência para que deixemos de nos envolver com assuntos menores e os sigamos, como primeira prioridade. Manejam a culpa, e a distribuem em função do quão distante estaríamos, nós negacionistas em distintos graus, em relação à verdade por eles encontrada, revelada e promovida.

A Terra contudo não me assusta, nem seus ciclos, intempéries, ou eras do gelo. Não me assusta como não me assustam as manchas solares, os buracos negros, nem qualquer asteróide que, um dia, à semelhança do que acontecera com os dinossauros, a alta ciência possa concluir com razões matemáticas irá chocar-se por aqui. Não me comove esse pálido ponto azul na escuridão de espaços infinitos… em clima de romantismo siderado. Como tampouco tenho carinho especial pela Terra. Vivo aqui porque outros antes de mim escavaram este nicho onde pude fincar a existência e me alimentar do mundo. Num esforço inglório de lutas, desejos e revoltas, transfiguraram-se as comunidades e civilizações, com todos os seus problemas, até eu aqui poder usufruir de alguma forma de viver a liberdade. Sei que, tirando alguns mitologemas fundadores do ocidente, ninguém veio de algum paraíso, e nada aqui foi conquistado por benção. Não há razão para decadentismo, quando jamais houve idade de ouro. 

Não nascemos da pureza e da candidez de Gaia, outro nome para um renovado paraíso de tons mais pagãos. O problema é mais embaixo. É mais terreno, mais terra do que Terra. As pessoas é que estão ferradas. Os pobres, os sem-terra, os precários, os sem-renda, os discriminados por N motivos, em N condições de luta e resistência. Todos esses contingentes de deserdados pelo mundo afora, eles é que estão ferrados. Se reconheço uma urgência realmente inapelável, que me atinge graças à mínima sensibilidade com a qual fui dotado, ela reside na urgência de suas lutas. Persegue-me o fato bruto e incontornável de que, para muitos, o amanhã já é tarde.

O prazer gera o conhecimento, mas também a dor. Daí que essa experiência e essa sensibilidade sejam riquíssimas, porque imediatamente apaixonadas, uma inquieta paixão pelo real, um desejo de implicação e de engendramento coletivo de luta. Clamores para salvar o planeta, verdismos de neopagãos, ou indies decalcados de agenda política, estetizados ou terapeutizados, nostalgias da “essência perdida”: tudo isso não faz sentido para quem a pauta já está encarnada. Não admira causar em quem luta a mais rochosa indiferença. Pouco importa profetizar a destruição do futuro a quem mal se equilibra no presente, soluça para dar o próximo passo, para quem qualquer ideia de perspectiva universal excede o desafio cotidiano de se virar e seguir adiante, na lei da sobrevivência. Vivem na pele o mundo, não como alta ciência, mas como superfície.

Minha cumplicidade prefere estar com estes, meus desejados conterrâneos, a render o tempo à hipótese descansada de Gaia. Afinal, Gaia pode ser mais um nome para a Alma do Mundo, outra transcendência nascida quer do misticismo mais vulgar, quer de torneios especulativos filosofantes. É filosofia de laboratório, ideia sem força, sem passione. Gaia não acolhe. O planeta não provê. A “natureza selvagem” nunca foi mãe de ninguém. Dizer-se seu filho é de uma imensa ingratidão. Gaia, a Natureza, o Verde, o Planeta Terra costumam ser invocados apenas por quem os experimentam como turismo, atrás de alguma vibração na vidinha ‘clean’ e confortavelmente monótona. Apartado da alegria da construção coletiva das alternativas e lutas, chega um momento quando precisa depositar as expectativas para sair de uma existência banal e sem sentido. Mas sempre com riscos controlados, a emoção calculada, sem deixar de manter-se limpíssimo (moral e fisicamente), com plena consciência e autossatisfação de uma vivência reconfortadora. Incorre muitas vezes em nostalgia de “bom selvagem”.

Como ensina a melhor antropologia no Brasil, os índios das Américas não experimentam a “natureza selvagem”, alguma comunhão esplêndida antes da Queda, mas a sociedade na floresta (e a selva d/na sociedade). Superabundante de relações e pontos de vista constituintes, numa riqueza amazônica onde são bons e maus, perigosos e aventureiros. Saturadíssima de relações sociais com todos os entes que existam, nenhum dos quais além de sua própria existência, nenhuma Terra, nenhum planeta da humanidade unificando-os. E, talvez, eles não vivam o fim do mundo, mas o mundo como findo. Experimentam já o pós-holocausto: são os judeus da terra, como os palestinos o são, os presidiários, os negros americanos, a mulher que apanha do marido alcoólatra, o gay espancado na Avenida Paulista, o despedido que deve tudo e mal tem coragem de voltar para casa, o pobre homem humilhado cotidianamente pelo patrão, a menina estuprada pelo pai, a adúltera queimada com ácido, clitóris extirpado, qualquer criança largada na rua de uma cidade, a barriga com vermes e sem escola, numa cidade ou terra brutalizada pelo mercado mundial, como tantas. 

