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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Por que o programa Bolsa Família desperta tanto ódio de classe?





Por Fatima Oliveira *



É o maior e mais importante projeto antipobreza do mundo

Eu não tinha a dimensão do ódio de classe contra o Bolsa Família. Supunha que era apenas uma birra de conservadores contra o PT e quem criticava o Bolsa Família o fazia por rancor de classe a Lula, ou algo do gênero, jamais por ser contra pobre matar a sua fome com dinheiro público.

Idiota ingenuidade a minha! A questão não é de autoria, mas de destinatário! Os críticos esquecem que a fome não é um problema pessoal de quem passa fome, mas um problema político. E Lula assumiu que o Brasil tem o dever de cuidar de sua gente quando ela não dá conta e enquanto não dá conta por si mesma. E Dilma honra o compromisso.

Estou exausta de tanto ouvir que não há mais empregada doméstica, babá, “meninas pra criar”, braços para a lavoura e as lidas das fazendas que não são agronegócios... E que a culpa é do Bolsa Família! Conheço muita gente que está vendendo casas de campo, médias e pequenas propriedades rurais porque simplesmente não encontra “trabalhadores braçais” nem para capinar um pátio, quanto mais para manter a postos “um moleque de mandados”, como era o costume até há pouco tempo! E o fenômeno é creditado exclusivamente ao Bolsa Família.

Esquecem a penetração massiva do capitalismo no campo que emprega, ainda que pagando uma “merreca”, com garantias trabalhistas, em serviços menos duros do que ficar 24 horas por dia à disposição dos “mandados” da casa-grande, que raramente “assina carteira”. Eis a verdade!

Esquecem que a população rural no Brasil hoje é escassa. Dados do IBGE de setembro de 2012: a população residente rural é 15% da população total do país: 195,24 milhões. Não há muitos braços disponíveis no campo, muito menos sobrando e clamando por um prato de comida, gente disposta a alugar sua força de trabalho por qualquer tostão, num regime de quase escravidão, além do que há outras ocupações com salários e condições trabalhistas mais atraentes do que capinar, “trabalhar de aluguel”, que em geral nem dá para comprar o “dicumê”. Dados de 2009 já informavam que 44,7% dos moradores na zona rural auferiam renda de atividades não agrícolas!

Basta juntar três pessoas de classe média que as críticas negativas ao Bolsa Família brotam como cogumelos. Após a boataria de 18 de maio, que o Bolsa Família seria extinto, esse assunto se tornou obrigatório. Fazem questão de ignorar que ele é o maior e mais importante programa antipobreza do mundo e foi copiado por 40 países – é uma “transferência condicional de renda” que objetiva combater a pobreza existente e quebrar o seu ciclo. Atualmente, ajuda 50 milhões de brasileiros: mais de 1/4 do povo! E investe apenas 0,8% do PIB! Sem tal dinheiro, mais de 1/4 da população brasileira ainda estaria passando fome!

Mas há gente sem repertório humanitário, como as que escreveram dois tuítes que recebi: “Nunca vi tanta gente nutrida nas filas dos caixas eletrônicos para receber o Bolsa Família, até parecia fila para fazer cirurgia bariátrica”; e “Eu também nunca havia visto tanta gente rechonchuda reunida para sugar a bolsa-voto!”.Como disse a minha personagem dona Lô: “Coisa de gente má que nunca soube o que é comer pastel de imaginação; quem pensa assim integra as hostes da campanha Cansei de Sustentar Vagabundo, que circulou nas eleições presidenciais de 2010”.

São evidências de que há gente que não se importa e até gosta de viver num mundo em que, como escreveu Josué de Castro, em “Geografia da Fome” (1984): “Metade da humanidade não come e a outra não dorme com medo da que não come...”.





* Médica e escritora. É do Conselho Diretor da Comissão de Cidadania e Reprodução e do Conselho da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe. Indicada ao Prêmio Nobel da paz 2005.



Fonte: Vermelho
Imagem: Google

Um comentário:

Tibiriçá disse...

Burgos, acredito que o bolsa família é um grande projeto para ajudar aos pobres e por isso deve ser mantido. Também acredito que essa ajuda não é nenhum favor, é sim uma obrigação, para mim não importa o viés político que isso representa, pois as pessoas precisam de ajuda agora, hoje. Quem é contra o bolsa família tem todo o direito de sê-lo. Porém, não vejo na mídia os que são contra o bolsa família serem contra o bolsa empresário que através do BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Social empresta, financia o empresariado com o dinheiro do trabalhador, já que os fundos do banco são constituidos em grande parte pelo FAT - Fundo de Amparo ao Trabalhador. Também não vejo a população indignada que reclama do transporte, reclama da saúde, reclama da segurança pública, reclama da educação, e com razão, não vejo uma manifestaçãozinha sequer contra a o pagamento da dívida pública onde a União empenha mais de 40% dos recursos (nosso dinheiro dos impostos) para dar aos rentistas, bancos nacionais e estrangeiros, para pagar uma dívida que nunca acaba e que por sua vez já é causa de suspeição, cuja estrutura foi configurada sobre juros compostos, isto é juros sobre juros. Então o investimento do bolsa família nesse contexto é apenas um palito.
Enquanto isso os tolos vão as ruas protestar para diminuir alguns centavos da tarifa do transporte, mas o que realmente interessa o populacho não faz a mínima idéia. Tramita (nas gavetas) no Congresso Nacional o resultado da CPI - Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a auditoria da dívida. E, enquanto isso temos copa das confederações, protestos aqui, acolá...tudo cortina de fumaça.

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