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domingo, 5 de janeiro de 2014

Primeira-dama do Uruguai, Lucía Topolansky divide com o marido, José Mujica, a luta por um país diferente




Por Léo Gerchmann, Repórter Especial, Editoria de Mundo
leo.gerchmann@zerohora.com.br

O momento era solene como costumam ser os juramentos de posse presidencial. Fazia calor em Montevidéu naquele março de 2010. Avesso a formalidades, o novo presidente uruguaio, José Pepe Mujica, dispensou a gravata e disse, olhos fincados nos olhos da senadora Lucía Topolansky, ele de blazer preto e camisa branca, ela de tailleur cor-de-rosa:

Eu, José Mujica Cordano, comprometo-me, pela minha honra, a desempenhar lealmente o cargo que a Constituição da República me confiou defender.

 No dia de sua posse como presidente do Uruguai, Pepe Mujica fez seu juramento olhando bem nos olhos da mulher. Era o começo de mais um tempo de cumplicidade. Foto: Paul Libert, AE

O rosto de Lucía, vincado pelas rugas de uma vida intensa, comprimia-se. Traía a emoção, o choro reprimido, guardado para depois, quando estivesse em casa.

Não era a primeira vez que Lucía o ouvia jurar lealdade. Não era a primeira vez que um prometia para o outro as mais edificantes intenções.

Fora dos ambientes sisudos onde se exerce o poder, a 20 minutos do Palácio Presidencial, os dois socialistas, Lucía e Pepe Mujica, plantam acelgas, beterrabas e flores no rancho de Rincón del Cerro. Lucía é a mulher de Mujica, o homem que implementou medidas libertárias e levou o Uruguai a se tornar referência mundial, eleito o "país do ano" de 2013 pela revista britânica The Economist, acostumada, em 170 anos de história que se confunde com o capitalismo, a propor receitas austeras para as mais diversas nações.


Parceira na Frente Ampla (coalizão de partidos de esquerda, sindicatos e organizações sociais) e companheira de armas nos anos de chumbo, Lucía conheceu Mujica e por ele se apaixonou quando ambos circulavam pelas sombras da clandestinidade, no início dos anos 1970. Juntos, planejaram assaltos, sequestros e fugas.

Nos conhecemos na militância clandestina, que impõe grande solidão ao nos afastar de nossas famílias. Na luta, os seres humanos têm a oportunidade de se conhecer em profundidade, em suas virtudes e seus defeitos. É um espaço que aproxima, propicia o afeto e o amor, e foi isso o que nos juntou — diz ela.



Desde abril de 1972, há mais de 40 anos, são um casal que chama a atenção pela cumplicidade na luta e no afeto. O casamento, formalizado apenas em 2005, tomou corpo depois que Mujica fugiu da prisão de Punta Carretas andando mais de cem metros em meio a fezes e baratas, no subsolo de Montevidéu. Houve, porém, novo encarceramento dos dois e a libertação com a anistia, em 1985. Nunca mais se separaram. Nunca tiveram filhos.


Desentendimentos eventuais? Assessores contam que a afinidade entre os dois chega a ser assombrosa. Não os imaginam discutindo. Lembram Mujica levando a primeira-dama na garupa da vespa do casal, tradição que começou quando ele tinha cabelos negros e ela era loira e que continua, agora que a vida já pintou de branco as melenas intactas dos dois, esvoaçantes na medida em que a "motoca" segue seu rumo. Lembram deles indo para a casa no campo, acomodados no fusca azul ano 1987 do qual jamais cogitaram abrir mão, e depois pondo a mão na terra para cultivar os sonhos que sempre compartilharam.



Sou o soldado mais fiel do presidente - diz Lucía. — No Senado, na política e na vida.

Casamento gay, aborto nas primeiras 12 semanas de gestação, regulação da produção e da venda de Cannabis sativa como forma de tomar o processo das mãos dos traficantes. São diversas as revoluções pontuais que Mujica deixará na sua passagem pelo governo uruguaio, que se encerra neste 2014. Ano em que a companheira Lucía completará 70 anos de uma vida intensa, em 25 de setembro.

A reeleição não é possível pela Constituição uruguaia, e Mujica não a deseja. Aos 78 anos, convenceu-se de que os ideais de guerrilheiro tupamaro um dia se realizarão. Mas tudo se dará em uma "construção intergeracional", um processo mais longo do que ambos, na juventude rebelde que compartilharam, acreditavam ser possível.



Lucía vai além. Rejeita insinuações segundo as quais poderia um dia suceder o marido. Quando a pergunta lhe é feita ou quando seu nome é cogitado para tentar a vice-presidência na chapa do provável candidato frente-amplista Tabaré Vásquez (o antecessor de seu marido, entre 2005 e 2010, que deve ter a indicação confirmada), ela se diz impressionada pelas agruras emocionais de dirigir um país. E lembra um drama pessoal: anos atrás, recuperou-se de um câncer de mama. Acha que a militância política e o desgastante exercício do poder adoecem as pessoas.