Eu posso compreender quando dizem que o mundo já acabou. Jamais deveríamos transcender a condição vívida de todas essas pessoas, implicadas numa “consciência” que é imediatamente enfrentamento, recriação e, apesar de tudo, mais vida. Pessoas que não se suicidam e seguem em frente. Seguiram em frente, até construir o pouco de liberdade e poderes de existir que hoje exercemos. Somos feitos dessa carne, dessas dores e cansaços acumulados e sobrepujados pela vontade maior de reexistir. Foi assim, insurgindo-se, construindo uma ciência de baixo a cima, que escavaram o terreno improvável de nossos direitos.

É preciso existir nesta terra sem nenhuma entidade superior à experiência, nenhum Grande Plano promovido por sacerdotes; andar sobre ela, cavá-la, a terra em que pisamos e onde somos defrontados com o sofrimento, a degradação e a morte, e onde também amamos, temos amigos, amantes, filhos, cantamos, criamos mais vida muitas vezes das coisas menores, de um besouro que caminhe pela parede. Não precisamos do planeta. Siderar-se no além-mundo, caçar desesperadamente elos perdidos e essências fugitivas, não é uma opção para todos. 

Não vamos salvar-nos no final, mas e daí, faz diferença? 

Só sei que podemos continuar lutando pelo mundo a que temos direito, e morrer tentando. É preciso cantar e dançar sobre essa terra. A única ecologia que importa começa na experiência dos pobres, deserdados e sem-terra, com a riqueza vívida desses mundos conflagrados. 

Daí, sim, se podem fiar a nossa revolta e o nosso amor.


Fonte: Jader Resende
Texto Original em Quadrado dos Loucos




quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Por que a França fez ‘a estúpida’ no caso do Irã




Bibi e Hollande, dois canastrões no caminho das normalizações do ocidente com o Irã



Por Pepe Escobar, Asia Times Online


John Kerry

 PARIS – O secretário de Estado dos EUA John Kerry declarou, em frase já famosa, que os EUA “não são cegos” nem “estúpidos” no empenho para assinar um acordo histórico sobre o programa nuclear iraniano.[1] Então, sim, o mundo foi informado. Mas Kerry, provavelmente, embora em código, falava da França.

O fracasso das negociações de Genebra no final de semana, para um acordo nuclear temporário, teve pelo menos o mérito de revelar quem realmente está bloqueando o acordo: o eixo do medo e ranger de dentes – os Likudniks em Israel, a Casa de Saud e o governo François Hollande na França.

Torrentes de bytes já detalharam o modo como Israel rotineiramente sequestra a política externa dos EUA. Eis aqui mais uma demonstração, desenhada, de como funciona o tal de Rabo Que Balança o Cachorro.


Na 6ª-feira passada, à noite, o presidente Barack Obama telefonou ao primeiro-ministro de Israel Bibi Netanyahu para pedir-lhe que não detonasse Genebra. Bibi ouviu e, imediatamente depois, em sequência, telefonou para o primeiro-ministro britânico David Cameron; para o presidente Vladimir Putin da Rússia; para a chanceler alemã Angela Merkel; e para o presidente Hollande da França, e pediu que eles... detonassem Genebra.

Hollande foi o único que obedeceu a ordem de marcha de Bibi. E, tudo isso, depois que o próprio Kerry ouvira aula magna de Bibi, na pista do aeroporto Ben Gurion em Telaviv, na 6ª-feira pela manhã.

Acelere a fita até o finzinho, domingo de manhã cedo. Não por acaso, Wendy Sherman, principal negociador dos EUA para a questão nuclear iraniana, empenhado militante dos “Israel em primeiro lugar” e racista e limítrofe,[2] voou de Genebra direto para Israel, para “tranquilizar” seu verdadeiro líder, Bibi, de que não haveria acordo.

Não é segredo que Bibi e os Likudniks também mandam um bocado na colina do Capitólio. Além de detonar Genebra, Bibi pode também encapar mais uma vitória temporária, com o Congresso dos EUA já pronto para impor ainda mais sanções contra o Irã, anexando-as à Lei de Autorização da Defesa Nacional [orig. National Defense Authorization Act].


Apresento-lhes Bandar Fabius
Fabius

No que tenha a ver com o comportamento francês, é condicionado tanto pelo formidável lobby israelense em Paris quanto pelo dinheiro muito das petromonarquias do Golfo.

Com certeza ajudou que, segundo o The Times of Israel, o deputado francês Meyer Habib – que também tem passaporte israelense, ex-porta-voz oficial do Likud na França e amigão de Bibi – tenha telefonado ao ministro de Relações Exteriores da França para dizer-lhe que Israel atacaria instalações nucleares iranianas se o acordo que estava sobre a mesa fosse assinado.[3]

Meyer Habib e Benjamin Netanyahu

Podem chamar de “efeito AIPAC”. Habib é vice-presidente do Conselho Representativo das Instituições Judaicas Francesas, CRIF[4] – equivalente francês do Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel. E o ghostwriter que escreve discursos para o presidente Hollande também é membro do CRIF.

Fabius, grandiloquente e pegajoso feito Roquefort passado, invocou – e o que mais poderia ser? – “preocupações com a segurança de Israel” e detonou Genebra. O presidente Hassan Rouhani do Irã e o ministro de Relações Exteriores Mohammed Javed Zarif sempre se preocuparam muito com o risco de serem sabotados pela própria oposição interna, o Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos, de linha dura. Portanto, a diretiva n.1 era que nenhum detalhe do acordo poderia vazar durante as negociações.

Foi exatamente onde Fabius agiu. Antes, até, de Kerry pousar em Genebra, Fabius já dizia, por uma rádio francesa, que Paris não aceitaria um jeu des dupes (“jogo de burla”, “jogo de enganação”).

O papel de Fabius foi impagavelmente sintetizado pelo proverbial diplomata ocidental não identificado, que disse à Reuters que “os americanos, a União Europeia e os iranianos trabalharam intensamente durante meses nessa proposta. Isso, agora, não passa de Fabius tentando intrometer-se no que é importante, já no final das negociações.”[5]

Terabytes de comentários pela mídia dizem que Washington e Paris estão fazendo o jogo do ‘policial bonzinho x policial durão’ na questão iraniana. Não exatamente: está mais para Galo Gaulês querendo aparecer.

Hollande estava doido para bombardear Damasco, quando Obama fugiu da raia, no último minuto, e desistiu do ataque “limitado”, do Pentágono; Hollande foi deixado lá, ante uma garrafa de Moet azedo. Nos dois, na Síria e no Líbano, Paris desavergonhadamente faz um jogo neocolonial de tapas e beijos, enquanto divide o leito com Israel e a Casa de Saud.

Mas por que mais uma vez dar um tiro no próprio pé? Paris perdeu muito dinheiro – além de empregos franceses, via a empresa Peugeot, fabricante de carros – por causa da demência das sanções contra o Irã.

Bandar bin Sultan
Ah, mas sempre há a sedução do chefe da inteligência saudita príncipe Bandar bin Sultan, codinome Bandar Bush, e das petromonarquias do Golfo. Em resumo: Bandar Fabius só fez prestar-se a moleque de recados da Casa de Saud. O preço: contratos militares gigantes – aviões, navios, sistemas de míssies – e a possível construção de usinas nucleares na Arábia Saudita, negócio semelhante ao que a gigante francesa de energia Areva acertou ano passado com os Emirados Árabes Unidos.

O fantasma de Montaigne deve estar gemendo; a França já não tem graça. O Irã não tem direito a usinas nucleares, mas a França constrói e opera várias delas para seus clientes wahhabistas.

O ocidente fazendo servicinhos para Israel faz sentido; afinal, Israel também pode ser descrita como um porta-aviões ocidental metido no coração do Oriente Médio árabe. Quanto à França fazendo servicinhos para os wahhabistas, é só seguir o dinheiro – da Veolia de construções e usinas de desalinização de água na Arábia Saudita, a todos aqueles jatos Rafale a serem despachados.

O Qatar, aquele paraíso de patrões do trabalho escravo presenteado pela FIFA com uma Copa do Mundo, já investiu mais de US$15 bilhões – e aumentando – na França, de ações da Veolia e do mamute Total de energia, à empresa Vinci, de construções; à Lagardere, gigante das comunicações, e ao controle total do Saint Germain de futebol, lar do novo Rei de Paris, o ícone do futebol Zlatan "Ibracadabra" Ibrahimovic. Para nem dizer que o Qatar já é proprietário de virtualmente todas as polegadas quadradas que interessam entre a Madeleine e a Opera, em Paris.

Hollande, "A arte de queda"

Hollande é piada. Essa semana, está na capa do semanário Courrier International (manchete: “A Arte da Queda”), com a mídia paneuropeia chamando-o de “incoerente”, “paralisado” e “incompetente” (para ficar só nos epítetos generosos). Na edição de fim-de-semana do Le Figaro, do establishment, estava sendo destruído, por conta do mais recente rebaixamento da avaliação do crédito da França, pela Standard & Poor’s.