Não. Aparentemente, isso não é para Lucía. Definida por Mujica como seu "disco rígido", ela cultiva com carinho a rotina de embarcar na "Fusqueta" azul, sempre ao lado do marido, e plantar suas hortaliças no terreno reservado para os sonhos do casal. É lá que também cuidam dos seus cães, o mais famoso deles a pernetinha Manuela, o mimo do casal.



Assim como Mujica faz com seus vencimentos presidenciais, Lucía reserva a maior parte dos proventos para doar a ongs Não-Governamentais.



Lucía e Mujica são afinados até na rejeição a cerimônias e ostentações de poder. Legisladora dedicada, entra cedo e sai tarde do Senado. No seu gabinete, a mesa está sempre abarrotada de documentos que faz questão de ler. Há, também, livros e fotos de personalidades como Che Guevara, Carlos Gardel e, claro, "Pepe" Mujica. É um gabinete semelhante ao que ela tem em casa, com livros, flâmulas, pôsteres e a marcante identidade de quem ali vive resguardado por três policiais numa viatura que parece lembrar a eles próprios: ora, ali vive um presidente e sua mulher senadora.

Hoje, Lucía é a imagem de uma senhora ponderada, que zela pelo marido, um típico avô traquinas com bigode de tangueiro, que tão bem cairia nos jogos de dama da Praça da Alfândega. No passado, ela assustou sua família de classe média alta, com a qual viveu, na infância, em bairros luxuosos de Montevidéu e até em Punta del Este. Seu irmão, Carlos Topolansky, um ano mais velho (são sete no total), recorda do pai, um engenheiro, chocado ao saber que a filha, uma menina dedicada que estudara balé e piano, que lia, pintava, jogava vôlei, andava de bicicleta e cavalgava com estilo, tornara-se uma guerrilheira ao participar da política estudantil na faculdade de arquitetura. Pior: essa informação chegou numa batida policial, em 1969. Pior ainda: a irmã gêmea de Lucía, María Elia, também aderira ao Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros (MLN-T), em 1967.

Foram anos difíceis, 13 deles na prisão. Não tão difíceis como os de Mujica, que amargou a solitária e se distraía falando com as formigas durante boa parte dos 14 anos em que esteve preso. Para Lucía, foram raríssimos os momentos de solidão no cárcere. Até dividiu o espaço, certa vez, com uma freira que havia sido sua professora em Montevidéu.

— Aprendíamos muito umas com as outras, idiomas, experiências de vida. Escrevíamos histórias para contarmos umas às outras.


Lucía soube da importância de aceitar o diferente, seja na maneira de se vestir ou na forma de pensar. Pede que entendam o marido, um presidente que dispensa a pretensa respeitabilidade da gravata. Entende que as pessoas devem se vestir como se sentem melhor. Em casa, divide as tarefas. Mujica faz o chimarrão, ela prepara o café da manhã. Ouvem juntos o noticiário no rádio. A cozinha, aliás, é um espaço que Lucía domina: diz fazer bem empanadas, pastéis e pizzas. Inventa. Prepara a mesa bem enfeitada para o marido. Tomam vinho moderadamente durante as refeições. Produzem, na chácara de Rincón del Cerro, seu próprio Tannat. Em torno dos dois cálices, falam da vida, admitem que lamentam não ter filhos, projetam adotar 30 ou 40 crianças quando o mandato presidencial chegar ao fim. Fora da chácara, gostam de ir a apresentações de tango, o ritmo que lhes encanta. E nesse ritmo tão platino, de dramas e glórias, de escuros e claros, ela deixou a guerrilha, criou a facção frenteamplista Movimento de Participação Popular, tornou-se deputada em 2000, passou por diversas comissões e chegou ao Senado.



Pavimentou o próprio caminho político. Mas não nega: as veredas que mais a seduzem são as que conduzem a ela e a Mujica, no seu Fusca azul, à chácara de grama alta e paredes caiadas, onde põem a mão na terra para plantar sonhos na forma de hortaliças.




Fonte na íntegra: Zero Hora
Imagens: Zero Hora, Google (colocadas por este blog)

Um comentário:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Fazem falta ao mundo, pena o Uruguai ser um pais tão pequeno...

"Pavimentou o próprio caminho político. Mas não nega: as veredas que mais a seduzem são as que conduzem a ela e a Mujica, no seu Fusca azul, à chácara de grama alta e paredes caiadas, onde põem a mão na terra para plantar sonhos na forma de hortaliças."

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