Rei Sarko 1º – codinome ex-presidente Nicolas Sarkozy – deve estar nas nuvens; Hollande é hoje o presidente mais impopular de toda a história da França. Paris continua ótima – mas mais para hordas de turistas emergidos dos mercados emergentes, não para hordas de parisienses desempregados.

Chamem Bandar Fabius para nos salvar! O dinheiro das petromonarquias do Golfo é a salvação! Em tese, o show de “independência” em Genebra deve traduzir-se em bilhões de euros em contratos e investimentos. Também ajuda que Hollande, “o incompetente”, fará visita oficial a Israel nos próximos dias.


O tal pivô na direção da Pérsia

Desistam de encontrar razões para aquele “show de independência” na grande mídia francesa, exceto no blog de Alain Gresh do Le Monde Diplomatique.[6]

As explanações são absolutamente patéticas. A França “está sozinha contra todos”; mostrou “responsabilidade”; “reafirmou sua independência”. E, claro, a culpa é toda de Kerry, que, dizem, “apareceu com um texto que ninguém vira antes”. Cada figurante movimentou-se para apresentar Fabius (dos “Israel em primeiro lugar”) como salvador. Mas o Eliseu fez saber que Fabius apenas obedecia ordens de Hollande – as quais, em tese, significaram renegociar “os pontos fracos” do acordo. Na essência, é Hollande, o “incompetente”, tentando mostrar a Obama, que tem colhões.

Paris tenta fazer crer que o problema do acordo teria a ver com o reator de água pesada de Teerã, em Arak, e com os seus estoques de urânio médio-enriquecido. Diplomatas de EUA e Irã trabalharam duro para chegar a um acordo: Teerã continuaria a construção do reator durante os seis meses de vigência do acordo provisório, mas só faria testes com água comum e falsos bastões de combustível.

Kerry estava trabalhando nisso, até que Fabius intrometeu-se fantasiado de pavão, numa longa sessão que avançou pela madrugada de sábado. Foi o que levou o ministro Zarif do Irã a observar, com ironia, que o G5+1 (EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China + a Alemanha) precisava negociar uns com os outros, antes de negociar com o Irã.

A confusão dentro do G5+1 pode comprometer gravemente a próxima rodada de negociações em Genebra. E Kerry, não se sabe se percebeu ou não, deu jeito de mudar a própria narrativa, para algo ainda mais teatro do absurdo: agora se pôs a culpar o Irã pelo não acordo.[7] É como se, depois de ter lido os jornais franceses, tivesse decidido pagar pelos próprios pecados.

Pode-se argumentar que o Irã provou à “comunidade internacional”, a outra, a real, de carne e osso, que deseja um acordo e está disposto a negociar. Mas há ainda as sanções a serem aprovadas pelo Congresso dos EUA – sabotagem de facto, norte-americana, interna. Mas são sanções contra terceiros, pelas quais outros países são punidos pelos EUA, se comerciarem com o Irã. Ninguém as levará a sério, a começar pelas potências asiáticas, Turquia e Rússia.

Por hora, nenhum acordo pode até parecer melhor que um mau acordo. Pode acontecer na próxima reunião em Genebra, dia 22/11. O mais provável é que aconteça um acordo provisório completo, dentro de poucos meses. O governo Obama deseja um acordo. E a França, apesar da pose, é irrelevante.

Pior. Paris está sendo “cega” e “estúpida” – aproveitando as palavras de Kerry –, por afastar as empresas francesas, no setor de energia, energia nuclear e manufatura, das possibilidades fabulosas que viriam com a normalização das relações entre o Irã e o ocidente. Se a gangue de Hollande espera ser “salva” pelos wahhabistas, deve ter tomado mescal.

Talvez leve anos – e levará. Mas Washington inevitavelmente encontrará algum tipo de acomodação com o Irã. As empresas norte-americanas querem isso. O ocidente, desesperadamente carente de energia, deseja isso. Até o complexo da hiperpotência norte-americana quer isso – por que lhe abrirá forte deriva rumo ao sudoeste da Ásia, e dali adiante. O eixo do medo e do ranger de dentes de Israel, Casa de Saud e França pode fazer-se de estraga prazeres – mas só por pouco tempo. “Pivô para a Ásia”? Só depois de um pivô para a Pérsia.



[1] 10/11/2013, Iran nuclear talks: US 'not stupid' - John Kerry, BBC News

[2] 4/11/2013, The DNA of Iranians and Under Secretary Sherman, Counterpunch

[3] 10/11/2013, Israel will attack Iran if you sign the deal, French MP told Fabius

[4] http://www.crif.org/

[5] 9/11/2013, Iran nuclear deal unlikely as split emerges in Western camp: diplomats, Reuters

[6] http://blog.mondediplo.net/2013-11-10-Nucleaire-iranien-la-France-s-oppose-a-une (em fr.)

[7] 11/11/2013, Iran balked at Geneva nuclear deal, says John Kerry, The Guardian




Fonte: IrãNews
Imagens: IrãNews, Google

domingo, 10 de novembro de 2013

A Raposa e o Rato de Laboratório


PUTIN E OBAMA / Foto: The Telegraph

A Raposa e o Rato de Laboratório


Por Maurício Porto do Blog Ladeiras do Silêncio


Putin, humano não é.
Ele nasceu Raposa.
Não a das uvas de Esopo,
muito menos a do deserto
do general Rommel.

Da velha Rússia
e da extinta União Soviética,
herdou o poder do inverno,
manifesto na sua calma frieza
que controladamente, talvez esconda
o calor do sangue e da bravura
dos sobreviventes e heróis 
dos "Novecentos Dias do Cerco de Leningrado", 
sua cidade natal.

Putin, a Raposa,
herdou também
dos seus antepassados,
a sabedoria da espera,
a infinita resistência
e a coragem extrema
que sob a neve soterraram 
os imperiais sonhos de Napoleão 
e de Adolf o infâme Hitler.

Se crimes cometeu
para chegar aonde está,
quem o acusa merece respeito?
Por acaso, as mídias 
do Império Assassino
e a dos seus cúmplices, 
falidos capachos europeus,
publicam sempre verdades
e mentiras jamais?
Julian Assange que o diga.

Repito, Putin humano não é.
Ele nasceu Raposa.
A KGB lhe ensinou o segrêdo
de alcançar as uvas
e dominar o deserto
de sua Pátria esfacelada,
no fim do comunismo.

Se ele fosse tão ruim assim,
como a mídia ocidental insiste,
o seu povo não o elegeria
pela terceira vez, Presidente.
Autoritáriamente ou não,
quem manda na Rússia é ele
e não os banqueiros
e os industriais das armas, guerras e mortes
de milhões de civis inocentes.

Ele, o Enxadrista,
há muito pouco tempo,
um peão apenas moveu
e mandou o Rato dos Drones
de volta para o seu real lugar,
um labirinto sem fim ou saída
no laboratório de experiências
dos banqueiros de Wall Street.

Putin salvou milhares de vidas na Síria, 
por mercenários invadida.
Como um verdadeiro Líder Mundial,
"deu um cala boca geral",
pela tão desejada Paz na Terra,
imobilizando o Rato no tatame.

No judô e na política, 
a Raposa é mestre.

O Rato continua perdido
no seu labirinto mandato.

Putin, na espreita, espera.

O Rato de Laboratório

Obama, o pau mandado, não é humano. 
É um desumano destruidor de vidas 
de crianças, jovens, adultos e idosos,
que cometeram o "crime"
de nasceram em países
que o seu "Excepcional Império",
mentalmente doente e onipotente,
"julgando cumprir" o seu indigesto
"Destino Manifesto"
e com desculpas esfarrapadas,
resolve simplesmente assaltar.

Obama é mais um 
dos Ratos de Laboratório,
que continua fazendo 
o seu secundário papel
no teatrinho de marionetes,
que é o que restou
aos presidentes do seu país.

Fantoches, brinquedinhos,
da Super Ratazana, 
o Federal Reserve,
e de seus gulosos 
banqueiros de Wall Street.

Bonequinhos de terninhos,
namoradinhos de plástico
das Barbies de plantão,
eternos subalternos
da elite industrial
e dos fabricantes
de guerras, golpes,
assassinas ditaduras,
mercenárias invasões,
que lucram e capitalizam
milhares, milhões de mortes e barris de petróleo. 
A riqueza alheia e milhões, bilhões, trilhões de Dólares.

O Rato, uma simples cobaia,
herdou do seu povo,
a ridícula e nefasta
idéia da "Excepcionalidade",
por ele dita em fevereiro deste ano,
no seu imbecil discurso no Capitólio, 
sobre o "Estado da União".

O "Excepcional" Rato,
espião de quinta categoria,
desmoralizado, roto,
mundialmente exposto,
odiado e questionado,  
tonto e amarelado,
nos seus pesadelos 
deve ouvir bem alto
o riso vitorioso
de Edward Snowden,
este sim, Excepcional!

O Rato não crê em Deus,
ele se crê Deus, coitado.
Nega para si mesmo
que é apenas um serviçal,
um ratinho de laboratório
e ai dele se tentar fugir.

Uma estranha bala
vinda pelas suas costas
fará uma curva impossível
e penetrará na sua testa
explodindo seu cérebro.

Outro ratinho o substituirá
e o Império dos "Excepcionais",
continuará a sua criminosa e sinistra trajetória
no planeta que ele julga ser o dono, 
a Terra de Todos Nós!
Até quando?


Em homenagem a Vladimir Putin, Presidente da Rússia.


Do Livro - Ladeiras do Silêncio (Maurício Porto)






Fonte: Ladeiras do Silêncio



Comunicado





Após vários dias viajando, retorno ao blog, peço desculpas a todos.

Um grande abraço a todos os amigos!

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Como nos ensinam a “estudar”






Por Hellen Amorim


A educação brasileira se baseia em um sistema que desvaloriza o “pensar”, prezando por métodos que não beneficiam os raciocínios lógico e crítico dos jovens. O resultado disso são adultos moldados pelo sistema, pessoas que foram estimuladas a memorizar e a passar em provas. Nada mais.

A análise e a proposta que seguem são decorrentes de tudo que vivenciei nas escolas e nas universidades que frequentei, tanto públicas quanto privadas. Do maternal à graduação, percebi que o modo como a educação é tratada é falho e ineficiente. E como eu, enquanto aluna, fui e sou tratada. Como me estimularam a agir como um robô acumulador de dados e informações. Me ensinaram a decorar, me ensinaram a fazer os mais diversos tipos de provas, mas não me ensinaram a pensar, não estimularam a minha curiosidade e a minha criatividade. Mediram o meu conhecimento com números, com notas que nunca me representaram. Depois de tomar consciência disso tudo eu me sinto enganada e traída. Me disseram que a escola era um espécie de segundo lar, onde todos trabalhavam em prol do meu crescimento. Mentira. A escola não cumpriu o prometido. Não por culpa da escola em si, muito menos dos profissionais que trabalham nela, mas por culpa do sistema em que a educação está estruturada. Não conheço todas as escolas desse país, mas acredito que a grande maioria delas seja fiel ao triste método a que fui submetida a vida inteira.

De acordo com o dicionário Michaelis UOL, a palavra educação se define da seguinte forma:
educação


e.du.ca.ção

sf (lat educatione) 1 Ato ou efeito de educar. 2 Aperfeiçoamento das faculdades físicas intelectuais e morais do ser humano; disciplinamento, instrução, ensino. 3 Processo pelo qual uma função se desenvolve e se aperfeiçoa pelo próprio exercício: Educação musical, profissional etc. 4 Formação consciente das novas gerações segundo os ideais de cultura de cada povo. 5 Civilidade. 6 Delicadeza. 7 Cortesia. 8 Arte de ensinar e adestrar os animais domésticos para os serviços que deles se exigem. 9 Arte de cultivar as plantas para se auferirem delas bons resultados. E. física: a que consiste em formar hábitos e atitudes que promovam o desenvolvimento harmonioso do corpo humano, mediante instrução sobre higiene corporal e mental e mediante vários e sistemáticos exercícios, esportes e jogos.

O conceito aqui considerado é o abrangido nos itens de 1 a 4.


Pode-se dizer que, atualmente, a educação brasileira se baseia em um objetivo. Desde pequenos os alunos são estimulados a escolher uma área de atuação com o intuito de se decidirem profissionalmente no futuro. Este objetivo, então, tem a ver com a profissão e a função social que os jovens terão quando forem adultos. Não vou entrar no mérito de que hoje se estuda para ter um bom emprego, pois esse tema é amplo e pode ser contemplado num artigo próprio. O fato é que este objetivo tem como pivô uma prova chamada vestibular.

O vestibular é o ápice da formação básica (ensino fundamental e ensino médio). Tudo o que é transmitido aos alunos gira em torno desta prova. Todas as séries preparam gradativamente os alunos para estarem prontos para uma prova. Além disso, o sistema ainda incita repetidas vezes que esta prova é a que decidirá todo o resto da vida deles, que todo e qualquer caminho que o aluno resolva trilhar quando sair da escola depende dessa prova. Uma crueldade, diga-se de passagem. Nos vendem um discurso onde os que passam na prova são os vencedores (e os que não passam, são o quê?) e não medem as consequências dessa repetição.


Uma pessoa que entra na escola com três anos de idade e se forma no ensino médio com dezessete anos terá passado quinze anos de sua existência se “aprontando” para uma única prova, para uma única etapa, para uma única fase. É algo tão limitado que chega a ser inacreditável. É difícil entender o porquê desse sistema persistir, o porquê de quase ninguém se sentir lesado por conta dele.


As disciplinas hoje ministradas carregam em si um número desmedido de conteúdos. Muitos dos temas abordados nas disciplinas são dispensáveis e inúteis. É muito comum ouvir a seguinte colocação dos alunos: “Mas eu nunca vou usar isso na minha vida”. E é um fato. Muito do que é repassado em sala de aula não se usa fora dela. Para exemplificar, no ensino médio, um aluno terá que estudar geometria analítica em Matemática. Este é um conhecimento tão específico que interessa apenas ao aluno que for se especializar na área. Sem contar que é um conhecimento que não deveria estar na formação básica, deveria ser exclusivamente da formação superior. Um aluno que não pretende continuar seus estudos nessa área não precisa se sujeitar a esse conteúdo, pois é desnecessário.

Devido à sobrecarga de conteúdos os alunos são obrigados a decorá-los. Os alunos memorizam o que é de interesse para o momento, seja um trabalho ou uma prova específica, e depois apagam os dados de seus cérebros. É assim que funciona. É assim que o vestibular funciona. Os estabelecimentos de ensino criam métodos e mais métodos de memorização e vendem isso como se fosse a coisa mais sensata a se oferecer. É uma tática adotada principalmente no ensino médio e nos cursos pré-vestibular. Os alunos decoram músicas com palavras-chave, decoram fórmulas com palavras que possuem as iniciais das fórmulas e são levados a acreditar que isso é aprendizado, que isso é conhecimento. Não é. O vídeo abaixo exemplifica como os alunos são encorajados a decorar, não a entender:


É triste saber que a maioria das pessoas, tanto alunos, quanto seus pais e seus professores aplaudem esse tipo de aula. É uma aula cômica, não muito estressante, correto. Mas é uma aula que não acrescenta absolutamente nada. É uma agressão à capacidade intelectual dos alunos.

O curioso dessa questão das disciplinas é que, mesmo elas contendo tanta informação, ainda faltam conhecimentos a serem incluídos, conhecimentos importantíssimos e essenciais. As disciplinas já existentes devem passar por uma grande reformulação e novas disciplinas devem ser acrescentadas. O ideal é que a escola prepare os alunos para situações de vivências presentes e futuras, não para uma prova.

O que acredito que deva ser acrescentado na grade escolar: legislação, economia, política e trânsito. Todo cidadão deve ter noção do que está exposto na Constituição Federal, nos Códigos, nos Estatutos (…). Assim como deve ter entendimento, mesmo que básico, do que está envolvido com a política e a economia, como funcionam, no que se baseiam; afinal, o sistema político e econômico vigente é o sistema capitalista. E algo tão complexo quanto o trânsito não deveria se resumir a alguns dias de aulas teóricas obrigatórias para a aquisição do documento de habilitação. As crianças não podem se tornar adultos sem que saibam o mínimo destes assuntos. São assuntos que fazem parte da vida de todos, desde o nascimento até a morte. Não são temas que dependem da futura área de atuação profissional do aluno, são temas gerais. É um erro não tratá-los com a devida relevância. São assuntos que merecem destaque em qualquer programação escolar.




Na lição de Paulo Freire: “Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”. Crianças precisam crescer com esse discernimento.

Quanto às disciplinas existentes, o apropriado seria se desfazer da maioria dos conteúdos descartáveis e incluir conteúdos úteis. Por exemplo, estudar nutrição e alimentação em Biologia é bastante relevante. Abordar temas que envolvem tecnologia e desenvolvimento nas aulas de Física e Química também é apropriado. É preciso despertar a curiosidade dos alunos. Não há estímulo suficiente em uma aula puramente teórica, nos moldes do quadro, giz e cópia no caderno. Disciplinas que envolvem as ciências biológicas e as ciências da natureza devem ser vistas tanto pelo viés teórico quanto pelo viés prático. Existe uma diferença enorme entre ler e ouvir sobre o movimento de revolução da Lua em torno da Terra e observar, noite após noite, com um telescópio, esse movimento. Tirar as próprias conclusões e anotar as próprias observações sobre o fenômeno é mais estimulante, é mais legal. A escola tem que proporcionar isso aos alunos.

Outras duas disciplinas, a educação física e a educação artística, devem ser mais valorizadas. Preza-se muito as disciplinas que não envolvem as capacidades físicas e artísticas. Os alunos que apresentam habilidades para os esportes, para a música, para a dança, para o teatro ou para pintura não são estimulados a aperfeiçoarem-nas. O sistema supervaloriza certas habilidades e menospreza outras. Como se existissem conhecimentos superiores a outros. Como se um aluno muito habilidoso em dança fosse inferior a um aluno muito habilidoso em Física, por exemplo. Observando-se os maiores gênios e as maiores personalidades ao longo da história, vê-se que eles estão espalhados por todas as áreas do conhecimento, não em áreas específicas.

O psicólogo Howard Gardner sugere a existência de inteligências múltiplas, rompendo com a ideia de que a inteligência é única e se apresenta igual a todos os indivíduos. As inteligências que se baseiam no trabalho de Gardner e hoje consideradas são: lógico-matemática, linguística, musical, espacial, corporal-cinestésica, intrapessoal, interpessoal e naturalista. Na imagem abaixo há uma visão geral sobre cada uma delas. Dentre as várias formas que o aluno pode demonstrar sua inteligência, a escola não deveria considerar apenas uma delas como a merecedora de desenvolvimento e aprimoramento. É visível que a escola prioriza a inteligência lógico-matemática em primeiro plano e a linguística em segundo. As demais inteligências não encontram muito espaço no ambiente escolar. Isso afeta consideravelmente os alunos que, para se adequarem ao sistema, renunciam as suas personalidades, os seus dons. É uma gigantesca injustiça o que ocorre com esses alunos. Não pode ser assim. Não deve ser assim.



Não adianta dizer que um país precisa de educação para crescer. Não adianta dizer que a escola pública precisa melhorar. O Brasil tem uma educação vigente. O que deve ser mudado é o sistema. Tanto a escola pública quanto a escola particular agem de acordo com esse sistema. Este sim precisa ser reformado, reformulado. Sempre que voltava do colégio passava por um muro com a seguinte pichação: “Só a educação liberta esta nação”. Eu concordava com aquilo. Hoje não concordo mais. A educação como está não nos libertará nunca. De nada. Enquanto não ocorrer uma mudança, nós, alunos, não seremos vistos como cidadãos, como pessoas, continuaremos a ser vistos apenas como mais um “tijolo no muro”. A educação virou comércio, virou negócio. Quem lucra não é o aluno, são os empresários do ramo e o Estado que estima robôs, não seres pensantes. E isso é doloroso. É doloroso tomar consciência do que fazem conosco.

O pior de tudo é sair da escola, entrar na faculdade e perceber que nada mudou. “E eu achando que tinha me libertado… Mas lá vem eles novamente e eu sei o que vão fazer: reinstalar o sistema” (Admirável chip novo – Pitty). Antes era vestibular e Enem, agora é OAB, Enade e concursos (sou estudante de Direito). A impressão que fica é a de que ninguém se preocupa em me formar uma profissional competente e preparada para enfrentar os reais desafios futuros. A seguinte citação de Cesar Pasold traduz o que digo:

Percebe-se que se está a conferir a capacidade do acadêmico no armazenamento literal do texto codificado. Não se busca aferir, por exemplo, a capacidade de raciocínio segundo os princípios constitucionais. Relega-se a interpretação, pois esta pode ensejar que o despachante forense tome atitudes conscientes, críticas, que não são bem quistos dentro do sistema vigente. Evita-se a mudança de paradigmas a todo custo. A capacidade ética do futuro profissional perde razão para as potencialidades de sua memorização. Por isso, não rara a constatação de que muitos acadêmicos, com perfil ético e profissional de verdadeiros juristas, não consigam lograr êxito nos referidos Exames, posto que estão voltados a um novo paradigma jurídico”.

Esta semana tive a oportunidade, depois de uma prova oral, de desabafar tudo isso para um professor. Ele disse que não tirava minha razão, mas que ele, sendo também professor de cursinho, via que a tendência era só piorar. Agora, me diz se não é para ficar desanimada?

Tudo que querem é formar um nome na lista de aprovados. Só. Alunos não passam de números de inscrição nas milhões de provas da vida. Às vezes, a contragosto, acabo concordando com aquela frase que diz que a ignorância é uma virtude. Infelizmente.

E, para não ser injusta com aqueles que destoaram das regras impostas pela educação e compartilharam mais do que macetes comigo, fica o meu agradecimento. Obrigada aos professores que viram em mim uma pessoa, não mera ferramenta de trabalho. Valeu a pena tê-los conhecido. Se você é professor e está lendo o artigo, o pedido que fica é: preze pelos seus alunos, você tem uma responsabilidade enorme em mãos, você tem em seu convívio pessoas valiosas que esperam ser tratadas com respeito. Não somos máquinas. Nós merecemos mais consideração.

Para complementar:

Rubem Alves – A escola ideal – O papel do professor




Ken Robinson: Escolas matam a criatividade?




Gabriel o Pensador – Estudo Errado


Inteligências (Você se acha burro?) – Hugo Codasi




Richard Feynman e o Ensino da Física no Brasil


Os sete saberes necessários à educação do futuro – Edgar Morin


INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS – Luiz Carlos Panisset Travassos


Bônus:

Pink Floyd – Another Brick In The Wall



Mesmo que eu esteja em outra época, faço das palavras do refrão as minhas e a cena entre 4:22 e 5:35 sempre arranca um sorriso da minha face.






Fonte: Alimente o Cérebro

Imagens: Alimente o Cérebro, Google


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